The Handmaid’s Tale: após a conclusão da 3ª temporada, para onde vai a série?

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
16/08/2019

Agora que a terceira temporada da série The Handmaid’s Tale chegou ao fim, já é possível dizer de modo definitivo o que vinha sendo, havia vários episódios, uma opinião cada vez mais cristalizada: a de que os roteiristas erraram a mão e o resultado foi uma trama mal amarrada.

A primeira temporada, que acompanhou os eventos do livro O Conto da Aia, de Margaret Atwood, foi a mais coesa e coerente, enquanto a segunda, mais pirotécnica, também foi bem feita. A terceira incursão no triste quotidiano de Gilead, entretanto, embora tenha tido alguns méritos, foi feita de modo muito mais atabalhoado, com indecisão quanto a rumos, plots que surgem e desaparecem sem razão aparente, inconsistências e pontas soltas.  Trataremos abaixo de alguns dos pontos altos e baixos da temporada.

A TEMPORADA QUE MAIS INVESTIU EM SORORIDADE

A distopia explorada no livro de Atwood e na série é, desde sempre, um libelo anti-machismo, e a terceira temporada acentua o foco nas diversas formas de relação entre mulheres. 

Aias, Marthas, Esposas, Filhas, Tias. Todos os estamentos femininos de Gilead foram mostrados, em uma ou outra ocasião, somando esforços para resistir à opressão machista do regime ou pelo menos para conseguir manter a sanidade em meio a tanto horror. E a principal manifestação dessa disposição para a sororidade foi a cooperação mais duradoura e consistente entre Marthas e Aias, que chegou ao ápice no episódio final. 

AO SABOR DO VENTO

A terceira temporada de The Handmaid’s Tale pecou no ritmo. Plots eram iniciados e desapareciam antes da conclusão, para serem retomados vários episódios depois sem que os outros direcionamentos tomados naquele hiato chegassem a algum lugar, de um modo que é mais confuso do que complexo. Cadê os arroubos de fé genuína do Comandante Lawrence nos fins que justificam os meios? Em um dos episódios ele demonstrou ser um devoto do santo pragmatismo e um defensor convicto do regime, e depois essas características parecem ter misteriosamente abandonado a personagem. O que aconteceu com o casamento de Emily? Não sabemos, ela e Syl desapareceram sem que soubéssemos a resposta – como, aliás, tem sido a sina de todo mundo do núcleo Canadá. E o que dizer do plot Disputa Diplomática por Nichole, que surgiu do nada no meio da temporada, dominou uns três episódios e depois desapareceu tão abruptamente como começou? Esse arco, aliás, merece um tópico próprio.

NOVELA MEXICANA?

The Handmaid’s Tale sempre foi uma distopia séria e madura, tratando de ditadura, machismo, teocracia, opressão e geopolítica com sutileza e sem ofender a inteligência do espectador.

A terceira temporada, entretanto, insere um plot que me faz voltar aos anos 90 e me ver sentado no sofá com minha mãe acompanhando uma das toscas novelas mexicanas retransmitidas pelo SBT. Serena Joy, após concordar com June que a vida da filha de ambas, Nichole, seria muito melhor no Canadá do que em Gilead, “encasqueta”, como diria minha avó,  que quer a menina de volta e arma um barraco diplomático para tentar recuperar o bebê. 

Vemos dois Estados rivais, um deles uma teocracia odiosa e isolada, em pé de guerra pela guarda de uma criança e todos os demais sub-enredos em andamento paralisam aguardando a conclusão dessa novela – que, acaba não sendo concluída em absoluto; é apenas esquecida pelos roteiristas em alguma gaveta. 

WASHINGTON E WINSLOW, UM GRANDE PLOT DESPERDIÇADO

Um dos picos de tensão da temporada foi o episódio em que Washington, a capital de Gilead, apareceu pela primeira vez. E descobrimos um lugar realmente assustador, o epicentro de todo o horror e de toda a hipocrisia que permeiam a teocracia gileadiana. 

Aias têm a boca costurada com argolas num “voto de silêncio perpétuo”, Comandantes e Esposas vivem uma vida idílica de mentira com casas cheias de filhos sorridentes enquanto se dedicam secretamente aos prazeres do adultério. 

