Por que a quarta temporada não foi “muito Black Mirror”

Ana Melo
Por Ana Melo
05/01/2018

No decorrer das três primeiras temporadas de Black Mirror, pudemos aprender bastante sobre o propósito da série e a estrutura geralmente utilizada nos episódios. Como sugere o título, trata-se de um reflexo sombrio de nossa sociedade. A série apresenta cenários distópicos – ainda que não tão distantes de nossa realidade – a partir de arcos individuais que ilustram problemas acerca da tecnologia. Os melhores episódios conseguem combinar as tramas menores e pessoais e as problemáticas mais amplas dos mundos apresentados, de formas interessantes e criativas, abordando, ao mesmo tempo, dilemas atuais de nossas próprias vidas.

A última temporada, entretanto, não consegue manter essa fórmula, seja pelos enredos previsíveis ou pelas tecnologias repetitivas. A fim de abordar melhor esses aspectos, eu classifiquei os episódios do pior ao melhor – obviamente, em minha opinião, já que uma das melhores coisas da série é como ela impacta as pessoas de diferentes formas.

[O texto contém leves spoilers]

6. METALHEAD

Este é, provavelmente, o episódio menos aprovado da temporada pelos fãs – ou até, para alguns, da série como um todo. A história se passa em um futuro pós-apocalíptico e acompanha os esforços de uma mulher que tenta sobreviver a robôs chamados de cães, que já mataram o resto de sua equipe. Ah, e é tudo em preto em branco, pois ele precisava ser lembrado por alguma coisa. Ainda que funcione, de certa forma, como um suspense de sobrevivência, ele realmente não se parece com um episódio de Black Mirror. A falta de contexto sobre os robôs e a mulher torna superficiais os enredos pessoal e geral, deixando várias perguntas não respondidas; e a revelação no fim não é interessante o bastante para compensar o resto da história.

5. CROCODILE

Apesar de esse enredo ser um pouco mais interessante, sua falta de relação com a tecnologia lhe trouxe à parte debaixo desta lista. Mia, nossa protagonista, comete uma série de assassinatos em uma tentativa de acobertar um crime inicial do qual foi parte há doze anos. Enquanto isso, uma agente de seguros investiga outro caso – presenciado, por acaso, por Mia –, utilizando um equipamento que lhe permite assistir às memórias das testemunhas. O principal problema, porém, é que a história poderia tranquilamente ser contada na forma de uma investigação comum, uma vez que a tecnologia não é o aspecto principal. Além disso, a privacidade das memórias já foi abordada de uma maneira muito mais atraente e próxima do público em The Entire History of You. E, mais uma vez, a revelação no final não acrescenta muito à narrativa.

4. ARKANGEL

Ao contrário dos últimos dois, este episódio traz uma nova tecnologia com uma premissa interessante: e se os pais pudessem monitorar o que seus filhos veem e sentem? De uma maneira “muito Black Mirror”, isso tem lados positivos e negativos: embora possa ser útil se sua criança pequena se perder no parquinho, a situação se torna muito mais perturbadora quando você assiste à sua filha adolescente perdendo a virgindade. Além disso, o aparelho permite filtrar a visão da criança, o que levanta questionamentos acerca da exposição à violência e a outras cenas impactantes durante a infância. O motivo de eu colocar o episódio na parte debaixo da lista, porém, é que a trama pessoal é bastante previsível, quando a ideia poderia ter sido muito mais aproveitada.

3. USS CALLISTER

Bem, na verdade, os próximos três episódios poderiam ser colocados em qualquer ordem, e eu estaria satisfeita, mas o que realmente importa, no fim das contas, são as preferências pessoais. Quando assisti ao teaser, eu realmente achei que USS Callister seria bastante constrangedor, mas ele acabou como um dos meus favoritos. O episódio trata de uma tecnologia do tipo cookie (aquela que cria uma cópia da consciência de alguém), utilizada por uma empresa para jogos de simulação. Porém, um chefe frustrado tem outro uso para ela: a partir de copos e outros objetos utilizados por seus colegas de trabalho, ele coleta seus DNAs e cria cookies, que ficam aprisionados em uma simulação de seu seriado favorito, que ele mesmo programou e agora controla. O episódio acompanha as tentativas dos cookies de fugir de lá, proporcionando reflexões interessantes sobre livre-arbítrio. Embora temas semelhantes já tenham sido abordados em White Christmas, o uso da tecnologia é ainda mais impactante quando criado por outra pessoa.

black mirror uss callister

2. HANG THE DJ

Enquanto alguns episódios de Black Mirror têm críticas menos óbvias à nossa sociedade, outros apresentam paralelos claros, como Nosedive e redes sociais. Hang the DJ também está relacionado diretamente ao cenário atual de namoros e aplicativos de relacionamento, abordando o tema de uma forma criativa e, como o amado San Junipero, otimista. O conceito de uma tecnologia que não apenas juntas casais, mas também impõe a duração do relacionamento, ressalta problemas como encontros vazios e sem significado e o conformismo com um relacionamento ruim pelo medo de rompê-lo. O enredo pessoal das personagens também é atrativo, e, ao contrário dos episódios da primeira metade da lista, a revelação no fim dá uma boa conclusão à história. Ainda vale mencionar que o episódio mostra, brevemente, que o aparelho pode juntar duas mulheres – um dos vários reconhecimentos à diversidade durante a temporada (e toda a série), bem como o elenco com protagonistas não-brancos.

1. BLACK MUSEUM

Enquanto muitas pessoas devem escolher Hang the DJ como seu episódio favorito pelo final otimista, eu, pessoalmente, adoro as histórias de Black Mirror mais sombrias e perturbadoras, de sorte que o último episódio da temporada foi, claro, meu preferido. Sua estrutura é parecida com a de White Christmas (outro episódio incrível), na qual há uma conversa principal entre duas personagens e alguns flashbacks de tramas menores. O episódio também introduz algumas tecnologias novas, incluindo um sensor que reproduz as sensações físicas de uma pessoa e uma cirurgia que pode transferir sua consciência para a mente de outra pessoa. Embora ambos os conceitos provavelmente poderiam render episódios individuais melhores do que Metalhead, eles também funcionam juntos como um conceito mais amplo, conectando-se nos minutos finais. Como último episódio, ele também resume uma das principais ideias presentes em toda a temporada, que pode ser relacionada à quarta geração de direitos humanos, que contempla a própria noção de humanidade. Como mencionei no início do texto, várias das tecnologias apresentadas em Black Mirror não são tão distantes de nossa realidade, e esse episódio traz uma discussão importante de como até fragmentos de nossas mentes podem, no futuro, precisar de uma legislação própria para protegê-los.

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