Saint Seiya: Soul Of Gold: a volta por cima dos Cavaleiros de Ouro

Senhor D
Por Senhor D
26/02/2016

Eles nunca deveriam ter conseguido passar pelas Doze Casas. Afinal, quem as protegia eram os Cavaleiros de Ouro, os guerreiros mais poderosos do universo. Sendo assim, como foi que meros cavaleiros de bronze cruzaram o Santuário com vida? As circunstâncias da batalha explicam.

“Shiryu e os outros” (chupa, Seiya!) estavam blindados em justa causa. Os Cavaleiros de Ouro, por sua vez, eram vítimas de malfazeja conspiração. Mas, mesmo desconhecendo estar do lado errado do tabuleiro, algo no interior daqueles nobres guardiões impediu que fulminassem os invasores antes da primeira chama do relógio-horóscopo se apagar. O campeão da primeira casa, Mu de Áries, poderia ter encerrado a saga ali mesmo, se quisesse – o que seria um péssimo negócio para a TV Manchete.

Ocorre que os Cavaleiros de Ouro, acometidos de um instinto premonitório de justiça, não entraram com alma no combate. Pegaram leve com a turma bronzeada. Em outras palavras, não saíram às ganhas na porrada. Estivessem motivados, a história seria outra. Porque, mesmo no corpo mole, subestimando os adversários e enchendo-os de mimos e vantagens (teve um que não queria nem abrir os olhos para lutar), os soldados do Santuário ainda surraram aqueles moleques até não quererem mais.

Em ajuste aos fatos, cabe a correção. Na realidade, dois Cavaleiros de Ouro levaram o duelo a sério. Afrodite de Peixes e Máscara da Morte de Câncer são os únicos, fora o “Mestre” do Santuário, que foram às últimas consequências da peleja. O resultado: foram mortos por Shun de Andrômeda e pelo discípulo do Mestre Ancião.

(Pensando bem, quando Máscara da Morte foi derrotado, já não vestia a armadura de Câncer, que o havia  abandonado no auge do arranca-rabo. Logo, Máscara da Morte não era mais um Cavaleiro de Ouro, era só um cara desprotegido. Por consequência, não é errado afirmar que Shun é o verdadeiro Fodão das Doze Casas, vejam só.)

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Apenas como exercício de memória, sem apego aos detalhes, vejamos: Mu e Aldebaran até fizeram um jeito, mas no fim deixaram caminho aberto. O mesmo fizeram Aioria, Miro e Shaka. Na casa de Gêmeos, só uma armadura, assim como na de Libra e na de Sagitário. Camus de Aquário só queria ensinar mais um truquezinho gelado ao seu discípulo Hyoga de CisneShura de Capricórnio, o homem da Excalibur e o mais fiel a Atena, travou com Shiryu uma das batalhas mais sangrentas de todo o anime. No fim, entretanto, percebeu as boas intenções do Cavaleiro de Dragão e não só salvou seu oponente da morte, como lhe emprestou a armadura e o presenteou com uma nova técnica, aquela da espada que fatia o que tem pela frente. Baita gente fina, esse Shura.

Não nos esquecemos de ninguém, certo? Prossigamos, portanto.

Ainda que conheçamos todo o contexto da Batalha das Doze Casas, o que fica registrado é a vitória dos Cavaleiros de Bronze. Vale a versão dos vencedores, e os guerreiros de ouro aguentam a forma como a lenda será passada adiante. Está correto. Saint Seiya, tanto mangá como animado, não é sobre glória e lutas sanguinolentas. É sobre martirização e sacrifício. E sobre Seiya levando os créditos pelo trabalho dos outros. Em Cavaleiros do Zodíaco, a nobre causa sempre vencerá a bruta força.

Venho repetindo essa conversa toda aí de cima desde pequeno. Precisei formular esse esquema de autoconvencimento para digerir melhor a derrota dos Cavaleiros de Ouro. “São personagens tão bons quanto mal aproveitados”, pensava eu. Assim, essa teoria toda foi funcionando enquanto a mesma temporada era reprisada à exaustão na TV. Só que as coisas não costumam acabar como devem. Ou, melhor, as coisas não costumam acabar quando devem.

Depois da Batalha das Doze Casas, o sucesso de Os Cavaleiros do Zodíaco não permitia um encerramento abreviado na televisão brasileira. Até aí, tudo bem, estamos acostumados a ver boas histórias serem arruinadas em sua própria longevidade. Em CDZ, sagas inéditas e filmes foram surgindo e os Cavaleiros de Ouro começaram a pagar o pato. Virou uma putaria de ressuscita e morre sem fim. Os soldados dourados, até então considerados os mais fortes do universo, passaram a saco de pancada e a perder no braço para qualquer fulano que aparecesse. Aldebaran, nosso conterrâneo e um dos sobreviventes da batalha do Santuário, foi derrotado fácil fácil por um (ou dois) guerreiro(s) de Asgard, se bem me lembro. Pode isso?

Apesar de seguir na lógica do supracitado ressuscita e morre, as coisas melhoraram um pouco no começo da Saga de Hades, quando os Cavaleiros de Ouro ganharam um destaque maior – com exceção, é claro, de Máscara da Morte e Afrodite, os Joões-Bobos de sempre. Ainda assim, estavam longe do protagonismo.

