Crítica: A Última Caçada de Kraven

Gustavo Kaspary
Por Gustavo Kaspary
06/05/2015

A trama de A Última Caçada de Kraven foi primeiramente concebida para o Batman. A cidade trevosa, a Lua corpulenta, o suspense do enredo, a narrativa sombria e sem espaço para piadinhas… Ingredientes comuns das histórias do Morcego, mas que acabaram na Nova York de Peter Parker. O resultado: uma HQ do Homem-Aranha diferente de todas até então.

Não diferente do que indica o título, a história é focada em Kraven, antigo vilão do Teioso que, cansado de ser humilhado todas as vezes que trombava com o herói, decide tentar uma última vez alcançar a vitória. Do outro lado, temos um Peter Parker perturbado, cada vez mais paranoico devido ao perigo que enfrenta todos os dias como amigo da vizinhança. As duas cargas emocionais acompanham os personagens ao crítico momento de embate entre os dois, e o leitor só tem a ganhar com isso.

ultima cacada de kravenA opção pelo inexplorado contribuiu para o sucesso do roteiro de J.M. Dematteis. Afinal, até então não temos muito conhecimento sobre o Caçador. O que o tornou desse jeito? Qual o motivo de detestar a sociedade? O quão psicótico ele é? Todas essas questões serviram de referência para o autor, que fez de um personagem medíocre o trunfo de uma história memorável.

Não demora em nos familiarizarmos com Kraven, comprarmos suas ambições, entendermos suas razões. Em poucas páginas, Dematteis nos oferece mais informações sobre vilão, contribui mais à sua personalidade, do que todas as histórias anteriores conseguiram juntas – isso desde 1964.

O ambiente obscuro de A Última Caçada de Kraventambém é um dos fatores que torna a história singular – ainda mais por se tratar de Homem-Aranha. Desenhos realistas em tonalidades negras ornamentam uma trama repleta de temores, pesadelos, memórias, silêncio e acontecimentos inesperados. Com essa atmosfera já desenvolvida, a trama consegue se desenvolver em aprazível fórmula de escrita — há momentos em que o texto flui tal qual uma poesia.

A ação ocorre de uma maneira, digamos, diferente do comum. Todavia, de forma funcional, sem causar ruídos ou estranhamentos. E isso graças a desenhos primorosos, que são capazes de causar uma tensão inalcançável para palavras e diálogos (uma imagem vale mais do que mil…).

kraven the hunter

O preço desta interpretação sombria do universo aracnídeo é pago com o desgosto dos que acusam a história de descaracterizar o super-herói. Não falta quem diga que A Última Caçada não tem nada de Homem-Aranha, pois – e neste ponto têm razão – trata-se de uma série que abandona todas as características marcantes do personagem.

Mesmo assim, entre contentes e desgostosos, é indiscutível que trata-se de uma das mais icônicas histórias do Cabeça de Teia. Um título que nos apresenta a um Peter Parker que condiz com o seu passado de dor, escolhas erradas e assombrações — aspectos de uma identidade que casam perfeitamente com o estilo noir de se contar um conto.

Recentemente, A Última Caçada de Kraven foi relançada pela editora Salvat.

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