O aspecto humano de Perdido em Marte

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
26/10/2015

Dia desses, o Senhor D escreveu uma crítica sobre Perdido em Marte (para ler o texto, clique no link logo abaixo deste parágrafo), de Ridley Scott. Como a minha experiência ao assistir à obra motivou-me a refletir sobre questões não abordadas no post do excelentíssimo colega, creio que cabe mais um artigo sobre o filme, voltado para o aspecto humano da aventura de Mark Watney no Planeta Vermelho.

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Antes, porém, tratemos de uma questão de ordem:

PRECISAMOS FALAR SOBRE O TÍTULO DE PERDIDO EM MARTE

Ou melhor: precisamos falar sobre os títulos de todos os filmes, livros e séries consumidos no Brasil.

O título original do livro de Andy Weir adaptado ao cinema por Ridley Scott é THE MARTIAN (O Marciano). Ao ser traduzido no Brasil, “O Marciano” (que faz muito mais sentido) tornou-se “Perdido em Marte” – uma escolha que, além de muito mais pobre em termos poéticos, não é sequer adequada do ponto de vista descritivo, pois o protagonista NÃO ESTÁ perdido; ele sabe (e o resto do mundo também) perfeitamente onde se encontra.

Os manda-chuvas das editoras e das produtoras e distribuidoras de cinema do Brasil parecem acreditar que o brasileiro médio é um imbecil incapaz de compreender qualquer título de nível mais avançado que o do segundo ano primário, e parecem temer que as vendas sejam um retumbante fracasso se o leitor/espectador tiver de pensar por dois segundos sobre o sentido do título. O resultado: tudo vira Sessão da Tarde – no mau sentido.

Isso nos empobrece culturamente, nos emburrece, nos nivela por baixo. Precisamos urgentemente lançar a campanha: “Não somos retardados, senhor editor”.

[fim do desabafo]

UM NÁUFRAGO SIDERAL

Em sua crítica, o Senhor D diz que o núcleo narrativo de Perdido em Marte é o mesmo de “Náufrago”, o filme em que Tom Hanks interpreta um homem que passou anos lutando pela sobrevivência em uma ilha remota após um acidente aéreo. Retrocedendo um pouco mais no tempo, lembro que a história do filme com Hanks e a de Perdido em Marte são, ambas, releituras do enredo que consagrou a figura do náufrago na literatura: o romance Robinson Crusoé, de Daniel Defoe.

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No filme de Ridley Scott, o astronauta Mark Watney, interpretado por Matt Damon, faz as vezes de Robinson Crusoé, mas, em vez de uma ilha de natureza exuberante no Caribe, o seu drama se desenrola na inóspita Acidalia Planitia, uma região do planeta Marte de onde os tripulantes da missão Ares 3 tiveram de fugir durante uma colossal tempestade de areia. Atingido por um fragmento de antena e dado como morto pelos companheiros, Watney é deixado para trás e precisa, sozinho e com poucos recursos, encontrar uma forma de sobreviver até a chegada do resgate.

Os elementos centrais de Robinson Crusoé se repetem em Náufrago e em Perdido em Marte:

– O protagonista como único sobrevivente (ou, no caso do filme de Scott, o único a ser deixado para trás);

– O estar apartado da civilização por uma imensidão virtualmente intransponível (o mar ou o espaço sideral);

– O uso de utensílios e recursos que resistiram ao naufrágio para manter-se vivo (o que passa a ideia de que, mesmo para sobreviver fora da civilização, o protagonista precisa de uma ajudinha da civilização; é a humanidade louvando sua própria técnica);

spoiler-alerta

– A adoção de um companheiro de isolamento que é um Outro em relação ao protagonista: nas três histórias a que nos referimos, a solidão do náufrago é amenizada pela inserção na narrativa de uma personagem alheia à civilização e com a qual ele passa a dialogar. No caso de Robinson Crusoé, era o nativo que recebeu o nome de Sexta-feira; em Náufrago, a bola Wilson. Em Perdido em Marte, o protagonista acaba restabelecendo a comunicação com a Terra e a presença virtual dos companheiros terráqueos, que se manifesta por meio de textos enviados do outro lado do oceano de vácuo, faz as vezes de contato físico, um contato virtual, o que faz todo sentido do mundo hoje em dia. Além disso, uma cena da despedida de Watney da Acidalia Planitia, logo antes de partir na odisseia rodoviária até o ponto de resgate, dá a entender que o astronauta usava o jipe-robô Sojourner como um companheiro. Ao circular pelo Hab sem qualquer objetivo prático, o rover se assemelha a um cãozinho de estimação correndo em volta do dono.

