Jessica Jones não é tudo isso… Killgrave, sim

Senhor D
Por Senhor D
02/12/2015

Sem preâmbulos, direto ao ponto: Jessica Jones, a série do Netflix, fica na média, não mais que a média. Está longe de ser o melhor produto Marvel fora dos quadrinhos e, tampouco, demonstra potencial para vir a se tornar — pelo menos não demonstrou nessa primeira temporada. Na contramão à crítica “especializada”, o veredicto aqui é o seguinte: Jessica Jones não é tudo isso. Não é tudo isso porque tropeça no roteiro, se estende na narrativa, insiste em se repetir e deprecia a própria protagonista. Por outro lado, tem um vilão singular, acerta nas referências e traz atuações concisas de um elenco eficiente. Entre erros e acertos, a média.

24 Mar 2015, New York City, New York State, USA --- Actress Krysten Ritter, wearing a leather jacket and biker boots, films 'AKA Jessica Jones' with Wil Traval on March 24, 2015 in Tribeca, New York City. Krysten's face features bloody cuts. Pictured: Krysten Ritter --- Image by © Christopher Peterson/Splash News/Corbis

Sobre os problemas, comecemos pela narrativa estendida. Treze episódios se mostraram além do necessário, comprometendo o ritmo da trama. O lengalenga que se instaura lá pela segunda metade, mais especificamente a partir do sétimo episódio, torna a série gradualmente menos interessante, como se aos poucos rumasse ao anticlímax.

Essas treze horas de conteúdo seriam justificadas se servissem ao desenvolvimento dos personagens. Porém, não é o caso. Até porque os papéis foram bem desenvolvidos ainda antes de a enrolação começar. Tanto o núcleo principal quanto o secundário ganharam a profundidade que mereciam, avançaram na trama. Assim, tudo se resolveria fácil em dez capítulos. E se este fosse o caso, de se encerrar no décimo, você estaria lendo agora sobre “como Jessica Jones é uma série ágil e concisa, de como é boa de síntese“.

Talvez, também devido ao prolongamento demasiado, o roteiro de Jessica Jones se mostra cheio de altos e baixos. A primeira parte da série é tudo que eu disse que você leria aqui não fosse o supracitado: “ágil, concisa e boa de síntese“. Ocorre que alguns eventos começam a ficar recorrentes — alguns a perder a conta. O ciclo sem fim de acontecimentos semelhantes — para não dizer repetitivos — é depreciativo à (anti) heroína. Torna-se um daqueles casos em que você pensa: “não acredito que ela fez tudo isso para chegar a isso e agora vai fazer isso!”.

Embora Jessica tenha motivações honestas, os métodos que ela escolhe são, no mínimo, questionáveis. Tem ideias estúpidas e elabora planos absurdos e imbecis que, algumas vezes, só não são colocados em prática por interferência de alguém. Isso vai de encontro à construção de uma personagem inteligente, sagaz, detetive de mão cheia. Tem um provérbio que diz algo parecido com “engana-me uma vez, vergonha para você; engana-me duas vezes, vergonha para mim”. Pois esse ditado diz muito sobre a vergonha da Jessica.

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Ainda que insista em travar, em não sair do lugar, a série tem méritos estéticos consideráveis. A homenagem ao noir detetivesco é evidente, belo e funcional. Ornamentadas por uma trilha musical bem escolhida, as ruas imundas na vizinhança do Demolidor fazem coro à noite que intimida, que se impõe. A direção é competente nesse ponto. Todavia, não se pode dizer o mesmo a respeito das cenas de ação.

Confrontos coreografados e pancadaria não são o foco da série. Fato. Mas, ainda que esporádicas, eles acontecem. E quando acontecem, deixam a desejar. As tomadas de luta são mal filmadas, com planos muito fechados e cortes precipitados. Não temos a dimensão da força de Jessica ou de Luke Cage (com exceção de um determinado enfrentamento, com a participação de ambos, mais para o final da série).

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Jessica Jones não é uma lutadora, logo, é normal que encontre dificuldades ao sair no braço com adversários qualificados. Só que quando os adversários não são tão qualificados assim, ela também encontra. Determinados momentos deixam a sensação de que ela não tem poder algum. Policiais comuns, capangas de segunda e até civis se impõem e se colocam frequentemente como ameaça. Na maior parte do tempo, tudo que vemos Jessica fazer é arremessar pessoas, mesas, arrebentar cadeados ou dar um saltinho e outro. Esses são os principais parâmetros que temos para dimensionar a força de Jessica.

A falta de apuração em combate evidencia outro defeito da moça: ela é preguiçosa. Não se aprimorou, não treinou, não quis melhorar. Sem os poderes, o que sobraria de Jessica Jones? Com certeza, a resposta não seria “gênio, bilionário, playboy, filantropo”.

KILLGRAVE: UM SHOW À PARTE

Ainda que tudo fosse dispensável em Jessica Jones, o que não é, a série ainda valeria a pena por uma razão: Killgrave. O ator David Tennant dá vida a um dos melhores vilões desenvolvidos pela Marvel fora das HQs. Talvez, o Killgrave de David Tennant só encontre comparação à altura no Rei do Crime de Vincent D’Onofrio.

Conhecido como Homem-Púrpura ou Purple Man pelos leitores, o Killgrave da série é ainda mais interessante do que em seu habitat de origem, os quadrinhos. Insano, ameaçador e imprevisível, o vilão tem sua psicopatia explorada a fundo, e nós queremos mais e mais disso. Queremos mais de sua loucura dissimulada em sotaque britânico, mais de suas distorções de realidade.

David Tennant parece se apropriar dos poderes de Killgrave, nos dizendo “gostem de mim, torçam por mim”. E nós gostamos dele, torcemos por ele. Não porque fomos submetidos à sua “habilidade”, e sim porque, no fundo, queremos isso. Não é exagero dizer que Killgrave, no fim das contas, é o dono, a grande estrela da série.

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COMPARAÇÃO INEVITÁVEL

Jessica Jones, a dos quadrinhos, encontrou no selo Marvel Max ambiente favorável para desenvolver a complexidade peculiar de uma forte personagem feminina fora dos padrões estabelecidos na nona arte— e não só na nona arte. O serviço de streaming oferece as mesmas condições para a Jessica de Krysten Ritter, a atriz, o que é louvável. Jessica Jones, a série, apresenta uma mulher de personalidade forte, desbocada, independente e sexualmente ativa. Ao mesmo tempo, se mostra uma pessoa solitária, de poucos amigos, com problemas de alcoolismo e atormentada pelo passado. Na balança, mais frágil do que deseja aparentar.

A comparação entre adaptação e adaptado é inevitável, não obrigatória. Ainda assim, não custa registrar que os produtores não macularam a obra original — boa notícia àqueles que não conseguem desvincular as mídias.

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Outro aspecto positivo são as referências. Entre easter-eggs, pistas sutis e diálogos aparentemente despretensiosos, o Universo Marvel vai se ampliando, se construindo e, principalmente, se interligando. A impressão de que a qualquer momento Jessica Jones pode topar com Matt Murdock, ou que ao fundo do cenário pode passar um cara voando em uma armadura de ferro ou um outro de carona em um martelo ainda não passa disso, uma impressão. Mas como fetiche, é tudo que precisamos.

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