Uma Nova Esperança: o Star Wars fechado

Jefferson Nunes
Por Jefferson Nunes
05/01/2016

Há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante…

cartaz-star-wars-episodio-ivDesde que essas palavras apareceram nas telas dos cinemas americanos em 17 de Maio de 1977 (o filme só chegou a terras tupiniquins em novembro do mesmo ano), a história do cinema mudou radicalmente. Era o primeiro contato do público com o universo que George Lucas vinha desenvolvendo há anos, contato esse que se alargaria muito nas próximas décadas.

Partindo de um obscuro romance intergaláctico lançado seis meses antes, em dezembro de 1976, intitulado Star Wars: From Adventures of Luke Skywalker, escrito pelo ghostwriter Alan Dean Foster (mas creditado a Lucas), e que vendera modestamente, o filme Star Wars gerou não apenas diversão e curiosidade para os espectadores, mas causou uma revolução na própria forma de fazer cinema, iniciando a era dos blockbusters, filmes com alto investimento em tecnologia, produção e propaganda. O livro de Foster, assim como as primeiras HQs de SW da Marvel (que integram a série A Long Time Ago), foi encomendado para promover o filme, apontando uma nova forma de patrocinar e expandir o interesse por uma produção cinematográfica.

As pretensões de Lucas ao lançar o filme, porém, eram bem mais modestas, e ele certamente não esperava uma recepção tão favorável (nem tanto $$$$ em sua conta bancária), tanto é que o nome original da película era simplesmente Star Wars, só recebendo o complemento “Uma Nova Esperança” após o lançamento de O Império Contra Ataca, em 1981. Esse sucesso inesperado, felizmente, permitiu a continuação de sua história intergaláctica, cativando milhões ao redor do mundo e unindo gerações.

 UM CAST ESPECIAL E IMPROVÁVEL

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Apesar de toda a ênfase dada por muitos aos efeitos visuais surpreendentes e inovadores apresentados, o filme de Lucas trouxe muito mais. O clássico de 1977 é uma obra especial também do ponto de vista do cast que trabalhou em sua imagem.

A figura ingênua, simples e pura de Luke Skywalker (impressão de pureza aumentada pelos belos olhos azuis de Mark Hamill) ganhou um contraponto perfeito na exalação negra de maldade e perfídia do estranho mascarado Darth Vader. Este, aliás, quase eclipsou seu oponente do lado luminoso da Força, transformando-se imediatamente num dos vilões mais amados de todos os tempos, e mostrando que figuras malignas podem, sim, ter destaque em um filme comercial.

Outro papel de grande destaque é o da Princesa Leia, que, fugindo da maioria dos estereótipos então vigentes, foi apresentada como uma mulher forte e guerreira, que consegue se defender e enfrentar vilões sozinha (e, inclusive, resistir a um grande interrogatório perpassado por tortura, algo não muito comum de ser visto na época para uma personagem feminina), sem passar pelos clichês da mocinha que precisa ser salva por homens fortes e galantes (embora ela eventualmente acabe mesmo sendo salva por eles). Isso é um ponto importante de ser ressaltado: apesar de ainda não haver na época um movimento feminista tão unido e construído como atualmente, o papel forte de Carrie Fisher foi um modelo para outras protagonistas posteriores, ajudando a moldar a ideia moderna de mulher independente.

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O terceiro elemento do grupo de mocinhos também não foi construído do modo que as pessoas estavam acostumadas a ver em um conto de fadas cinematográfico. O contrabandista estelar Han Solo, brilhantemente interpretado por Harrison Ford, mostrou-se, desde o início, o oposto do que se espera para um herói: frio, calculista, interesseiro, descompromissado, individualista, malandro, caloteiro, interessado apenas em grandes lucros e em salvar a própria pele. Foi um golpe de mestre de George Lucas.

A figura de Solo, que se vê ajudando os mocinhos para ganhar uma quantidade de dinheiro que lhe permitiria saldar uma grande dívida com Jabba, o Hutt, um dos maiores mafiosos da galáxia, o coloca de frente com um resgate da Princesa Leia da maior estação espacial até então construída, a Estrela da Morte. O interesse de Solo por esse resgate não foi gratuito: ainda não tendo recebido o combinado com o transporte dos dois viajantes e seus dois droides de Tatooine, viu no salvamento da princesa a chance de grandes lucros, com a possibilidade de receber uma pequena fortuna pelo salvamento de uma senadora e princesa de Alderaan.

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O velho misterioso Ben Kenobi, interpretado pelo renomado ator Alec Guinness, representa o ponto de união entre o passado ainda desconhecido do Império Galáctico, Darth Vader e o presente personificado em Luke Skywalker e Leia. Apesar de não ser revelado muito de seu passado, as insinuações e o mistério em torno de suas aventuras na juventude, de suas habilidades e de sua relação com o vilão tornam o velho Jedi um personagem muito rico, e que poderia, talvez, ter sido melhor explorado. O fato de, até o momento, ele ser o único ator da saga a receber uma indicação ao Oscar em qualquer papel nos seis filmes mostra a importância da sua personagem e da qualidade da atuação de Guinness.