Depois de tudo o que passaram, o sacrifício e morte na tentativa de destruir o Muro das Lamentações, ainda na Saga de Hades, seria um fim digno para aquela dúzia de valorosos lutadores. Finalmente, a jornada dos Cavaleiros de Ouro chegava ao fim.

Ou não.

Adivinhem quem voltou à vida novamente? Uma dica: não é o Kuririn.

E os Cavaleiros de Ouro ressuscitam de novo, todos eles. Desta vez, porém, a coisa é diferente. Não deixaram seus túmulos só para levar pau. Nada disso. Agora, eles posam no cartaz e têm coreografia na abertura. Estamos falando de Saint Seiya: Soul of Gold, o mais recente produto de Os Cavaleiros do Zodíaco, que coloca os guardiões das Doze Casas no papel principal e que finalmente dá a esses coitados o respeito que merecem – tudo bem que é só um spin-off, mas quem liga?

Confesso que virei a cara quando soube do anúncio dessa série. “Só mais um caça-níquel para vender bonecos”, disse o Senhor D do passado. Não que haja algo de errado em vender bonecos. Não que alguém se importe com a minha virada de cara. E não que eu não tenha acertado: queriam vender bonecos, é óbvio que queriam. Contudo, independente disso, a saga é digna dos Cavaleiros do Zodíaco, honra o legado desse desenho épico. Digo mais: talvez seja a obra mais honesta àquela pegada clássica que nos conquistou.

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O enredo de Soul of Gold começa com um mistério. Os Cavaleiros de Ouro, que sacrificaram suas vidas no Muro das Lamentações, ressuscitaram. Um a um, os defensores de Atena vão despertando da morte nas terras gélidas de Asgard. Mas qual seria a razão de terem voltado ao mundo dos vivos? E por que revivem justamente em Asgard?

Tais questionamentos são colocados em pauta logo no primeiro episódio, que também evidencia o protagonismo de Aioria de Leão. É sob o ponto de vista do pouco carismático irmão de Aioros de Sagitário que descobriremos — e isso não chega a ser um spoiler — que os doze voltaram à vida por intermédio de Atena. O motivo, não poderia ser outro, é combater um novo mal que surge em Asgard e que pode vir a assolar toda a Terra – e isso também não chega a ser um spoiler.

O melhor em Soul of Gold é reencontrar os Cavaleiros de Ouro em uma posição proeminente. E, ainda que não haja tempo para desenvolver os personagens a fundo, com exceção do taciturno Aioria, os fãs festejarão a oportunidade de testemunhar esses caras em ação mais uma vez, agora pelo lado do bem, de modo que possamos torcer por eles sem dor na consciência.

O mérito do anime é ainda maior se levarmos em consideração a redenção de dois personagens negligenciados desde os primórdios da série: Afrodite e Máscara da Morte. Quem mais seria, não é?

É emocionante. Os cavaleiros de Câncer e de Peixes tiveram sua alforria. Vendo-os andar juntos por Asgard, vez e outra de forma cartunesca, era de se pensar que novamente seriam sacaneados pelos roteiristas. Só que ocorre justamente o contrário. A dupla tem papel fundamental na batalha, mostrando honra, força e astúcia na luta pela paz. Os cancerianos e os piscianos que se sentiam desprestigiados por Kurumada têm a chance de conferir seus respectivos representantes colocando o pau na mesa.

Quanto aos aspectos técnicos, um ponto fraco a ser citado é a qualidade da animação. Fora as Armaduras Divinas (agora eles têm Armaduras Divinas), que são cuidadosa e brilhantemente trabalhadas (e que na verdade parecem mais importantes para a Bandai do que para quem as veste), não há aquele primor de arte tão marcante em outras sagas.

Alguns movimentos de “câmera” pelo cenário aberto, que não primam pela vivacidade dos componentes da cena, também ressaltam certo desleixo dos animadores, mas nada que venha a prejudicar a degustação. Em compensação, a narrativa dinâmica não deixa espaço para fillers, esta praga que atormenta tantas animações nipônicas. Bravo!

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Me acompanhas num tango?

Desenvolvido pela Toei Animation, Os Cavaleiros do Zodíaco: Alma de Ouro foi lançado em 2015.  Faz parte das comemorações do quadragésimo aniversário de profissão de Masami Kurumada, o criador de CDZ. Ao todo, são 13 episódios, com duração média de 24 minutos por capítulo. A história do anime é original, e não é assinada por Kurumada.

Em resumo da ópera, a série faz por merecer a maratona. Não deve decepcionar admiradores neófitos ou antigos que se arrisquem a desbravar mais uma treta asgardiana. O roteiro é simples, porém bem amarrado, e cheio de referências astromitológicas. Conforme ruma ao finalmente, prende cada vez mais o espectador – há quanto tempo isso não acontecia em Cavaleiros do Zodíaco? Como um último destaque, chamo a atenção para um combate que ocorre no auge da história, quando Soul of Gold ainda reserva um enfrentamento épico entre dois Cavaleiros de Ouro que eu não vou dizer quais são. Ainda que seja breve, o desfecho e as consequências dessa batalha lembram aqueles momentos que nos faziam nos arrepiar nos remotos anos noventa. Que saudosismo e nostalgia não fazem mal a ninguém.