O livro Tropas Estelares: uma análise do fascismo a partir de dentro

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
14/07/2020

Johnnie Rico jura que é mais livre que os insetos gigantescos que mata em batalhas pela galáxia – e é esta ilusão a força motriz que faz com que ele e seus companheiros continuem lutando e sustentando uma sociedade global baseada na força. Acompanhando o diário de caserna do narrador-protagonista do livro Tropas Estelares, de Robert Heinlein, vamos paulatinamente entendendo que é essa a tônica do premiado romance: a de que o regime totalitário e militarista lá retratado, apesar de dar ao indivíduo uma aparência de escolha, na prática o oblitera e torna tão livre (e descartável) quanto um cupim ou uma formiga em uma colônia.

Tropas Estelares é uma narrativa envolvente, que trata de questões sérias e pesadas de forma instigante e bem encaixada nos eventos contados, sem didatismos injustificados. Acompanhamos a trajetória de Rico desde o seu ingresso nas Forças Armadas e, por meio da passagem do jovem pelo treinamento e pelo cotidiano do combate, Heinlein resgata, por reminiscências, os estágios do movimento que transformou a Terra inteira em um Estado planetário de cunho fascista.

Nota-se que tudo na dinâmica das Forças Armadas da Federação Terrana é dissimulado de modo a dar a ilusão de liberdade de escolha: quando o adolescente Johnnie comunica à família sua intenção de servir, a reação do seu pai, contrário ao desejo do filho, é acusar o professor de História e Filosofia da Moral, o coronel reformado Dubois, de doutrinar os jovens para recrutá-los, um argumento que Johnnie rechaça alegando que Dubois faz o contrário; desencoraja o serviço militar. As reminiscências do narrador sobre as aulas do professor Dubois, no entanto, mostram que o pai de Johnnie tinha razão. Até porque a melhor maneira de convencer adolescentes a fazer algo é dizer-lhes que não devem ou não são capazes de fazê-lo.

A aparente recusa do Estado militarizado em receber recrutas para as Forças Armadas se repete ao longo de toda a narrativa de Tropas Estelares. Quando Johnnie e os amigos procuram um posto de recrutamento, um militar reformado com membros amputados é usado para tentar dissuadir os postulantes da ideia de se alistar. Depois, ao longo da triagem de aptidões, fica a impressão de que o objetivo dos examinadores é fazer o recruta crer que ele não se encaixa em nenhum setor da corporação. No Acampamento Currie, centro de treinamento dos jovens soldados da Infantaria Móvel, a exoneração dos que não desejam prosseguir é facilitada. O mesmo vale em tempo de guerra: exonerar-se e voltar a ser um civil (sem cidadania plena) é um direito dos soldados e isso lhes é constantemente lembrado. 

Aqui, cabe destacar: no mundo de Tropas Estelares, o suposto chamariz que leva tantos jovens a suportarem os perigos e agruras do serviço militar é a possibilidade de fazer jus à cidadania plena: na Federação Terrana, os único cidadãos com plenos direitos políticos – incluindo o direito de votar nas eleições – são os que passaram pelas Forças Armadas, mas mesmo este prêmio é distante e etéreo, pois o voto só é permitido após a reforma, sendo um direito vedado a membros da ativa. O soldado só poderá votar e ajudar a administrar o Estado SE sobreviver aos anos (às vezes, longos anos) de serviço militar. 

Assim, o que parece uma quimera inalcançável serve de motor da sociedade: o Estado mundial é mantido e protegido por cidadãos em gestação, por não-cidadãos que pensam e atuam como se cidadãos fossem. Rico e seus companheiros defendem seu Estado não como os não-cidadãos que são, mas como os cidadãos que serão, e que talvez, o que é mais provável, nunca venham a ser. E mantê-los nessa não-cidadania é condição para que o Estado siga existindo como possibilidade permanente, dever-ser eterno.

Ao contrapor os soldados humanos, em tese indivíduos racionais que guerreiam por livre escolha, aos insetos nativos de Klendathu, uma espécie dividida em castas especializadas em que a quase totalidade dos soldados é desprovida de pensamento e vontade próprios, Heinlein aos poucos vai mostrando, ao longo da escalada de Johnnie Rico pela hierarquia militar da Federação Terrana, que há mais semelhança entre uns e outros do que possa parecer. 

Tropas Estelares acaba se revelando uma sutil e aguçada crítica aos totalitarismos e ao militarismo, em que o autor habilmente deixa para o leitor a tarefa de dar-se conta de que os insetos que os soldados terráqueos enfrentam são na verdade um espelho da sua condição. Uma crítica feita a partir de dentro, apenas mostrando e não afirmando que o Estado mundial totalitário retratado na obra reduz o homem a um inseto sem vontade e sem individualidade genuína, utilizando para isso a máquina de propaganda e a própria estrutura do Estado.

UM ENREDO ATUAL

Num período da história global em que voltam a aflorar em diversos países governos ultranacionalistas de viés autoritário, e, em alguns lugares, com a explosão da violência e da intranquilidade social (o que deve ser agravado pela pandemia de covid-19), Tropas Estelares apresenta uma temática atual e urgente. 

Por meio das reminiscências do protagonista, em especial suas memórias das aulas do professor Dubois, Heinlein conta a história de como a eficácia do Estado militarizado na redução dos índices de criminalidade e na contenção (ou deveríamos dizer “canalização”?) da violência dos jovens serviu para pavimentar o caminho da adoção desse regime em escala global. 

Assim, o livro serve como um alerta. Voltaremos a ser enganados pelo canto de sereia dos fascismos, como outras sociedades o foram antes de nós? Se isso acontecer, a História e a ficção afirmam em uníssono: a paz e a liberdade deixarão de existir, e o destino da sociedade será o conflito sem fim.