Doctor Who | 5 motivos para o próximo Doctor ser mulher

Ana Melo
Por Ana Melo
03/02/2017

Um dos maiores diferenciais de Doctor Who é a constante mudança dos atores que interpretam o protagonista da série. Lá nos anos 60, nas primeiras temporadas, os roteiristas tiveram uma ideia criativa para seguir com a série indefinidamente: a regeneração do Doutor. Regenerar é a maneira que os Senhores do Tempo – a espécie da personagem, que nasceu em outro planeta – têm para enganar a morte. Em vez de realmente morrer, eles mudam de corpo e de personalidade, mantendo, porém, as memórias. Assim, a cada, em média, três temporadas, o ator que interpreta o icônico papel muda, permitindo uma grande diversidade de homens brancos, heterossexuais, britânicos e atraentes na tela.

Pois é, como muitas obras de ficção científica, essa série, que aborda literalmente todo o tempo e o espaço, falha na hora de apresentar personagens com representatividade. Em mais de cinquenta anos de produção, os Doutores e suas companions apresentaram pouca diversidade, não só em termos de gênero. O que pode até ser compreensível para uma época em que o programa era exibido em preto e branco vem se tornando alvo de críticas nos últimos anos, e, pouco a pouco, a situação da série está mudando. Em abril do último ano, foi anunciada a nova companion, Pearl Mackie – recém a segunda negra a fazer o papel na série. Agora, depois do anúncio de que a décima temporada será a última de Peter Capaldi, os fãs especulam quem o sucederá, e muitos, inclusive o próprio Capaldi, torcem para que seja uma mulher!

Dessa forma, como mulher e como alguém que tem uma TARDIS tatuada no braço, resolvi reforçar alguns argumentos sobre a questão, explicando por que apoio a ideia de uma atriz fazer o papel:

1. PORQUE ELE PODE!

Nas últimas regenerações, o principal argumento para manter o protagonista como um homem era de origem biológica: muitos fãs alegavam que os senhores do tempo simplesmente não podiam mudar de gênero. De fato, até pouco tempo, não havia nenhum caso assim na série, embora também não houvesse nada que negasse definitivamente a possibilidade. Contudo, na oitava temporada, um dos principais antagonistas da série, um senhor do tempo chamado Master, regenerou em uma mulher (Michelle Gomez), adotando o nome de Missy.

doctor who missy

Se Missy pode…

Na nona, o General de Gallifrey, o planeta do Doutor, também se transformou em UMA general, mudando, além disso, de branco para negra. Além de significativos em si só, esses casos estabelecem precedente, indicando que, talvez, o Doutor também possa se tornar mulher.

2. REPRESENTATIVIDADE

Como já discuti no texto sobre o protagonismo da Rey em Star Wars, a representatividade em produtos culturais é importante para mostrar ao público que também podem ser como esses personagens. Quando uma garota deseja fazer cosplay de Doctor Who, por exemplo, ela sempre terá que ser secundária para manter seu gênero. Mais do que a ficção, a própria escolha de uma atriz para interpretar um papel tão icônico também é importante, pois se trata de representatividade na vida real. Melhor ainda seria optar por uma mulher não-branca, já que a questão racial também é um problema na série.

3. DESEJO DOS FÃS

Certo, essa não é unânime, mas há uma grande repercussão na internet a favor de ter uma Doutora. Todo mundo está na expectativa, e qualquer decisão tomada pelo programa será um posicionamento, então é melhor tomar a decisão certa. Além disso, colocar uma atriz no papel seria uma maneira de chamar mais atenção à série e trazer um pouco de inovação, o que me leva ao próximo ponto.

4. INOVAÇÃO

Para uma série de mais de cinquenta anos, Doctor Who faz um bom trabalho no que tange a inovação, mas tem um ponto em que tudo se torna um pouco repetitivo. A fórmula de um Doutor excêntrico com roupas estranhas e uma mulher inglesa de vinte anos que quer mudar sua vida entediante, mesmo com algumas alterações de temporada em temporada, já está começando a cansar. Embora Peter Capaldi tenha trazido um pouco do sentimento da série clássica, uma vez que ele não é o doutor jovem e atraente como Tennant e Smith, a série  ainda precisa de algum diferencial, e trazer uma mulher para o papel certamente seria uma boa forma de fazê-lo.

5. POR QUE NÃO?

Quando as pessoas dizem que colocar uma mulher no papel do protagonista mudaria totalmente a série, eu só posso imaginar que elas não entenderam a essência de Doctor Who. Além de todas as aventuras, viagens no tempo e monstros, o que o Doctor realmente nos inspira é a querer conhecer mais o mundo, a ser mais corajosos e justos, a refletir sobre a guerra e sobre a humanidade. Colocar uma atriz nesse papel não mudaria nada disso, com exceção do artigo na frase.

Por fim, é importante fazer algumas ressalvas. Se o décimo-terceiro Doutor for, de fato, uma Doutora, é importante que os roteiristas saibam como escrevê-la bem, sem acentuar estereótipos de gênero. Certamente é normal mostrar algum espanto pela novidade, depois de doze regenerações como homem, mas, no fundo, a mudança deve ser tratada com naturalidade. A Doutora não precisa – e não deve – ter sua personalidade definida apenas pelo fato de ser mulher, mas sim, pode ser infantil como Matt Smith, inteligente como David Tennant, excêntrica como Tom Baker, ou ter qualquer outro traço que independe de seu gênero. Essa escolha pode ser uma ótima oportunidade para a série, mas, se escolherem seguir por esse caminho, devem fazê-la da maneira séria, pois ninguém precisa de outro Ghostbusters.