O que The Sarah Connor Chronicles acrescenta à saga Terminator

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
17/04/2015

A série de televisão The Sarah Connor Chronicles (TSCC), spin-off da franquia de cinema Terminator, foi criada por Josh Friedman e lançada em 2008. Os episódios acompanham a vida clandestina da matriarca Sarah e do seu filho John Connor, dando continuidade à história dos personagens após os eventos do segundo filme (os elementos estabelecidos no terceiro filme são ignorados – embora o câncer que matou Sarah em T3 seja citado, mas superado por uma ligeira manobra temporal que será explicada abaixo). O seriado foi cancelado após apenas duas temporadas.

TSCC, como o nome indica, se propõe contar a história da luta de Sarah Connor (vivida por Lena Headey) contra o fim do mundo. Como é praxe na franquia, ela e seu filho John (Thomas Dekker) recebem uma ajudinha do futuro. No caso, uma ajuda ligeiramente diferente do brutamontes cibernético interpretado por Arnold Schwarzenegger nos filmes. Na série, a exterminadora reprogramada e enviada por John para proteger a si próprio e sua mãe é a bela Cameron (Summer Glau), um modelo super evoluído de ciborgue, capaz de imitar os humanos com muito mais eficiência.

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Cunhados reunidos pelo tempo

Depois de salvar John e Sarah de um exterminador T-888 (modelo chamado na série de “Triple 8”) no primeiro episódio, Cameron passa a fazer parte da família Connor (que usa, é claro, sobrenomes falsos) como a “irmã” de John. Mas os roteiristas sempre deixam claro que a sensual exterminadora também é um interesse romântico do rapaz (afinal, é preciso prender a atenção do público adolescente).

Transportados de 1999 para o futuro (no caso, 2008) no final do episódio-piloto, Sarah, John e Cameron decidem parar de fugir dos assassinos da Skynet e partir para a ofensiva, ou seja, tentar evitar a construção do computador que um dia declarará guerra à humanidade. O time recebe, pouco depois, um reforço: o soldado Derek Reese (Brian Austin Green), irmão de Kyle Reese e, portanto, tio biológico de John Connor – pra garantir o caráter familiar da série.

A família procura pistas sobre a criação da Skynet ao mesmo tempo em que é perseguida pelo Triple 8Cromartie (interpretado primeiro por Owain Yeomane e depois por Garret Dillahunt) e pelo agente do FBI James Ellison (Richard T. Jones), que percebe que há algo muito estranho no caso Sarah Connor. Eventualmente, encontram pelas ruas de Los Angeles (eita, mundo pequeno!) outros exterminadores enviados pela Skynet para tarefas não relacionadas a sua captura e até combatentes da Resistência – além da trama paralela em que uma exterminadora T-1001 assume o lugar de uma respeitada executiva com uma agenda secreta.

Pontos negativos

Nenhum executivo de TV cria uma série esperando que ela dure apenas duas temporadas. É evidente que TSCC não engrenou. Apresento aqui alguns dos pontos que me desgostaram no seriado:

Pouca Sarah pra muito John + Cameron

OK, Sarah Connor só é importante no universo de Terminator por ser a mãe de John Connor. Mas ela é uma super mãe, uma guerreira e professora obstinada e intensa. A série, apesar de se chamar “Crônicas de Sarah Connor”, acaba relegando a protagonista a um segundo plano, para dar mais atenção à química (ou seria mecânica?) quase incestuosa entre os “irmãos” John e Cameron.

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Spoiler: a série acaba e ele não come

A personagem de Lena deveria, no meu entendimento, ser mais explorada em suas nuances, ter mais protagonismo na educação de John – que, na série, é apresentado como um menino-prodígio que é especialista em tudo, sagaz e sábio, já pronto para liderar a humanidade. O que resta para sua mãe lhe ensinar?

