Por que Terminator 3 é um filme para ser revisto | Uísque Envelhecido 006

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
11/02/2020

[Este post faz parte da seção Uísque Envelhecido, em que os nossos garçons oferecem doses generosas de destilados culturais que já saíram há algum tempo das prateleiras de novidades, mas nem por isso deixarão de ser consumidos nesta taberna ]

Lançado em 2003, o filme Terminator 3: Rise Of The Machines dá continuidade à saga O Exterminador do Futuro mais de uma década após o sucesso do segundo capítulo da franquia, O Julgamento Final, e se dispõe a rediscutir um elemento central daquele universo: o destino.

Rever filmes alguns anos depois da primeira vez é uma boa maneira de auferir como as obras envelheceram, como elas ainda repercutem dentro de nós, se ainda fazem sentido (ou se passaram a fazer) e que lugar ainda ocupam no universo do qual fazem parte, caso se trate de uma obra seriada, como é o caso de Terminator 3. 

Dia desses, a TV estava reprisando o filme e, ao rever, mantive – e até reforcei – a opinião que tive na época do lançamento: o terceiro capítulo da luta da família Connor contra o destino trágico da humanidade, além de ser entretenimento do bom, o filme mais divertido da série, ainda articula com leveza as tradicionais autorreferências da saga Terminator e ressignifica alguns elementos, em sintonia com o seu tempo.

UM FILME QUE SABE RIR DE SI MESMO

Apesar de ter como mote o extermínio quase total da humanidade, Terminator 3 consegue ser um filme engraçado. Terminator 2 já tinha estabelecido, em 1991, o padrão de repetir elementos e bordões do primeiro filme. Desde então, uma história do Exterminador do Futuro que se preze precisa conter, senão todos estes itens, pelo menos a maioria:

:: Uma bolha temporal se materializando em lugares improváveis e transportando um emissário do futuro nu.

:: Viajantes do tempo dando um jeito de roubar roupas de alguém.

:: Um exterminador do modelo T-800 (Arnold Schwarzenegger) usando óculos escuros.

:: A estrutura e a rede de informações da polícia sendo usadas pelo vilão para localizar as vítimas. 

:: A frase  “Come with me if you wanna live.”

:: Dr. Silberman, o psiquiatra que tenta tratar as vítimas traumatizadas dos exterminadores, sendo ele próprio vítima do mesmo trauma.

:: Alguém anunciando que voltará.

:: Cães odiando exterminadores.

:: A poderosa presença (ainda que In Memoriam) de Sarah Connor, a matriarca da Resistência. 

:: Um exterminador entrando num caminhão ocupado e mandando o motorista sair. 

:: Alusões (ou a demonstração) ao Dia do Julgamento Final, que representa a rebelião (na forma de bombardeios nucleares) das máquinas lideradas pelo supercomputador Skynet. 

Tudo isso está presente no filme Terminator 3, e os retalhos dessa colcha de referências são costurados com sutileza e bom humor, sem os quais a terceira repetição das mesmas frases e cenas na tela soaria maçante até para fãs da saga. 

Enfim, se o primeiro Terminator, de 1984, era quase um filme de terror e o segundo, de 1991, um poderoso thriller de ação, em 2003 o diretor Jonathan Mostow nos entregou uma obra que transita entre a ação e a comédia, justamente o thrillerzão família  perfeito pra rever num domingo à tarde. 

PERSONAGENS FACA NA BOTA

Apresentado no primeiro filme Terminator como uma máquina assassina implacável, o T-800 voltou na sequência de 1991 como um guardião queridão (afinal, sua missão era ser um paizão para um pré-adolescente órfão de pai e carente). Já no terceiro capítulo da saga, o ciborgue interpretado por Schwarzenegger é o meu favorito dentre todas as versões do exterminador: mente para a mocinha quando necessário, demonstra um humor ácido, usa psicologia reversa e uma dose generosa de tortura física para tratar o desespero de John Connor, e é capaz até de lutar contra a própria programação. 