E conhecemos o Alto Comandante Winslow, aparentemente um dos mais importantes de Gilead, senão o mais importante. Fred  Waterford cai nas graças de Winslow e é destacado por ele para expandir para outros distritos o padrão Washington de gestão. 

E este plot assustador, o da ”washingtonização” de toda Gilead, poderia ter sido muito melhor explorado. Cada vez que Winslow aparecia em cena, causava calafrios de medo de que alguma atrocidade fosse cometida. Se essas questões fossem melhor abordadas e desenvolvidas, teriam dado uma carga mais sombria e elevado a tensão da temporada.

E QUANTO AO NICK?

Qualéquié a do senhor Nick Blaine?

No começo da série, Nick é o motorista, segurança e faz-tudo do Comandante Waterford, e, logo descobrimos, um Olho (espião do regime), embora seja oficialmente um pé rapado. Ele começa um romance com Offred e passa a ser seu par romântico, aparentemente sincero na paixão, e colaborador nas contravenções. 

Em seguida, é colocada uma nova camada: descobrimos que Nick foi recrutado pessoalmente pelo Comandante Pryce para espionar Waterford, que nem sequer desconfia disso. Mas o espionado sabe que seu motorista e sua Aia têm um romance, e que é Nick o pai biológico de Nichole, por isso, não nos surpreende que este acabe sendo enviado para o front de Chicago, onde há uma insurreição. Aparentemente, foi uma manobra de Waterford para causar a morte de Nick, já que o antigo protetor do motorista, o Comandante Pryce, foi vítima de um atentado suicida alguns episódios antes.

Enfim, na terceira temporada, ocorrem duas coisas que representam (pelo menos por enquanto) graves incoerências com o que se sabia sobre Nick: ele primeiro trai o acordo feito com June e com diplomatas estrangeiros para tentar salvar Nichole, e abandona seu grande amor E a filha para ir para a guerra em Chicago. Essa é a primeira inconsistência: o amor de Nick por June não era verdadeiro?

O segundo ponto de incoerência é que, nesse episódio, Nick é chamado de “Comandante Blaine” pelos diplomatas suíços e Serena revela a June que ele é um herói de guerra (e aparece sendo tratado assim pelos soldados no trem), o que não condiz com o antigo disfarce de borra botas que o espião usava, e nem com o desprezo que lhe dispensavam Fred e Serena quando ele era um reles servo da sua casa.

MAS UM PLOT CENTRAL SURGINDO NUMA HORA DESSAS?

Após quase enlouquecer no nono episódio, em que foi obrigada por Tia Lydia a passar meses ajoelhada ao lado de sua parceira de compras, que estava em coma em um hospital, June tem uma epifania e descobre seu novo propósito de vida, que acabará sendo o ápice da temporada: salvar crianças tirando-as de Gilead. 

Muito lindo, empolgante e nobre, mas… isso são horas? A temporada patina, anda em círculos, finge que vai para um lado, vai para outro, faz uma pausa, assiste a uns enforcamentos, patina mais um pouco e no NONO episódio é que surge miraculosamente o plot definitivo? É assinar atestado de “feito nas coxas”.

Uma temporada bem amarrada deveria ter uma estrutura clara e dizer desde cedo aonde deseja chegar. Um plot desses deveria ser alinhavado, no mais tardar, no segundo episódio, jamais no nono.

A NEGAÇÃO DO MANIQUEÍSMO

Um ponto positivo da temporada foi que a série manteve e intensificou uma de suas grandes virtudes, que é não aderir ao maniqueísmo. 

Tia Lydia, uma das vilãs, teve sua origem revelada num dos mais intensos e tristes flashbacks apresentados, e mesmo sendo uma devota e implacável colaboradora do regime, ela segue demonstrando que tem nuances e alguns momentos de bondade. 

Serena Joy, esse poço sem fundo de contradições (no bom sentido), continuou nos apresentando todos os seus Cinquenta Tons de Azul, aparecendo como megera, como parceira, como voz da razão e como colaboradora do fanatismo, e passamos novamente a temporada inteira esperando uma redenção que ainda não se confirmou. 