Pontas soltas, superpopulação e incoerências

Faltaram, claramente, foco e fio condutor à série. Indecisos entre escrever um quase sitcom familiar em que John e Cameron vivem altas confusões na escola, ou um pesado thriller de suspense envolvendo poderosas corporações, ou ainda um jogo de gato e rato envolvendo o roubo de um supercomputador que pode ser o embrião da Skynet, os roteiristas acabaram criando tramas demais, com personagens secundários demais, e não conseguiram amarrar todas essas histórias de modo coerente. Isso sem contar os inúmeros flashbacks (ou seriam flashforwards?) que explicam/complicam a guerra contra as máquinas e as intrigas políticas da Resistência no futuro. E nem merece comentário (embora eu esteja comentando) que a Resistência humana tenha sob seu controle uma usina nuclear. Um HK enviado pela Skynet destruiria a planta e espalharia radioatividade suficiente pra matar todos os humanos na região.

WTF?

WTF?

Além disso, na série os protagonistas acabam fazendo algumas coisas estúpidas, que simplesmente não combinam com os personagens. Além da bipolaridade de John, que ora age como um comandante militar de sabedoria salomônica e ora como um menino cabeça oca, a própria Sarah do seriado tem alguns problemas de construção. Qual é a dela, no fim das contas?

OK, no segundo filme da saga, quando a matriarca não consegue assassinar Miles Dyson, fica claro que Sarah está longe de ser uma máquina sem sentimentos. Mas, na série, ela parece, em alguns momentos, esquecer quem é e o perigo que corre, como quando decide fixar residência numa casa de comercial de margarina e até se tornar íntima da vizinha grávida – mesmo que tenha ficado claro que o lugar não é nada seguro para fugitivos da Skynet e que, no primeiro episódio, a mesma Sarah tenha manifestado sua preocupação em não criar raízes para não comprometer a segurança de John.

Contribuições salutares (ou nem tanto) ao universo Terminator

A série, apesar de alguns percalços, também acrescentou diversos elementos que enriquecem e dinamizam o universo de O Exterminador do Futuro:

spoiler-alerta

Os humanos dominam a viagem no tempo

Fica claro, no primeiro episódio, que os humanos do futuro de TSCC não são apenas ratos gigantes que se esgueiram pelos esgotos e escombros de uma Los Angeles arrasada, como o primeiro filme da saga dá a entender. Eles têm tecnologia e pesquisa avançadas.

Para fugir de Cromartie, Cameron leva John e Sarah a um cofre de banco onde engenheiros enviados do futuro construíram uma réplica da Máquina do Tempo desenvolvida pela Skynet. Assim, eles são transportados para 2008 e Sarah ganha alguns anos de sobrevida, escapando do câncer.

Essa ideia de que a viagem no tempo é tão banal para a Resistência é ligeiramente absurda. Primeiro, é bem improvável que a ciência e a engenharia da viagem no tempo sejam tão fáceis de se roubar e duplicar num contexto de guerra total em que um dos lados é muito mais poderoso – a menos que o lado detentor da tecnologia tenha traidores dispostos a entregá-la. Se a segurança da Skynet fosse tão precária, os humanos a destruiriam muito facilmente. Segundo, mesmo que a Resistência tivesse a sua própria Máquina lá na terceira década do século 21, a ideia de que engenheiros enviados a meados do século 20 poderiam construir uma réplica operante usando apenas materiais existentes naquela época é ainda mais absurda.

Um Dr. Silberman do Mal

O Dr. Peter Silberman, psiquiatra que aparece nos três primeiros filmes da franquia como uma espécie de contraponto cômico, interpretado por Earl Boen, também surge em TSCC, mas quanta diferença.

Vivido por Bruce Davis, Silberman está no episódio The Demon Hand, da primeira temporada, e tornou-se um eremita sombrio e enigmático depois da epifania que teve no segundo filme, ao ver que o medo de Sarah dos exterminadores não era loucura. Procurado pelo agente James Ellison, que desconfia de algo sobrenatural envolvendo o caso de Sarah, Silberman tenta matá-lo para proteger a mulher que, no seu delírio religioso, é uma mensageira dos deuses.

O episódio acaba tendo um impacto transformador na vida e na espiritualidade de Ellison e mudando radicalmente a sua função na série.

