O hiper-realismo de Perdido em Marte

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
20/03/2015

O livro Perdido em Marte, de Andy Weir, lançado no Brasil pela Editora Arqueiro, apresenta já nas primeiras frases a tragédia do seu protagonista: durante a terceira missão tripulada ao Planeta Vermelho, num futuro próximo, uma tempestade de areia de proporções catastróficas obriga a tripulação da Ares 3 a antecipar o retorno à Terra e, durante a evacuação, o astronauta Mark Watney sofre um acidente, é dado como morto pelos companheiros e deixado para trás. Mas ele está vivo, sem condições de se comunicar com a Nasa e sem grandes perspectivas de sobreviver para ser resgatado (a cavalaria não pode simplesmente ir ao aeroporto e pegar o próximo voo para Acidalia Planitia; organizar uma operação de salvamento dessas leva anos).

Baixar-Livro-Perdido-Em-Marte-Andy-Weir-em-PDF-ePub-e-MobiÉ nesse espírito que o herói-narrador Watney começa a contar a história em seu diário, no que se apresenta como uma epopeia de sobrevivência em uma terra hostil. E de convivência com a solidão.

(Pequeno parêntese: o título original dado ao livro por Andy Weir, melhor que o da tradução brasileira, é The Martian – O Marciano -, passando a ideia de que Watney, ao ser forçado a fixar residência no planeta vizinho, torna-se na prática o primeiro cidadão marciano.)

E a jornada de herói do terráqueo que se torna marciano (adaptada a um contexto em que o inimigo a derrotar é um planeta inteiro) não é moleza. Como o próprio narrador nos diz, Marte (e Weir) passa o tempo todo tentando matá-lo. A cada dificuldade vencida por Watney com sua engenhosidade (e, mais tarde, com o auxílio à distância da Nasa), surge uma outra ameaça real e assustadora a sua sobrevivência.

Hiper-realismo

Perdido em Marte não é um daqueles livros de sci-fi com antevisões proféticas de um futuro de tecnologia indistinguível da magia, nem uma obra de pretensões metafísicas. A tecnologia do universo apresentado no romance é quase a mesma que já temos hoje e Mark Watney está mais para McGyver que para David Bowman. Ele é um engenheiro e botânico que resolve problemas extraterrestres com fita adesiva e um pedaço de arame.

Leia também:

> O aspecto humano do filme Perdido em Marte

É hiper-realismo: o romance trata de problemas práticos do dia a dia do morador de Acidalia Planitia e acompanhamos seu processo, por tentativa e erro (poucos erros, já que nas suas circunstâncias qualquer equívoco pode ser fatal), de resolução de dilemas básicos de sobrevivência: como produzir mais água num planeta sem água, como estabelecer comunicação com a Terra, como tapar um buraco no traje antes de ser morto pela atmosfera marciana, como fertilizar o solo extraterrestre para produzir a comida necessária à sobrevivência.

Por ser botânico, Watney era o encarregado de experiências com o solo na missão. No interior do Hab(a estrutura habitável montada pelos astronautas), ele se torna a primeira pessoa a cultivar batatas em solo marciano, depois de um longo processo de hidratação e adubação (adivinhe de onde ele tirou o esterco necessário).

Podemos nos perguntar: por que raios a Nasa faria astronautas levarem batatas frescas para Marte? Isso não seria um deus ex-machina cretino demais, colocado lá pelo autor só pra salvar seu herói da inanição? Pode ser, mas até isso é justificado: as batatas ganharam lugar na despensa da Ares 3 porque a missão coincidiria com o Dia de Ação de Graças e assim os peregrinos espaciais poderiam preparar uma ceia tradicional no Planeta Vermelho. Como o jantar acabou sendo abortado com a fuga da tripulação, as batatas, plantadas em solo alienígena, garantiram a Watney alguns meses de sobrevida ao estilo irlandês. Mas não podemos acusar Weir de favorecer o protagonista, pois, se o astronauta ganhou uma forcinha ao receber uma geladeira cheia de batatas, por outro lado teve muitíssimos pepinos (estes, metafóricos) para resolver.

