Over The Garden Wall: uma bela fábula sobre o desconhecido

Senhor D
Por Senhor D
17/11/2015

“Cara, já assistiu a Over the Garden Wall? É uma desenho muito bom. Tem um toque de ‘O Mágico de Oz’ misturado com a mitologia das animações do ‘Studio Ghibli’. O desenho até tem umas pitadas de terror — tem um personagem que se chama The Beast, um dos melhores da história. Cada episódio tem 10 minutos, contando com 11 capítulos ao todo. Gostei muito.”

Faz uns dias que eu recebi essa mensagem. Era um e-mail do Gustavo Kaspary, nosso companheiro aqui da Taberna. Caçula entre nós, Gustavo volta e meia surpreende com uma dica das boas de filme, série, livro, quadrinhos, o que for. Costumo levar em consideração o que o Gustavo recomenda, ainda que, às vezes, demore mais do que ele gostaria. Dessa vez, porém, o garoto apelou para o sentimental. Citou Oz e Ghibli no mesmo recado. Ele sabe o quanto eu gosto de Oz e Ghibli. O que eu respondi:

“Não vi ainda não, cara. Mas fiquei curioso, vou atrás.”

Foi o que eu fiz. Fui atrás.

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otgw_560x230Conheci em Over the Garden Wall a história de dois irmãos, Wirt e Greg. Wirt, o maior, já na adolescência. Greg, ainda só uma criança. Os dois estão perdidos em uma floresta estranha conhecida como Unknown (Desconhecido). Na companhia de um sapo cantor, cujo nome ainda está em processo de escolha, e uma pássara azul falante chamada Beatrice, eles cruzam o bosque à procura do caminho de casa. Durante a jornada, encontram seres mágicos, fazem amizades, enfrentam perigos, resolvem mistérios e são assombrados por uma entidade maligna, uma espécie de sombra fantasmagórica temida por todos os habitantes de Unknown. A entidade é nomeada apenas de The Beast (A Besta).

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A premissa de Over the Garden Wall é singela, quase ingênua. Tem o frescor bucólico das melhores histórias infantis. Ao mesmo tempo, é instável, tensa. Por vezes, perturbadora — também como as melhores histórias devem ser. A inspiração na Terra de OZ, de Frank Baum, talvez seja a mais evidente. Todavia, em meio às Árvores de Edelwood, é fácil enxergar também os vultos de Andersen, de Carroll, dos Grimm. Além deles, fora da literatura secular, podemos arriscar incluir Gaiman e Miyazaki entre alusões mais modernas, principalmente se lembrarmos de Chihiro e Coraline.

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Não são poucas as referências em Over the Garden Wall, o que acaba por destacar ainda mais um dos principais méritos da animação: a singularidade. Patrick McHale, o autor, selecionou com maestria as influências que construiriam sua fábula. Garimpou em memória afetiva os ingredientes que dariam o tempero que buscava, incluindo à receita seu toque pessoal. Afinal de contas, uma grande obra depende mais de bom gosto do que de imaginação.

Lantern-293x300A série, produzida pelo canal Cartoon Network, tem um roteiro ágil, que não se deixa desgastar pelas recorrentes composições musicais que ornamentam cada episódio. A narrativa é amarrada do primeiro minuto do primeiro episódio ao último momento do último capítulo. Vale a pena rever toda a série, em looping, só para flagrar as conexões. Instruções, dicas, pequenas revelações: está tudo lá, desde o início, tudo se encaixa. Fosse só pela composição dramática, já seria uma produção acima da média. Mas ainda tem mais.

A harmonia entre todos os elementos que compõem a série é absoluta. Os personagens principais se completam, contrabalanceando a rabugisse fatalista dos adolescentes com a ingenuidade despreocupada das crianças. Drama, angústia, tensão, humor. Diálogos ácidos, piadas inofensivas. O perigo iminente, a urgência, a amizade inesperada, o conflito inevitável. Poesia, música, ação. Tudo na dosagem certa.

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A pequena saga se desenrola nos traços eficientes de uma animação dinâmica, arrojada, que tem como pano de fundo uma paisagem concomitantemente bela e intimidadora, na maior parte do tempo carregada de sombras, de cores escuras e pouco cintilantes.

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Ainda tem a música, ainda tem a fotografia, ainda tem as vozes de Elijah Wood, Collin Dean e Christopher Lloyd. E se não tivesse nada disso, ainda teria Greg e seu sapo. Acreditem, bastaria.

IT’S A ROCK FACT.

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