Música da boa

A trilha sonora dos primeiros filmes da franquia, principalmente o tema estabelecido por Brad Fiedel, tornou-se clássica. Substituir a música de Fiedel na série é um desafio e tanto, que foi vencido com louvor por Bear McCreary. O tema de TSCC é lindo:

Além disso, há sequências em que colossais tiroteios são transformados em videoclipes ao som de belas canções (para conferir exemplos, clique aqui e aqui) pro espectador dar uma relaxada, porque ninguém é de ferro (ou melhor, alguns personagens até são).

Missões específicas

Vemos, em TSCC, que nem só para transportar assassinos servia a Máquina do Tempo da Skynet. Alguns exterminadores eram enviados ao passado com missões específicas, como armazenar, antes da guerra, o metal que seria usado na construção de endoesqueletos ou tomar o controle do sistema de vigilância eletrônica de Los Angeles – ou até assumir o lugar de executivas de sucesso para desenvolver um supercomputador.

Exterminadores mais convincentes

Quero ver você fazer isso, Arnold

Quero ver você fazer isso, Arnold

Basta falar por dez segundos com o exterminador T-800 interpretado por Arnold Schwarzenegger nos primeiros filmes para saber que ele é uma máquina. O Triple 8 de TSCC é muito mais eficiente na imitação dos seres humanos (o que, afinal, é a sua razão de existência) e consegue interagir e conversar de modo praticamente indistinto de uma pessoa normal. Tanto que um dos exterminadores enviados ao passado com tarefas específicas chegou a se casar com uma mulher sem que ela desconfiasse da sua condição.

O caso de Cameron é o mais assombroso. Os “flashforwards” mostram que ela foi construída à imagem e semelhança de Allison, uma combatente da Resistência capturada pelas máquinas. Disposta a criar a infiltrada perfeita, a Skynet estudou a fundo a psicologia humana e a personalidade de Allison. Cameron é uma cópia tão perfeita de um ser humano que às vezes desconfiamos que ela tem até emoções, como nos episódios em que demonstra ciúmes de John ou quando usa artifícios de sedução para tentar convencê-lo a fazer o que ela quer.

A ressurreição de Cromartie

“Morto” durante a fuga do trio de protagonistas na Máquina do Tempo, o Triple 8 Cromartie volta à ação nos episódios seguintes. E faz isso violando um dos cânones estabelecidos no filme T1: a ideia de que só coisas vivas conseguem atravessar o portal temporal (mas o próprio James Cameron demonstrou, com o T-1000, que não se importa muito com essa regra, então, que seja).

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A cabeça sem pele de Cromartie é transportada para 2008 junto com fugitivos e o seu corpo fica em 1999. Nos episódios seguintes, nos maravilhamos com a capacidade de regeneração do Triple 8: assim que chega ao futuro, a cabeça de Cromartie começa a enviar sinais à procura do seu corpo. E o corpo, guardado num depósito por nove anos, atende o chamado e parte em busca da cabeça que tinha perdido.
Quando se reencontram, cabeça e corpo ainda não podem cumprir a missão que se receberam, pois precisam, antes, receber uma cobertura de tecido vivo. Só um endoesqueleto não faz um Triple 8.

As ações de Cromartie para conseguir a sua nova pele são um dos pontos altos da primeira temporada, quase dignas de um filme de terror. Ele, que sabe de cor a revolucionária fórmula para fabricar o tecido, convence primeiro um cientista a desenvolver sua pele e depois se submete a uma cirurgia plástica para parecer uma pessoa de verdade. Temos um assassino novo em folha e pronto pra continuar a missão.

Cinquenta tons de uma guerra cinza

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Atitude um tanto incomum para alguém do time dos mocinhos

O maniqueísmo é uma das principais características da guerra entre homens e máquinas (pelo menos nos primeiros filmes). Em TSCC, vemos que há nuances, como mocinhos entre as máquinas e vilões entre os humanos. Por exemplo, descobrimos que há, no futuro, pessoas que cooperam voluntariamente com as máquinas e ajudam-nas a compreender os humanos e desenvolver formas mais eficientes de matar. São os chamados Cinzas.