Terminator 3 também introduz na série a personagem Katherine Brewster, a futura esposa de John Connor e líder da Resistência (sim, por incrível que pareça e por mais que eu nunca tivesse pensado nisso, o comandante supremo e última esperança da humanidade na guerra total contra as máquinas também transa). 

E a veterinária, vivida por Claire Danes, prova ser uma personagem à altura do posto de nora de Sarah Connor. Já no começo, antes mesmo de sabermos do futuro de Kate, descobrimos que ela tem duas qualidades imprescindíveis para enfrentar a Skynet: ela não gosta de máquinas e se dá bem com cães. 

A seguir, pelo modo como reencontra seu ex-peguete da adolescência John Connor e lida com a situação (que meio que envolve a destruição de mais ou menos metade de Los Angeles, um sequestro e a violação de uma sepultura), Kate comprova ser uma personagem forte, decidida e cheia de personalidade. 

A exterminadora TX, interpretada por Kristanna Loken, é uma personagem esculpida com mais contornos cômicos que os assassinos que a precederam nos filmes anteriores. Apenas uma coisa me incomodou nela: o excesso de, como direi, gadgets que compõem seu corpo de metal líquido. É como se John Connor e Kate Brewster fossem perseguidos por uma modelo da Victoria’s Secret cujo esqueleto é um canivete suíço.

Abridor de latas? Claro que tenho, peraí

O DESTINO, QUE NÃO EXISTIA MAIS, VOLTA A EXISTIR

O final do primeiro filme Terminator, o de 1984, é de uma beleza arrepiante. Depois de exterminar o T-800 e engravidar do seu salvador, Sarah Connor embarca em um jipe e ruma para o México a fim de se preparar para o futuro sombrio. Num posto de gasolina, alguém olha para o céu nublado diz:

— Uma tempestade está chegando.

E ela responde:

— É, eu sei. 

Trata-se de uma Sarah Connor conformada com seu destino, qual seja, o de parir e treinar o salvador da humanidade. 

Já no segundo filme, Sarah introduz um mote que, vemos depois em Terminator 3, virou até epitáfio no seu túmulo: “Não existe destino, exceto o que nós mesmos criamos”. É a negação do determinismo, a tentativa de uso do livre arbítrio para evitar o Dia do Julgamento Final. 

No terceiro filme, quando John lhe diz que ele e mamãe evitaram a rebelião das máquinas ao explodir a fábrica da Cyberdyne, o T800 responde: “O Dia do Julgamento é inevitável; vocês apenas o adiaram”. 

Assim, não só a construção e a revolta da Skynet, mas outros acontecimentos citados em Terminator 3 indicam que os destinos de John e Kate estão entrelaçados, e que o desígnio de ambos é comandar a luta contra as máquinas. A Skynet é inevitável.

(Aliás, sintonizado ao seu tempo, o terceiro capítulo da franquia nos apresenta a Skynet não como um supercomputador isolado, mas como uma rede global sem centro, nos moldes da internet. Se em 1984 o medo de um holocausto nuclear tornava plausível e atual o plot do primeiro filme, em 2003 a disseminação da web atualizou o componente assustador: “e se, ao ligarmos todos os computadores do mundo em rede, estivermos fornecendo a uma possível inteligência artificial hostil a infraestrutura para nos dominar?”)

Para mim, a inevitabilidade do Julgamento Final no filme, mais do que algum eventual significado místico do destino, tem a ver com uma visão pessimista da busca por inteligência artificial. A ideia é que toda criatura que se aproxime suficientemente da inteligência do criador acabará, fatalmente, se rebelando. 

Esta questão está longe de ser novidade e perpassa toda a história do pensamento e da criação artística da humanidade. Já está lá, nos mitos fundadores de diversos povos, desde a revolta dos anjos comandados por Lúcifer, passando pelo mito do Golem, o autômato de barro dos hebreus; pelo monstro construído pelo Doutor Frankenstein com partes de cadáveres; pelos escravos mecânicos da peça R.U.R., donde surgiu o próprio termo “robô”.

Assim, Terminator 3 também serve de alerta: nunca deixe todas as suas armas nucleares nas “mãos” de um computador a menos que você possa desligá-lo.