The Handmaid’s Tale: o S3E3 e o primeiro antagonista masculino interessante da série

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
22/07/2019

O livro O Conto da Aia e a série derivada The Handmaid’s Tale são uma alegoria-denúncia das diversas facetas do machismo estrutural e são – principalmente a série, em especial a terceira temporada – obras sobre mulheres. 

Diversas formas de relação entre mulheres oprimidas são mostradas na tela, bem como os diversos tipos possíveis de papel feminino nesse tabuleiro, com gradações de postura que vão do colaboracionismo sincero à resistência armada. 

E os homens de Gilead?

Nesse ponto, em geral a série é maniqueísta. As personagens masculinas retratadas na distopia costumam ser boas ou más, sem muitas nuances. Uma impressão que se tem é de que todos os homens investidos de algum tipo de poder nesse regime são hipócritas ou, no mínimo, céticos em relação à fé dominante. 

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Numa teocracia belicosa e ditatorial em que, no discurso oficial, todas as pessoas estão Sob o Olho de Deus, parece não haver um único dirigente que seja um devoto sincero – ou que não esteja nessa apenas pelo poder. 

Isso até o episódio 3 da terceira temporada. 

O espectador já sabia, desde a segunda temporada, que o Comandante Joseph Lawrence, vivido por Bradley Whitford, era um líder diferenciado. No episódio da sua primeira aparição, quando a Aia Emily é designada para servir em sua casa, Lawrence é descrito pela Tia Lydia como o arquiteto da economia de Gilead e apontado pela própria Esposa como o mentor intelectual das “Colônias”, o território contaminado para onde são mandadas as “não mulheres”. À primeira vista, um monstro. No entanto, mais tarde descobrimos tratar-se de um homem excêntrico, amante das artes, iconoclasta, irreverente, tolerante com desvios de conduta da criadagem – e, no episódio final da segunda temporada, julgamos que ele é um dos mocinhos da história quando é revelado seu envolvimento no plano de fuga de Emily e Offred.

A temporada 3 começa reforçando essa impressão, quando Lawrence requisita pessoalmente a protagonista June para servir em sua casa – momento a partir do qual ela passa a ser chamada de Ofjoseph, como Emily tinha sido antes dela. 

Na casa do Comandante Lawrence, vemos em atuação uma legítima célula da Resistência aparentemente comandada por Beth, uma Martha que, na primeira temporada, apareceu trabalhando como chef de cozinha na Casa de Jezebel, o prostíbulo frequentado por Comandantes de Gilead. Lawrence não apenas sabe das atividades subversivas sob seu teto como parece colaborar com as rebeldes.

E então chegamos a “Useful”, o S03E03, para mim um dos melhores episódios da nova temporada, e fico estarrecido com a revelação de quem é o verdadeiro Joseph Lawrence. Trata-se, aparentemente, do único Comandante de Gilead que realmente acredita no que está fazendo. 

A PAX LAURENTINA

Acompanhamos uma reunião de Lawrence com outros dirigentes, ocasião em que Ofjoseph, que também busca entender a cabeça do Comandante, testemunha a manifestação de algumas ideias dele sobre Gilead e a questão da mulher. Quando, mais tarde, ela o confronta e aponta a aparente contradição entre essas posições e as ações pregressas que indicavam benevolência, as respostas são desconcertantes. Joseph Lawrence revela-se um homem racional, frio, pragmático e convicto, que valoriza o que é útil. Daí o título do episódio. 

Ele alega ter ajudado a libertar Emily por ver nela uma inteligência profunda, capaz de fazer grandes melhoramentos no mundo, e por isso julga ser melhor que ela esteja livre e ativa no Canadá do que submissa e neutralizada em Gilead. 

Lawrence diz também que tolera a existência de uma célula subversiva em sua casa porque a resistência das mulheres é inevitável e precisa ser canalizada de alguma forma, para evitar grandes convulsões sociais, por isso ele prefere que haja um grupo secreto operando em baixa intensidade sob seu teto a deixar essas tensões reprimidas se acumularem e explodirem numa grande revolta. 

E até para as atrocidades cometidas pelo regime de Gilead, horrores em que ele próprio toma parte, o Comandante tem uma explicação que se encaixa na figura de um devoto convicto: ele parece acreditar sinceramente que o fim (um sistema de controle da reprodução humana que mantenha os nascimentos de crianças e resolva a crise geral de fertilidade) justifica os meios, e que suas ações, mesmo as mais questionáveis do ponto de vista ético, são úteis para a preservação da vida na Terra. 

Um Comandante crente, quem imaginaria isso?

USEFUL

A revelação da natureza do Comandante Lawrence tem impacto não apenas sobre a nossa compreensão da motivação da personagem, mas também sobre a própria jornada de June. Acusada de “inútil” pelo seu antagonista, ela própria aprende com ele e busca um modo de colaborar mais ativa e inteligentemente com o movimento de resistência. 

O desafio lançado por Lawrence a Ofjoseph é uma tentativa de convertê-la a seu credo inabalável no Utilitarismo. A Aia aceita o desafio e cede ao dilema ético que o Comandante lhe tinha proposto naquele mesmo episódio: de um grande grupo de mulheres condenadas às Colônias, ela deveria escolher cinco para serem salvas e incorporadas ao corpo de Marthas. Caso se recusasse a selecionar as cinco sobreviventes, todas as cativas sofreriam a condenação. 

A princípio tendendo a lavar as mãos da pegadinha, para não ter parte na morte das prisioneiras que eventualmente não escolhesse, a protagonista, após o confronto com Lawrence, decide usar o ardil do Comandante a favor da Resistência, selecionando cinco mulheres que, por suas habilidades e histórico profissional, poderiam vir a ser úteis na luta contra o regime. 

Infelizmente, a ação da Aia parece ser apenas um dos “loose ends” que abundam nos desfechos dos episódios, e nos seguintes esse plot é esquecido – só no S03E08 (o último veiculado no momento da escrita deste post) Lawrence e June voltam a se confrontar, e ainda assim sem grandes desenvolvimentos.  

Enfim, o episódio 3 da terceira temporada trouxe mais profundidade e riqueza de construção à narrativa de The Handmaid’s Tale. Será a complexidade de Joseph Lawrence melhor explorada nos próximos capítulos da série? Será a natureza de Nick, conforme aventado no caso Nichole, mais contraditória e cheia de nuances que o que antes supúnhamos, trazendo à tona um segundo personagem masculino melhor desenvolvido na série?

Aguardemos.