(é aqui que os spoilers começam a ficar perigosos)

spoiler-alerta

A jornada rodoviária de Watney para resgatar o jipe-robô Sojourner, da missão não-tripuladaPathfinder (que realmente está lá, até hoje, estacionado numa planície marciana), e depois o uso do seu sistema de comunicação para falar com a Terra, é um dos pontos altos do livro e tem função capital na narrativa: dá a nós e ao protagonista a convicção de que, sim, o resgate é possível.

Leia também:

> O filme Perdido em Marte: ao vencedor, as batatas

Todas essas peripécias e vicissitudes do nosso McGyver exilado em Marte são contadas com riqueza de detalhes técnicos (mas sem ser uma leitura maçante) e eu, que fico hesitante toda vez que sou obrigado a fazer uma lista de compras de ferragem, não tenho alternativa a não ser acreditar no autor quando ele descreve os procedimentos.

Quero dizer: não sei como produzir água a partir de hidrazina (aliás, nem sabia que a hidrazina existia antes de ler o livro), nem como reanimar um jipe espacial aposentado, nem qual a temperatura e a umidade do ar ideais para a germinação das batatas, mas Andy Weir parece ter feito uma boa pesquisa antes de escrever. Ele próprio, filho de um físico de partículas, é um programador com diploma em Ciência da Computação pela UC San Diego – ou seja, uma pessoa familiarizada com a ciência e a técnica.

Dualidade narrativa

Perdido em Marte começa, e continua assim por diversos capítulos, como um diário de Watney: escrito em primeira pessoa, em prosa informal, com explicações técnicas misturadas a piadinhas e tiradas espirituosas (na maioria, muito boas – só a implicância dele com a música disco e com os seriados dos anos 70 deixados no computador da comandante Lewis cansa um pouco), o que dá um tom de voyeurismo e relato dramático e instiga a leitura.

Muitos capítulos depois, o leitor é surpreendido com o início de uma narrativa em terceira pessoa… ambientada na Terra! É aí que ficamos sabendo como a Nasa descobriu que Watney está vivo, como é o pesaroso retorno da tripulação a bordo da nave Hermes, como o drama do sobrevivente é apresentado com ares de novela pela imprensa e como são feitos os preparativos para a tentativa de resgate do astronauta. É assim também que conhecemos os outros personagens (distantes) da história do nosso herói: os manda-chuvas da missão, Venkat Kapoor, Mitch Henderson e Teddy Sanders, e a analista de imagens Mindy Park, a primeira a perceber que Watney está vivo.

Pelo resto do livro, são alternados trechos do diário do cidadão marciano e a narrativa em terceira pessoa. Uma pena. Pessoalmente, eu preferiria que o livro fosse 100% focado no diário de Watney. Faria mais sentido, daria mais força à história e evitaria algumas obviedades e clichês da narrativa em terceira pessoa. E mesmo situações que Watney não poderia acompanhar, por acontecerem a milhões de quilômetros de distância, ainda assim poderiam ser contadas por ele no diário a partir do ponto em que a comunicação com a Terra é restabelecida e as fofocas de lado a lado são colocadas em dia. Weir desperdiçou uma boa chance de escrever um livro ainda melhor.

(As únicas partes que fazem valer a pena o recurso da narrativa onisciente são os trechos ambientados na Hermes, pois nos permitem acompanhar a rotina e o drama de uma tripulação que passa da tristeza de perder um companheiro à expectativa e ansiedade de voltar para salvá-lo, ainda que para isso seja necessário organizar um motim contra a Nasa e colocar a sua própria sobrevivência em sério risco. E, ok, também ajuda a aumentar o suspense o fato de nós sabermos, e Watney não, que o seu veículo ruma para uma gigantesca tempestade de areia que pode impedi-lo de chegar ao ponto de resgate.)

O drama d’O Marciano, que enfrenta a ameaça da morte no seu lar vermelho por tanto tempo, dura até a última página, e o final apoteótico e redentor é de chorar (mas sou suspeito, jornadas heroicas me conquistam facinho, facinho). Em resumo: QUE BAITA LIVRO.