O livro Solaris: um mergulho nas profundezas da psique

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
11/08/2020

O livro Solaris (publicado no Brasil pela Aleph) apresenta uma das mais intrigantes e criativas visões da ficção científica sobre os mistérios do universo. 

Lançado pelo escritor polonês Stanislaw Lem em 1961, o complexo romance ganhou fama mundial ao ser adaptado para o cinema em 1972 pelo diretor soviético Andrei Tarkovsky (há outros dois filmes baseados no livro de Lem, um de 1968 e outro de 2002). 

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Solaris apresenta a jornada do psicólogo Kris Kelvin em uma base terráquea no misterioso planeta que dá nome ao romance. Orbitando um sistema estelar binário, o estranho corpo celeste tornou-se objeto de fascínio e curiosidade na Terra quando se descobriu que o seu oceano consiste num colossal organismo vivo. 

A chegada de Kelvin à instalação não se dá nas melhores circunstâncias. O seu amigo Gibarian, um dos pesquisadores, acabou de se suicidar e os dois sobreviventes apresentam um comportamento paranóico e imprevisível. O psicólogo não tarda a entender a razão da angustiante tensão que aflige a base: após a primeira noite de sono em Solaris, Kelvin acorda ao lado de Harey, sua companheira que tinha se suicidado anos antes. 

Fica claro que Harey e os visitantes que os demais tripulantes da base humana recebem em seus aposentos são criações do oceano vivo de Solaris, mas como – e, principalmente, por que – essas criaturas aparecem?

Esses questionamentos são o fio condutor do romance de Lem, que mescla uma complexa e cientificista descrição da “solarística”, a cosmologia fictícia própria do planeta Solaris, com elaboradas ponderações de ordem filosófica e ética. Devo admitir que as longas investidas de Lem na exposição das bases da solarística me soaram maçantes e modorrentas. O romance, para mim, vale muito mais pelo mergulho na psiqué humana do que pelo exaustivo detalhamento morfológico das ondulações do oceano vivo.

Solaris, ao apontar para fora, realiza um salto para dentro. Kris Kelvin viajou aos confins do espaço para entender sua própria angústia, sua própria incompletude. As criaturas geradas pelo titânico oceano a partir de memórias escondidas nas profundezas da mente dos astronautas humanos acabam por trazer à tona as dores, as dúvidas, os sentimentos e as vontades que antes se mantinham ocultas. Solaris é um espelho. 

Pela riqueza de elementos e pela coerência com que são amarrados, o romance de Stanislaw Lem merece lugar de destaque no panteão das grandes obras literárias de ficção científica de todos os tempos.