Há, também, um mal-estar entre alguns combatentes da Resistência e os exterminadores reprogramados. Connor, descobrimos, confia tanto em Cameron que a transforma em seu braço direito, o que gera desconfiança e ódio em algumas pessoas -e o mesmo ocorre com outros ciborgues reprogramados que ocupam postos de confiança.

Na segunda metade da última temporada, também descobrimos que a sociedade das máquinas não é um consenso e que há, entre elas, algumas dispostas a cooperar com os humanos sem necessidade de reprogramação – como é o caso da T-1001 que volta ao passado e assume o lugar da executiva Catherine Weaver (interpretada por Shirley Manson).

John Henry e James Elison

Quando descobrimos que Catherine Weaver é um ciborgue T-1001, passamos a tratá-la como vilã. O fato de ela parecer estar desenvolvendo um supercomputador nos leva a crer que é ela a criadora da Skynet.

O corpo de Cromartie, que teve a CPU destruída pelos protagonistas, torna-se a interface do novo supercomputador, que recebe o nome de John Henry – e James Ellison, o agente do FBI que passou por uma epifania religiosa ao perseguir exterminadores,  torna-se o seu mentor.

Pode parecer uma loucura dos roteiristas transformar um personagem que era agente do FBI no mentor de um supercomputador criado por uma corporação obscura, ainda mais sendo escolhido por sua retidão moral e não por suas habilidades profissionais… mas a escolha se justifica pelo processo por que passa Ellison ao longo da série. Além do mais, esse não um posto dos mais fáceis de preencher pelo departamento de RH. Por tudo que viveu e pelas coisas que viu, Ellison está muito à frente de quase todos os candidatos ao emprego.

Suas conversas com John Henry ajudam a moldar o caráter de uma inteligência artificial imatura que, depois descobrimos, não será a Skynet. A T-1001 voltou ao passado para criar um supercomputador destinado a ajudar a Resistência humana a enfrentar o líder maligno das máquinas.

Cameron

Sei que já falei nela antes, mas não custa repetir:


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Um final desastroso

O final de TSCC é simplesmente lamentável. Só pode ser um protesto pelo cancelamento da série. Só isso explica tamanho absurdo. Vou resumir:

Com o ataque (da proto-Skynet) contra a corporação de Catherine Weaver e contra John Henry, este convence Cameron a doar-lhe sua CPU (ou seja, ela se suicida para salvá-lo) para que ele fuja depois de gravar no chip seus contatos do WhatsApp ou seja lá o que precisasse guardar. É aqui que perguntamos: tudo que faz um supercomputador ser chamado de súper cabe na CPU de um único exterminador? Improvável.

Bueno, prosseguindo: descobrimos que há, na sede de Zeira Corporation, uma réplica da Máquina do Tempo (pô, mais uma? Acho que o aparelho tá à venda na Amazon, só pode) que é usada por John Henry, Catherine e John Connor para fugir para 2029, ou algo assim. Chegando lá, descobrimos que Connor, ao viajar para o futuro, pulou etapas, apagou a sua própria história como líder da Resistência e foi, portanto, deletado da História da humanidade. Ninguém da Resistência nunca ouviu falar nele. Apesar disso, ainda há uma Resistência, liderada, vejam só, por seu pai, Kyle Reese. E John Henry, em vez de começar a cumprir sua missão ainda em 2008 e evitar bilhões de mortes, passa a enfrentar a Skynet só depois da guerra.

Allison também está lá. Sabemos que é ela e não a exterminadora Cameron porque há também um cachorro com ela. E aprendemos, desde o primeiro filme, que cachorros odeiam exterminadores (cães são sábios). John a olha e pensamos: ele ficará com ela? Mas ela não é Cameron. Na última cena, raios indicam que alguém andou viajando no tempo. Ouvimos uma voz feminina dizer: “Eu também te amo”. Será que Cameron, onde quer que estivesse, conseguiu uma nova CPU e uma passagem para o futuro? Será que John se contentou em ficar com sua versão de carne e osso? Não sei e, de qualquer jeito, tanto faz: nada pode consertar esse final.