Origens da Fundação: Asimov descreve a gênese de um universo instigante

Redação A Taberna
Por Redação A Taberna
04/08/2020

O livro Origens da Fundação, a segunda das prequels de Fundação, obra magna de Isaac Asimov, foi o último dos sete romances da saga a ser publicado e consiste na mais difícil e ambiciosa de todas as empreitadas da cultuada saga literária: apresentar uma descrição do período em que o psicólogo/matemático Hari Seldon desenvolveu a revolucionária ciência da psico-história. 

(Caso o leitor ainda não tenha lido as obras anteriores, há o risco de que spoilers colossais apareçam neste texto, então sugiro que leia os outros livros antes de se aventurar por estas linhas)

Recapitulando: a trilogia Fundação narra o esforço dos discípulos de Hari Seldon para restabelecerem a ordem em uma Via Láctea fragmentada após a queda do Império Galáctico. Para reorganizar a sociedade galáctica, Seldon estabeleceu duas organizações chamadas “Fundações”, sendo a Primeira Fundação incumbida de cultivar as ciências naturais e a tecnologia, para manter o desenvolvimento técnico como um farol a guiar a humanidade; e a Segunda Fundação, envolta em mistério, uma comunidade de matemáticos que se valem de inimagináveis poderes psíquicos para influenciar e salvaguardar o cumprimento do plano.

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As duas sequências são Limites da Fundação, que rediscute as questões centrais da trilogia e colocam em perspectiva as visões de civilização conflitantes na galáxia (em paralelo com as ideologias que disputavam hegemonia no mundo na época em que Asimov escrevia); e Fundação e Terra, romance que serve para integrar a saga de Fundação a todo o conjunto da obra asimoviana. 

Pois bem: sabíamos como a saga da galáxia terminaria, mas não como a aventura de Seldon tinha começado. Para contar esta história, Asimov escreveu duas prequels. A primeira, Prelúdio à Fundação, pouco ajudou a clarificar a compreensão sobre a origem da psico-história. Isso porque essa ciência mal é mencionada no livro, que é um thriller de ação que apresenta um Hari Seldon mestre em artes marciais.

Portanto, recaiu sobre a segunda prequel, Origens da Fundação, um peso maior ainda: o de de demonstrar como diabos Seldon parou de correr de um distrito a outro de Trantor e começou a desenvolver uma ciência capaz de prever com rigor matemático os rumos das sociedades humanas. 

Publicada mais de quatro décadas após Fundação, Origens da Fundação é produto da mente de um Asimov mais maduro, capaz de ver em perspectiva o universo literário que criou e situar a pesquisa de Seldon em um contexto grandioso. 

O romance, é claro, não demonstra em detalhes o funcionamento da psico-história, pois (ainda) não é possível que uma ciência assim exista, mas discute suas condições de possibilidade, de um  modo em que as vivências de Hari Seldon em Trantor, suas relações com a política do Império e a conturbada dinâmica dos setores do planeta-capital têm papel decisivo nos rumos da pesquisa do Pai-Fundador. 

Asimov também apostou mais na ciência do que na pancadaria desta vez. Ainda há trechos em que a ação e a força física são utilizadas, mas a trama de Origens da Fundação se foca muito mais nos dilemas da psico-história em si do que a prequel anterior.

Um ponto que sempre foi intrigante na saga Fundação é o papel dos telepatas no desenvolvimento e no cultivo da psico-história, e sua interferência na dinâmica social. De onde vieram esses poderes psíquicos? Seriam uma consequência do desenvolvimento cerebral estimulado pelo contato com uma matemática absurdamente avançada?

Asimov entrega ao leitor esta peça, a última que faltava para compreendermos o grande quebra-cabeça do universo de Fundação, e a resposta, pelo menos para este blogueiro, foi um pouco decepcionante. 

Mas o livro acaba cumprindo de forma satisfatória o ambicioso objetivo do autor de apresentar as origens de uma saga tão complexa e envolvente.