Por que Star Wars 9 é um bom desfecho para a saga dos Skywalker

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
23/12/2019

O Episódio 9 de Star Wars, A Ascensão Skywalker, lançado na semana passada, vem dividindo, como esperado, as opiniões do fandom. Na avaliação deste blogueiro, o filme de JJ Abrams, apesar de alguns problemas de amarração, encerra com riqueza o ciclo iniciado, na ordem cronológica dos filmes, com Uma Nova Esperança e, na ordem cronológica da história, com A Ameaça Fantasma, ou seja, o choque entre a família Skywalker e o poderoso lorde de Sith Darth Sidious, mais conhecido como Imperador Palpatine.

O embate entre a Primeira Ordem, o regime totalitário que tenta reaver um poder sobre a galáxia que tinha sido do antigo Império, e a combalida Aliança Rebelde, reduzida a um pequeno mas resoluto grupo de combatentes, se dá agora nos termos de um novo (ou não tão novo) jogador: o Imperador Palpatine, dado como morto desde o Episódio 6 – O Retorno dos Jedi, ressurge em um planeta oculto nas zonas desconhecidas da galáxia e pode mudar para sempre o equilíbrio de forças.

POR QUE PALPATINE É O ANTAGONISTA IDEAL PARA ENCERRAR A SAGA

“Ué, mas Palpatine não estava morto?”

Talvez a principal virtude da controvertida Trilogia Prequel seja, mais do que mostrar a origem do icônico Darth Vader, nos dar um vislumbre do incrível poder de Darth Sidious, seu mestre. Nos três filmes, Palpatine demonstrou um absurdo conhecimento da Força e sagacidade estratégica, de modo que o seu fim no Episódio 6 é muitíssimo injusto, Não há incoerência em a personagem ressurgir em Star Wars 9; o sexto episódio é que apresentou uma incoerência ao dar cabo tão facilmente de um vilão tão poderoso.

Aliás, um dos motes da personagem de Palpatine ao longo de toda a Trilogia Prequel, e um dos seus artifícios para seduzir o jovem Anakin Skywalker para o Lado Sombrio da Força, foi justamente a insinuação de que ele era capaz de enganar a morte. Nada mais natural, portanto, que ele vença a morte após a batalha de Endor.

Além disso, a revelação, feita a Kylo Ren logo no início do filme, de que Snoke (morto por Ren no Episódio 8) foi criado por Palpatine, fornece uma justificativa coerente para a morte do antigo Supremo Líder, um personagem que aparentava, antes de ter o corpo cortado em dois, ser o grande vilão da nova trilogia. A Primeira Ordem inteira, também, passa a ser vista pelo espectador com outros olhos. Se antes o novo regime totalitário parecia surgido do nada, de forma gratuita, agora tudo se encaixa quando percebemos que a organização é parte do plano de Palpatine para retomar o controle sobre a galáxia.

A MESMA VELHA ESPERANÇA

Está em Rogue One, o spin-off que contou a história do roubo dos planos da Estrela da Morte numa missão suicida, uma frase definidora do espírito de Star Wars: “Rebeliões são fundamentadas na esperança”.

Esta mensagem perpassa todos os momentos de A Ascensão Skywalker. Se o Episódio 7 repete a fórmula de Uma Nova Esperança e o Episódio 8 renova a aposta na esperança, no Episódio 9 vemos toda essa esperança sendo recompensada e valendo a pena.

Personagens da trilogia clássica como a Comandante Leia Organa, Lando Calrissian, Chewbacca e os espíritos de Han Solo e Luke Skywalker estão lá para incentivar a aposta na vitória improvável, e também os novos heróis Rey, Finn e Poe demonstram fé na Rebelião – mas a principal frase que sintetiza a mensagem do filme é dita por alguém que só entrou na história no capítulo derradeiro. A contraventora Zorii ( que descobrimos ser um antigo interesse romântico de Poe) diz ao piloto algo ao mesmo tempo bonito e profundo: que os vilões nos dominam fazendo-nos acreditar que estamos sós.

Assim, o sentido profundo da missão dada a Lando e Chewie antes do ataque à superfrota de Palpatine – a de angariar, com uma mensagem de esperança, apoio de todos os seres que não compactuam com a opressão na galáxia – é também o sentido de toda a saga Star Wars, o de que não há Império dominante que resista à vontade de liberdade dos dominados quando esta se manifesta em ação resoluta e unida.

A VERDADEIRA FAMÍLIA DE REY

Uma coisa que sempre me incomodou em Star Wars foi o peso dado ao parentesco entre protagonistas. Como se sobrenome fosse pré-requisito para ter poder e como se a Força fosse algo mensurável em exames genéticos.

Se você é o tipo de pessoa que se ofende com spoilers e chegou até esta altura do texto, sinto muito pelo que vou dizer, mas Rey é neta de Palpatine. E o destino da personagem, segundo os planos do vovô, é matá-lo num ritual Sith para que o espírito do velho imperador a domine e ela se torne imperatriz de toda a galáxia.

Rey, que teve a vida marcada pela ausência dos pais e a personalidade fortemente influenciada pela falta de um sobrenome, quando descobriu a própria origem pôde dizer não ao destino e a qualquer determinismo. Com o apoio dos mestres que a introduziram no Caminho Jedi, a protagonista entendeu que pode escolher a própria família. Uma das mensagens do episódio final desta saga é a de que “família” não é definida por meras relações de sangue e descendência, mas por afeto, apoio, companheirismo. Numa das cenas que mais me tocaram no filme (e lá vem spoiler de novo), a Jedi vai a Tatooine e, questionada sobre o seu sobrenome, adota para si o nome Rey Skywalker. É ela a Skywalker que dá nome ao filme. Palpatine é o escambau. Porque ninguém é obrigado a aturar parente mala.

DESPEDIDA DOS HERÓIS EM GRANDE ESTILO

Todos os heróis da trilogia original de Star Wars estão no Episódio 9. É fan service, mas também é inserção com sentido e justificativa na história. Lando e Chewie têm papel decisivo na vitória, os droides mostram por que nunca devem ser subestimados, Luke Skywalker está lá para dar a Rey uma importante lição, Leia e o espírito de Han ajudam a conduzir Ben Skywalker Solo de volta aos caminhos luminosos da Força (e é de Han Solo aquele que, para mim, foi o momento mais terno de um filme repleto de momentos ternos, quando ele diz ao filho: “I know”), e todos os Jedi se unem a Rey no duelo final contra aquele que representa todos os Sith. Enfim uma morte que faz jus ao colossal poder de Palpatine como antagonista.

QUAL O DESTINO DAQUELA GALÁXIA DISTANTE?

A saga dos Skywalker (pelo menos dos Skywalker de papel passado) termina onde começou: em Tatooine, Rey sepulta os sabres de lâmina azul e verde dos seus mestres e adota para si um sabre amarelo. Afinal, ela representa tanto o conhecimento da Força quanto a ênfase no combate. A última Jedi, aparentemente, é agora também a primeira, e a Aliança Rebelde está apta a deixar de ser rebelde e tornar-se governo.

Que ameaças à liberdade e ao lado luminoso da Força aguardam os vencedores de hoje? Que novas sagas com novas personagens o futuro (também conhecido como “Disney”) nos reserva? Parte significativa do fandom de Star Wars tem torcido o nariz para os últimos episódios, mas acredito que estes introduziram elementos que enriqueceram, atualizaram e dinamizaram o universo criado por George Lucas.

Vida longa a Star Wars. Que venham novas histórias.