Pérolas: um acréscimo de Os Testamentos ao universo de O Conto da Aia

Redação A Taberna
Por Redação A Taberna
28/01/2020

O livro Os Testamentos, lançado recentemente por Margaret Atwood, um retorno da autora canadense ao universo de O Conto da Aia, seu impactante romance distópico que é base da série The Handmaid’s Tale, mostra a luta contra o regime teocrático de Gilead a partir de dentro da rígida hierarquia e apresenta um novo elemento àquela sociedade de castas: a figura das Pérolas.

Leitores de O Conto da Aia e espectadores da série já sabem que, na distopia de Atwood, um golpe de Estado de uma organização paramilitar cristã transformou os Estados Unidos numa ditadura fundamentalista chamada Gilead, um patriarcado com rígida estrutura social formada pelos seguintes estamentos:

CASTAS MASCULINAS:

:: Comandantes: a elite burocrática, encarregada de administrar o país e usufruir de todos os privilégios.

:: Olhos: os temidos e enigmáticos espiões do regime, dos quais nem sequer os Comandantes estão a salvo.

:: Anjos: os perigosos soldados profissionais de Gilead (na série, essa classe foi suprimida)

:: Guardiões: se os Anjos são soldados, os Guardiões são um misto de serventes e guarda-costas, atuando em todo tipo de serviço auxiliar dos Comandantes e da hierarquia do regime (na série, os “Guardiões” acumulam as funções dos Guardiões e dos Anjos)

:: Econo-maridos: trabalhadores comuns.

CASTAS FEMININAS:

Como o cerne de Gilead é a dominação patriarcal e as mulheres são, como na Bíblia, tratadas como a fonte de pecado, manter a ordem do mundo feminino é uma dimensão muito importante do regime, e a sociedade de mulheres ocupa uma divisão muito rígida, com a separação dos nichos por cores da roupa:

:: Esposas: vestem azul e são casadas com Comandantes. Apesar de terem, na teoria, a primazia do comando do dia a dia, são na prática figuras decorativas vazias de poder, já que todas as decisões cabem aos homens. 

:: Tias: usam traje marrom e são um misto de freiras, professoras e tecnocratas, o braço direito dos Comandantes na administração do mundo feminino de Gilead. É uma corporação misteriosa no primeiro livro e mesmo na série, mas que é mostrada muito de perto no romance Os Testamentos. 

:: Filhas: as meninas que vestem rosa, sejam filhas biológicas dos Comandantes e das Esposas, adotadas ou geradas no ventre das Aias, estão destinadas a se tornarem Esposas quando atingirem a idade reprodutiva.

:: Marthas: trajam verde e são encarregadas dos serviços domésticos. 

:: Aias: as icônicas escravas sexuais de vermelho que são o cerne da narrativa de Atwood. Como o universo de Gilead é permeado pelo plot da perda geral de fertilidade entre homens e mulheres na América do Norte, mulheres férteis são escravizadas e colocadas a serviço dos Comandantes, que uma vez por mês as estupram (num ato chamado de Cerimônia) visando a gerar herdeiros para a casta dominante. 

:: Econoesposas: como acumulam funções (podem ser reprodutoras, esposas de trabalhadores e fazer trabalhos domésticos), as econoesposas usam vestidos listrados nas cores azul, verde e vermelho. 

:: Jezebels: escravas sexuais à disposição dos Comandantes em prostíbulos secretos, são as únicas mulheres que se vestem com as roupas do mundo de antes, em geral trajes de gosto duvidoso, que lhes são dados no intuito de destacar a sensualidade dos seus corpos. 

(Há, ainda, as “não-mulheres”, geralmente mulheres condenadas por algum delito e que são utilizadas como mão de obra escrava na Colônias, territórios contaminados)

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Pois bem, no livro Os Testamentos Margaret Atwood nos apresenta um novo estamento da sociedade gileadiana, uma peça que faltava para a divisão de tarefas daquela sociedade: as Pérolas. 

As Pérolas são uma etapa no processo de formação das Tias. Boa parte de Os Testamentos se passa em Ardua Hall, a sede das Tias na região em que se ambienta O Conto da Aia (o nordeste dos antigos Estados Unidos). As meninas recrutadas para se tornarem parte da corporação das Tias precisam passar por uma longa preparação, tanto nos estudos (elas são as únicas mulheres em Gilead autorizadas a ler e escrever) quanto no trabalho e no domínio da teia de segredos e intrigas do regime. 

As postulantes ao posto de Tia precisam, para serem consideradas aptas, passar pela função de Pérola. As Pérolas, que usam vestidos prateados e chapéus brancos, são oficialmente missionárias com a tarefa de espalhar a religião oficial de Gilead por outros países. Na prática, são espiãs do governo gileadiano e traficantes internacionais de mulheres. 

Uma das funções das Pérolas é recrutar jovens interessadas em viver em Gilead, que parecem ser quase sempre moradoras de rua ou vítimas de abuso que, iludidas com a promessa de segurança e estabilidade, acabam absorvidas por um dos estamentos da sociedade gileadiana. Apesar da aparente adesão voluntária das jovens “pescadas” pelas Pérolas à cidadania de Gilead, convém lembrar que a propaganda que estas fazem do seu próprio regime e modo de vida é enganosa, o que interfere na escolha.

E conseguir uma imigrante (ou vítima) para levar para Gilead é a prova final da admissão das Pérolas ao status pleno de Tia. Ao retornar a Ardua Hall levando uma jovem, a Pérola é efetivada como Tia e ganha uma função na corporação. 

O acréscimo trazido por Os Testamentos à divisão social de Gilead é justificado pela inserção, no novo romance, das relações internacionais (algo que faltava ao novo livro) e a figura das altivas missionárias, que são espiãs secretas a despeito de se vestirem da forma mais chamativa possível, segue com elegância o padrão de contradição e ironia que permeia todo o universo criado por Margaret Atwood.