Como a série The Witcher é salva pelo formato

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
23/01/2020

[TEXTO SEM SPOILERS]

A série The Witcher, da Netflix, baseada na saga literária do escritor polonês Andrzej Sapkowski e estrelada por Henry Cavill, é um interessante acréscimo ao mundo das histórias de fantasia. 

Meu primeiro contato com a série se deu por meio de terceiros, na roda mundial de discussões, quando o feed do Twitter trouxe até meus olhos um debate sobre se The Witcher poderia ser “o novo Game Of Thrones”, ou seja, ocupar no imaginário das gentes o lugar da produção do HBO que se tornou um dos principais fenômenos midiáticos de todos os tempos. 

Claro que comparações do tipo são inevitáveis, ainda mais para um público que ficou “órfão” após o final de GoT e busca um novo universo de fantasia para habitar, mas não acredito que analisar e medir uma produção pelos padrões de outra possa ser um critério justo e nem mesmo eficaz. A The Witcher o que é de The Witcher. 

Instigado pela repercussão da série, começo a assistir ao primeiro episódio e, desde o começo, sou fisgado pela força e personalidade de Geralt de Rivia, o matador de bestas interpretado por Cavill. Mas, a partir do segundo capítulo, começo a me perguntar: o que, afinal, está acontecendo? Este universo terá alguma liga?

Explico o meu sentimento:

É fundamental, para toda série fechada que se pretenda boa, que haja fio condutor, objetivos, direcionamento, enfim, que a jornada das personagens tenha um propósito. E esse, à primeira vista, não parece ser o caso de The Witcher. Em vez de uma série cuja temporada inicial tenha rumo e justificativa, as andanças de Geralt de Rivia pelo Continente parecem ser aleatórias, como se fosse uma série de TV permanente e sem foco (“que empolgantes aventuras aguardam o nosso destemido Geralt no episódio de hoje?”). 

A perambulação de Geralt de vilarejo em vilarejo, como caçador de recompensas andarilho, é tão casual que num episódio ele está ajudando um rei a recuperar a filha amaldiçoada, em outro ele está participando de um torneio de caça a dragões, em outro está servindo de guarda-costas a um bardo mulherengo. 

Porém, tudo começa a fazer sentido quando entendo a lógica das três linhas do tempo de The Witcher e, mais ainda, quando essas timelines se entrelaçam. 

AS LINHAS DO TEMPO DE THE WITCHER

A série começa enfocando três personagens distintas, que, a princípio, parecem estar vivendo na mesma época, mas só lá pelo terceiro episódio entendemos plenamente qual é o tempo narrativo de cada uma: 

::  A linha do tempo da Princesa Cirilla (o tempo presente): Herdeira do trono de Cintra, Cirilla, ou simplesmente Ciri, é neta da poderosa e destemida (ou temerária) Rainha Calanthe. A jovem, interpretada por Freya Allan, foge pelo Continente enquanto é perseguida pelos invasores de Nilfgaard, que destruíram Cintra e aparentemente precisam da princesa pelos seus poderes. Antes de morrer, a Rainha Calanthe ordenou que Ciri encontrasse Geralt de Rivia, de quem dependeria seu destino.

:: A linha do tempo de Geralt (o passado de média distância): “Se Ciri procura Geralt, logo logo ela o encontrará, pois ambos estão aparecendo na mesma região”, penso a princípio. Mas depois é revelado que os acontecimentos da timeline do bruxo se dão vários anos antes do próprio nascimento da princesa.

:: A linha do tempo de Yennefer (o passado de longa distância): Acompanhamos a formação e a transformação da feiticeira Yennefer de Vengerberg (encarnada por Anya Chalotra) e, por meio da sua história, vamos conhecendo  também A Irmandade, uma corporação de magia que tem um “seminário” chamado Aretusa, onde magos e magas são treinados pela implacável Tissaia (MyAnna Buring) para atuar nos diversos reinos como conselheiros e protetores (ou manipuladores) dos reis e rainhas, com objetivos próprios. A metamorfose de Yennefer, de menina fisicamente deformada e humilhada a uma altiva e petulante feiticeira em busca de poder e de legado, principia vários anos antes da linha do tempo de Geralt. 

À medida que a primeira temporada avança, os anos vão passando, bruxos e feiticeiras revelam ter um metabolismo lento e uma longa resistência física ao passar dos anos – e as linhas do tempo se cruzam. E é aí que aquela minha impressão inicial, a de que faltava à jornada de Geralt um fio condutor ou um propósito, desaparece. 

A aparente aleatoriedade e falta de foco da linha do tempo de Geralt desaparece quando ocorre a coadunação com a timeline de Ciri, e a jornada do bruxo ganha, de forma metalinguística, um sentido. 

(OK, eu tinha prometido no começo que não daria spoilers, mas acontece que as pessoas mentem. A partir daqui haverá alguns. )

A ligação de Geralt e Ciri começa muitos antes que a menina fugisse de Cintra. No episódio Of Banquets, Bastards and Burials (S01E04), Geralt acompanha, a contragosto, seu amigo bardo Jaskier (autor, na história, da canção que viralizou na internet, Toss A Coin To Your Witcher) a um baile real em Cintra. Aparentemente, trata-se de mais um dos rolês acidentais de Geralt pelo Continente. O episódio, que já bastaria em si mesmo como entretenimento do bom, apenas pela presença marcante e engraçada da Rainha Calanthe, demonstra, todavia, ser crucial para a série, ao apresentar o futuro vínculo  entre Geralt e Ciri. 

Ao defender o amor da futura mãe de Cirilla, a Princesa Pavetta, e do seu pai, o amaldiçoado Duny, Geralt se vê, de novo contra a vontade, envolto na Lei da Surpresa, que faz com que o destino do bebê de Pavetta lhe seja prometido (para entender o imbróglio, assista ao episódio). Geralt e Ciri estão profundamente ligados pelos desígnios do Destino, algo que o cético e teimoso bruxo tenta negar com todas as suas forças. 

E então, à luz desta revelação e dos eventos que se desenrolam a partir dos episódios seguintes, entendo a aparente falta de fio condutor na jornada de Geralt. O cruzamento e a comparação das timelines, esse recurso metalinguístico, dá sentido à falta de sentido: Geralt de Rivia não é vítima de roteiristas com déficit de atenção, como antes poderia parecer, ele apenas é um descrente no Destino, e, aliás, tenta fugir do Destino. Suas andanças sem propósito são propositais; Geralt está tentando negar o determinismo e ser livre das amarras de um Destino que, bem mais adiante, ele decidirá abraçar.

A primeira temporada de The Witcher teve o importante mérito de apresentar as bases do universo de forma inteligente e sutil. 

Que venha a segunda (mas não tenha muita pressa, leitor. Conforme informou a showrunner Lauren Schmidt, as aventuras do trio que apronta as maiores confusões pelo continente só recomeçam em 2021).