– O resgate, ocasião em que o náufrago retorna à civilização transformado pelo longo e degradante período de isolamento. No livro de Andy Weir, a história acaba no momento em que Watney é levado para o interior da nave Hermes e recebe o abraço dos companheiros de missão. No filme, vemos o protagonista de volta à Terra.

BIG BROTHER MARTE E A CORRENTE GLOBAL DE SOLIDARIEDADE

Apesar de todas as semelhanças de Perdido em Marte com a figura clássica do náufrago, o livro de Weir e o filme de Scott têm uma diferença fundamental em relação a Robinson Crusoé.

É característico das histórias de naufrágio o componente da desinfomação. Dizem que Joseph Conrad, que escreveu tantas histórias sobre travessias e jornadas de barco, era leitor ávido dos registros de chegadas e partidas de navios aos portos. Quando um navio não chegava no prazo, seu status era alterado para “atrasado” e, depois de algum tempo, para “desaparecido”. O que teria acontecido com os viajantes desaparecidos? Não se sabia. O desaparecimento de navios podia motivar expedições de resgate, que eram sempre um flerte com o desconhecido e com a tragédia. E a desinformação podia ser em ambos os sentidos: o náufrago que sobrevive em uma ilha deserta sabe tanto quanto – ou menos – sobre o seu futuro que aqueles que partem para tentar resgatá-lo. Robinson Crusoé, o náufrago de Tom Hanks ou os meninos perdidos de O Senhor das Moscas não sabem se serão salvos e não têm qualquer via de comunicação com o resto da humanidade.

Já o naufrágio de Watney é um drama dos tempos pós-modernos, sintonizado com os ditames da sociedade da informação e da hiperexposição. Com o uso de satélites em órbita de Marte e, depois, da comunicação por ondas, a Nasa e o governo sabem de cada etapa da jornada d’O Marciano e, pelas leis de transparência governamental citadas no livro e no filme, essas informações são prontamente disponibilizadas ao grande público.

O drama de Watney se converte numa novela acompanhada em tempo real por bilhões de espectadores, um reality show em que a “eliminação” é a morte. Se a iniciativa Mars One pretende estabelecer uma colônia terráquea no Planeta Vermelho e transformar a experiência numa espécie de Big Brother espacial, Perdido em Marte nos deu uma amostra de como isso seria.

A epopeia de sobrevivência do astronauta também motiva uma corrente global de solidariedade. Um dos motes dos trailers do filme era a ideia de que a humanidade sempre se une e se mobiliza para ajudar as vítimas de grandes catástrofes.

O resgate de Watney torna-se uma empreitada que consome bilhões de dólares e suplanta a rivalidade entre burocratas e até entre países (já repararam que o filme não tem vilão? – pelo menos, não se desconsiderarmos o próprio planeta Marte) em prol da necessidade de manter o astronauta vivo e depois resgatá-lo com sucesso.

Se algo parecido acontecesse na vida real, seria de se esperar que houvesse, entre os espectadores desse drama e mesmo entre os burocratas envolvidos, quem perguntasse em voz alta: vale a pena gastar tantos recursos para salvar uma única pessoa?

Para mim, o significado profundo do livro e do filme é: trazer Mark Watney vivo para casa é resgatar a cada um de nós. Onde quer que esteja um ser humano, lá está a humanidade. Ou, para usar aquela máxima do Talmude citada em A Lista de Schindler, “quem salva uma vida salva o mundo inteiro”.