Desventuras em Série: é melhor não olhar

Senhor D
Por Senhor D
11/01/2019

Olá, meu nome é Senhor D., e você não deveria estar lendo isso. Não encontrará nas linhas que se seguem nada além de uma tentativa enfadonha e pretensiosa de tecer e apresentar, em linguajar petulante, inadequado e forçosamente erudito, inúmeras apreciações, constatações e considerações críticas meramente subjetivas a respeito de obra artística criada por terceiros, a saber: Desventuras em Série, a série da Netflix.

A internet está repleta de opções atraentes em que é possível buscar informação, conhecimento ou entretenimento, de modo que não vale a pena perder seu tempo com conteúdo tão despropositado quanto este ao qual você agora direciona seu globo ocular. Deve haver milhares de vídeos com gatinhos se escondendo em caixas de papelão ou fugindo de pepinos disponíveis para você neste momento. Então, sugiro que deixe este ambiente virtual agora, antes de o tédio se instalar em você e enquanto seu humor ainda está parcialmente intacto. Acredite, não há nada para ver aqui.

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Bom, você não foi embora. Isso me leva a elencar alguns motivos para sua permanência. Você pode não ter amor próprio o suficiente; pode ser alguém soturno com inclinações sadomasoquistas; pode ser uma pessoa teimosa que aprecia contrariar conselhos e sugestões de desconhecidos ou pode simplesmente ter cometido a insensatez de acompanhar, via streaming, a triste história dos irmãos Baudelaire, tal como a cadeia desenfreada de infortúnios terríveis que os assolou ao longo de três temporadas. Ou, ainda, pode ser que você esteja nas mãos de algum torturador que, por alguma razão desconhecida, sequestra pessoas e as obriga a ler textos que sequer deveriam ter sido escritos. Neste caso, aproveite bem seu cativeiro e boa sorte ao colocar sua fuga em prática.

“Fuga” é uma das palavras que lamentavelmente se tornaram corriqueiras na vida dos órfãos Baudelaire, assim como “tragédia”, “perda”, “desgraça”, “morte”, “incêndio”, “contratempo”, “tutor legal”, entre outros termos tão ou mais pavorosos quanto esses. A verdade é que os irmãos Violet, Klaus e Sunny passaram por tantos tormentos que a disponibilidade léxica de signos comunicacionais relacionados a situações alegres ou reconfortantes poderia ser drasticamente reduzida a umas poucas interjeições de alívio próprias para algumas poucas situações. Situações estas demasiadamente espaçadas temporalmente. E no espaço de tempo demarcado pela separação rigorosa entre um e outro raro momento de paz que essas crianças vieram a desfrutar, surpresas das mais catastróficas se empilharam descomedidamente.

“Surpresa” é uma palavra que aqui significa situação ou acontecimento surpreendente, algo que pode causar espanto ou que apenas não era esperado em determinado contexto de experiência. Nesse sentido, os ocorridos desastrosos que perseguem os Baudelaire não se adequam ao conceito de “surpresa”, uma vez que tais circunstâncias, negativamente recorrentes, perderam seu caráter de imprevisibilidade. Afinal, se há algo que não surpreende nessa triste narrativa repleta de desventuras é o fato de que algo ruim sempre está para acontecer e que qualquer coisa que pareça boa demais para ser verdade é, precisamente, boa demais para ser verdade, de modo que acaba não sendo.

Se, de outra forma, há algo que surpreende nessa história, esse algo não é necessariamente a história em si, mas o tanto de curiosidade que uma trama tão obscura quanto essa pode provocar em pessoas ditas normativamente normais. Qual seria a razão, por exemplo, para que os lastimáveis relatos de Lemony Snicket recebessem a atenção de alguém como eu, que, não satisfeito em testemunhar cada infeliz episódio vivenciado pelos Baudelaire, ainda se prestou a escrever sobre tais ocorridos?

Outro fato que evidencia os aspectos questionáveis das maneiras como as pessoas gastam suas horas é a desenvoltura transmidiática dessa história. Pois melhor seria se tamanho drama jamais tivesse sido contado. Assim, ficaria perdido em sua própria transitoriedade. Mas, pelo contrário: a série audiovisual que acaba de se encerrar em sua terceira temporada foi, antes de ser uma série audiovisual, uma sequência de livros com sucesso de público e crítica — além de já ter passado pelo cinema com bem menos sucesso de crítica.