Outro ponto de destaque foi proporcionado pelos “não humanos” do filme: o enorme wookiee Chewbacca (interpretado por Peter Mayhew), com seus grunhidos estranhos, mas de carisma indiscutível; e os dois droides mais queridos da galáxia, C-3PO (Anthony Daniels), com seu jeito cerimonioso e prepotente, e R2-D2 (uma latinha operada pelo anão Kenny Baker), o droide inteligente, irreverente e sempre pronto para se meter em confusões. Além deles, Uma Nova Esperança trouxe vários outros seres fantásticos que aparecem em menor destaque, como Jawas, Tusken Raider s(referidos também como Povo da Areia), Banthas, e outros aliens de todos os cantos da Galáxia.

Com todos esses elementos diferentes, de certa forma pode-se dizer que o cast foi improvável, já que reuniu numa mesma produção atores e personagens muito diferentes que, na época, ainda não eram vistos com frequência num filme comercial. Mas esse foi um tiro certeiro de Lucas, que soube integrar num todo os elementos que eram vistos em histórias clássicas, desde os robôs de Isaac Asimov, os alienígenas de Ray Bradbury, as máquinas de Júlio Verne, a fantasia e conceitos morais de J. R. R. Tolkien, os elementos espaciais de Arthur C. Clarke, Douglas Adams e Star Trek, o código de honra e a estética dos samurais e tantas outras histórias fantásticas que há décadas mexiam com a imaginação das pessoas, tudo com uma dimensão humana e acessível.

UM CONTO DE FADAS GALÁCTICO? QUASE…

Um bom filme não é construído somente com um bom cast. A questão da história é fundamental em uma produção, ainda mais em uma com tanta publicidade. Nesse ponto, Uma Nova Esperança pode ser aprovado com louvor (ou quase). Apesar de trazer o clássico confronto entre o bem e o mal, a personificação de cada lado ganhou aqui níveis raramente vistos antes. O antagonismo entre Luke e Vader foi alimentado pelo confronto quase tão antigo entre a própria galáxia: os Jedi contra os Sith. Mas esse conflito foi mal explicado, sem muitos detalhes de sua origem e desenvolvimento (o que, aliás, nunca seria devidamente explorado nos seis episódios originais de Lucas, apenas no Universo Expandido).

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Embora o filme traga os elementos morais universais de como o bem sempre triunfa sobre o mal, aqui foi inserido um novo elemento: a Força. Essa energia onipresente em tudo e em todos (inspirada no ki oriental, no prana indiano, no mana polinésio), e que podia ser utilizada de forma consciente tanto por Jedi como por Sith, foi uma grande ideia de Lucas, fornecendo uma coesão interessante ao roteiro. Assim, inseriu-se o conceito dos lados opostos da Força, que estão em eterno conflito para estabelecer a harmonia da galáxia e da Força, ideia que perpassa todas os filmes e todos os elementos construídos no Universo Expandido.

Outros elementos da história, como a princesa que tem de ser salva (embora, como dito acima, não da forma como as pessoas estavam acostumadas), o mocinho que se apaixona pela princesa (esperem O Retorno de Jedi…), e que tem que aprender a lutar para enfrentar o vilão, são pontos que aproximam o filme de muitas histórias de conto de fadas clássicas. Diferenças, porém são encontradas. Embora Luke e Vader sejam os dois opostos da história, eles não se enfrentam em uma batalha final mortal. Isso se deu pela própria construção da história, imaginada desde o princípio por George Lucas como maior do que um único filme.

Como escreveu Lucas no prefácio da versão especial de 1986 do romance oficial de Uma Nova Esperança, por não saber se o filme teria um sucesso que lhe permitiria continuar a saga, ele procurou desenvolver um roteiro que funcionasse bem sozinho, permitindo uma experiência satisfatória e completa do público, e deixando lacunas abertas para uma possível continuação.

Assim, o que pode ser visto em Uma Nova Esperança é uma história fechada em si mesma, que funciona bem sozinha, mas também funciona bem inserida no contexto mais amplo da sextologia. Uma proposta difícil de ser realizada, mas que, acredito, Lucas alcançou bem.

AS FALHAS

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Ahhh, as falhas. Nenhuma produção é isenta de falhas, e Uma Nova Esperança apresenta algumas bem pontuais. Algumas, aliás, são as mesmas que foram apontadas pelos fãs ao criticar O Despertar da Força, o que mostra que, se os críticos do último filme usassem o mesmo rigor para analisar os clássicos de SW, eles dariam para eles notas muito mais baixas que as dadas habitualmente.