E algo muito forte aconteceu com a protagonista, June. A Aia, que transita sempre por uma gama enorme de emoções, tem sido profundamente transformada por todo o horror que vivencia e foi arrastada, em diversas ocasiões, por um turbilhão de sentimentos em que cortejou o sadismo, a brutalidade e a busca da morte. Seu comportamento em cenas chave, como na morte de Eleanor, esposa de Lawrence, ou no controle da situação na operação de fuga no Season Finale, evidenciam que a personagem parece disposta a usar qualquer meio para atingir os fins.

INVEROSSIMILHANÇA E FUROS

O episódio final da terceira temporada de The Handmaid’s Tale, que mostra a planejada fuga de dezenas de crianças para o Canadá, é quase risível pela inverossimilhança. Se é tão fácil fugir de Gilead, me admira que ainda haja habitantes no país. 

O episódio inteiro é uma colagem de inconsistências, como o caso (inserido sem qualquer necessidade narrativa) da Martha que chegou cedo demais e depois fugiu, para em seguida ser capturada e, pasmem, não entregar o plano (se tem algo em que os Olhos de Gilead são bons, é em extrair confissões de dissidentes capturados, isso é algo que a série nos mostrou). 

Em seguida, patrulhas de Guardiões passam o tempo todo em frentes à casa de Lawrence e nos arredores, em busca da criança desaparecida, e nenhum dos vigilantes se pergunta o que faz aquele farol vermelho brilhando no topo da residência? Não, o poder de Lawrence não evitaria uma batida na porta para averiguação. 

E por que raios June e Rita ainda estão vivendo em suas casas? Com os Waterfords sob custódia no Canadá, sua Martha seria deixada sozinha em casa, sem vigilância? Ou, se ela foi designada para outra casa, esse fato não ser mostrado é uma falha dos roteiristas. E como foi permitido que uma Aia continuasse na casa de Lawrence por vários dias após a morte de Eleanor? Sem Esposa, não há mais autorização para a Cerimônia, não existe mais sequer o propósito de ter filhos, e já foi demonstrado antes que a própria presença de um homem e uma Aia por longo tempo a sós em um recinto fechado já pode terminar com alguém sendo punido por violar as leis de Gilead. OK, Lawrence recupera seus privilégios de alta patente, mas mesmo assim deveríamos, no mínimo, ter visto Tia Lydia esperneando para tirar June de lá, o que convenientemente é esquecido pelos roteiristas. 

E a fuga em si, bem, a fuga é um oferecimento da Deus Ex Machina Corporation. Como disse na abertura deste tópico, se ficou tão fácil fugir de Gilead, talvez nem haja quarta temporada, pois até lá todos os gileadianos já terão emigrado para o Canadá.

O QUE ESPERAR DA QUARTA TEMPORADA?

Para onde irá a série The Handmaid’s Tale? Bueno, o mínimo que se espera, após este Season Finale, é que no primeiro episódio da quarta temporada o Muro esteja repleto de corpos pendurados. 

Fora isso, ainda há pontas a amarrar: June ainda precisa resgatar Hannah, Nick precisa dizer a que veio, Luke aguarda o encontro com a esposa e a filha, precisamos saber qual a real abrangência e alcance da rede Mayday e as mulheres de Gilead precisam derrubar o regime. 

Será que tudo isso se resolverá na quarta temporada? Como alguém já disse, na segunda temporada chegamos a uma situação em que o único plot possível é uma Revolução em Gilead, mas isso acabaria acarretando o fim prematuro da série. 

Não há mais espaço para que a resistência continue se empoderando e o regime continue na defensiva sem que a série caia na enrolação e na mesmice. Então, a menos que o roteiro enverede por uma vibe “O Império Contra Ataca”, por exemplo com a expansão da revolução teocrática para além da fronteira com o Canadá, ou com o processo de “washingtonização” de todos os distritos, o que agregaria elementos novos, The Handmaid’s Tale tende a manter a perda de dinamismo e coerência estrutural. Torçamos por dias melhores.

Under His Eye.