Se minha opinião tem algum valor, e acredito sinceramente que não tenha, essa minha opinião irrelevante é de que, apesar de todo mal-estar que Desventuras em Série impõe a seus espectadores, é possível ressaltar aspectos positivos para além do terror e das noites sem dormir. Se por um lado é verdade que essa produção vai destruir sua noite e seu dia com pilhas de cenas deprimentes, por outro, é inquestionável a beleza dessas mesmas cenas, por mais deprimentes que sejam. A exuberância das cores, sejam estas vivas ou mortas (às vezes literalmente vivas ou mortas), enche os olhos. “Encher os olhos” é uma expressão que aqui significa uma sensação de prazer proveniente de determinada imagem visualizada por olhos não necessariamente cheios. Dizemos que algo enche os olhos quando esse algo é considerado efetivamente belo por alguém que terá seus olhos figurativamente cheios — no caso, cheios de beleza.

As atuações de toda a trupe também são algo a se destacar. Malina Weissman, Louis Hynes e Presley Smith são os atores mirins com feições de características agradáveis que se prestaram à malfadada tarefa de interpretar, respectivamente, Violet, a irmã mais velha, Klaus, o irmão do meio, e Sunny, a bebê. Conde Olaf, o grande vilão da história (embora, desafortunadamente, não o único), é não menos brilhantemente interpretado por Neil Patrick Harris. A desenvoltura das atuações é acentuada pelo carisma evidente dos personagens –não só do núcleo principal, mas também de cada coadjuvante em cada arco. A trama, evidentemente, tem sua contribuição: repleto de diálogos rápidos, humor ácido e frases de efeito (além de uma repetição de padrões elevada à potência máxima), o roteiro emaranhado e não apressado — uma não-pressa que contrasta com a pressa proveniente da urgência de toda desventura — não deixa pontas soltas — muito graças aos eventos ocasionados a partir dos capítulos finais da série, registrados em um hotel chamado oportuna e convenientemente de Hotel Desenlace, cuja função tem muito a ver com o nome que ostenta na fachada: “Desenlace”.

Por tudo isso, concluo que, não fosse pela trama tão desastrosamente desoladora, essa série seria de um deleite ímpar.

Mas você pode discordar de tudo o que acabou de ler. Mais do que isso: você tem total liberdade e inúmeros motivos para vociferar insultos de toda ordem contra alguém como eu, que, aparentemente desprovido de qualquer nível de noção e grau de bom senso, colocou-se a escrever parágrafos tão longos, tão desajustados e tão indigestamente repletos de adjetivos. Esse é um direito seu, mas não se esqueça: eu avisei que você não deveria ler isso e confessei acreditar sinceramente que não há validade alguma em minhas opiniões. Ainda assim, me atrevo a repetir: não fosse pela trama tão desastrosamente desoladora, essa série seria de um deleite ímpar.

São três crianças
Que um dia se tornaram órfãs
E alguém terrível
Fez um plano para os roubar
Não dá pra entender
Como puderam resistir
E como alguém como você!
Se presta a assistir!

Trama é uma palavra que aqui significa um tipo de enredo repleto de conjunturas dispostas de modo a dar sentido a ações narrativas a fim de criar emoção, sentido e estabelecer conexões com os espectadores. Mas trama também é uma palavra que me faz perceber que não falei sobre de que se trata a trama de Desventuras em Série. Problema simples de contornar, bem diferente do tipo de problema que os órfãos Baudelaire têm de constantemente afrontar. Um trecho traduzido da música de abertura da séria, por exemplo, sintetiza suficientemente bem a supracitada (ainda que não profundamente citada) trama:

Como alguém como você se presta a assistir?, diz a letra da canção de abertura. Seria apropriado que você se fizesse essa pergunta a cada “play” que decidisse apertar.

Contudo, é bom ressaltar que Desventuras em Série pode ser culpada de muitas sensações indesejadas (muito devido à sua tendência insistente, inapelável e dispensável de expor cada sórdido detalhe das tragédias que assombram os Baudelaire), mas esse programa não pode ser culpado de não ter alertado a todos sobre essa possibilidade. Àqueles que ignoraram as advertências, resta a culpa e o peso na consciência por consumir tantas horas de vida com uma obra tão funesta, tão cheia de mortes, incêndios e todo tipo de dor, temor e maus-tratos infantis e juvenis. E a culpa só piora quando você se dá conta de que achou cada episódio melhor que o outro e, ao mesmo tempo, todos consideravelmente espetaculares. “Considerável” é uma palavra que aqui significa algo grande o suficiente para que não possa ser ignorado. Desventuras em Série, portanto, é uma série mais do que considerável.

Mas, se estiver na dúvida sobre se vale a pena investir seu precioso tempo nessa série, pergunte a alguém sensato: “Devo assistir?”.