Analisando o filme de uma forma científica, algumas falhas bem grandes podem ser percebidas. Embora a maioria dos fãs possa dizer que isso não tem qualquer importância para a qualidade da película (algo com que eu concordo), acho interessante apontar alguns erros científicos que foram levantados ao longo do tempo, e que podem comprometer um pouco a fundamentação de uma série espacial com tanto sucesso e publicidade.

A primeira cena do filme já apresenta um erro bem grave e, de certa forma, grotesco. A imagem do Star Destroyer atacando a nave da Princesa Leia é permeada pelo som dos lasers dos canhões imperiais explodindo na fuselagem da nave rebelde. Ora, isso é cientificamente errado, já que o som não se propaga no vácuo espacial. Segundo o físico Cláudio Furukawa, do Instituto de Física da USP, o barulho precisa de matéria para se espalhar, o que não ocorre no universo “aberto”, que é composto por um grande vácuo. No filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, lançado nove anos antes, e durante o período em que ainda eram realizadas apenas viagens pequenas de astronautas ao redor da terra, as cenas fora da nave ocorrem em completo silêncio. Ora, seria de se esperar que, num filme lançado nove anos mais tarde, em um momento em que havia um conhecimento prático muito maior espaço, esse erro não ocorresse… Ponto negativo para Lucas.

Explosões no vácuo também são impossíveis, já que precisam, obrigatoriamente, de oxigênio para ocorrer. A única possibilidade de isso acontecer seria uma detonação nuclear, que não necessita de oxigênio para ser efetuada, mas que também não geraria som ou fogo, apenas um flash de luz e expansão de partículas radioativas. Assim, a Estrela da Morte não seria consumida em uma grande bola de fogo de forma alguma.

No teste da Estrela da Morte, que destruiu Alderaan, outra falha do gênero pode ser percebida. Se a explosão de um planeta com a massa de Alderaan ocorresse, uma alteração gravitacional bem importante ocorreria no local, e os destroços do planeta, instantaneamente desagregados e lançados ao vácuo, seriam atraídos pelo elemento de maior massa no quadrante espacial, que, no caso, era a Estrela da Morte. A estação espacial funcionaria, assim, como um imã, e seria automaticamente destruída após o colapso do planeta.

Passando para os problemas de roteiro, a falha mais importante refere-se ao fato de Luke Skywalker, um fazendeiro de umidade em um planeta desértico no meio do nada, dependente dos tios, e que acabara de os perder de forma violenta e traumática, ter um cursinho supletivo ultrarrápido com um ancião sobre o uso da Força, salvar uma princesa de uma prisão altamente protegida, dentro da maior estação especial de batalha jamais construída, pilotar uma nave que nunca havia visto e destruir a Estrela da Morte com um tiro quase impossível de ser feito para alguém com pouco controle da Força.

Uau! Que evolução rápida! Isso é a mesma coisa que as críticas à Rey por vencer um Sith tendo pouco conhecimento da Força. E, de certa forma, a realização de Skywalker é ainda mais inverossímil, dado que Luke ajudava os tios e recebia proteção deles, não tendo que conseguir a própria comida e se defender sozinho. Só para deixar claro, sei que, em ambos os casos, a Força era poderosa nos personagens, e ela os guiou para realizar os atos, mas não deixa de ser ligeiramente inverossímil um ato tão grande de Skywalker com apenas um dia de contato com a Força (e que dia longo).

Outro argumento que poderia aproximar as críticas de Uma Nova Esperança às de O Despertar da Força: as lacunas do roteiro. Nada é explicado sobre a origem do tão temível Império Galáctico e de seu líder, de Vader (como no caso de Kylo Ren, somente insinuações são apresentadas), qual a verdadeira relação dele com o velho Ben Kenobi, o que é a resistência e como ela surgiu, etc. Essas lacunas obviamente são explicadas no contexto mais amplo da saga, mas como Lucas lançou Uma Nova Esperança sem saber se conseguiria continuá-la, parece errado não ter pelo menos dado algumas indicações desses pontos nos diálogos.

 

Conclusão

 

Para mim, as duas melhores palavras para descrever Uma Nova Esperança são: intenso e rápido. A obra mantém uma aura de tensão o tempo todo, e a velocidade com que as coisas acontecem são impressionantes, não deixando o espectador relaxar em nenhum momento. Talvez por isso, o quarto episódio seja um dos mais intensos da sextologia e se tornou num dos mais queridos pelos fãs.

Por fim, analisando o filme como um todo, com seus pontos fortes e fracos, suas falhas e roteiro, é possível dizer que a realização de Lucas foi especial sob vários aspectos. Uma Nova Esperança marcou o início da história de Star Wars, da expansão do interesse por sagas espaciais (ao lado de Star Trek), e a construção de uma imensa comunidade de fãs que se formaria ao longo das décadas. Poucos cineastas podem se dar ao luxo de declarar abertamente tamanha realização, e Lucas certamente é um deles.