Cavaleiros do Zodíaco: por que escolhemos amar esse anime

Senhor D
Por Senhor D
28/10/2015

Foi há mais de duas décadas que ouvimos e escolhemos confiar: “os guardiões do Universo hão de vencer o mal”. Escrevo sob risco de revelar idade, ainda que feliz por ter desabrochado à infância nos saudosos anos noventa. Os que batem à porta dos trinta lembram bem desse tempo, quando crianças desperdiçavam tardes ensolaradas na frente da televisão (aparelho popular na época). Sintonizada à custa de esponja de aço, a hoje extinta TV Manchete orgulhosamente transmitia Os Cavaleiros do Zodíaco.

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Adaptada do mangá criado por Masami Kurumada (intitulado Saint Seiya), a animação foi febre em todo o Brasil. Tamanho sucesso injetou vida extra à saudosa emissora, que, não fossem os defensores deAtena, teria decretado falência anos antes de 1999, quando saiu do ar definitivamente. Os Cavaleiros também abriam caminho para outros desenhos japoneses, que dali em diante passariam a saturar a grade de outros canais, fossem eles abertos ou fechados — o que ocorre ainda hoje. Embalados no vácuo de “Seiya e os outros” vieram sayajins, pokemóns, samurais, ninjas e tantos outros animes (como são chamadas as animações nipônicas), cada vez com maior destaque no horário nobre da programação infantil.

Mas o que explica o fenômeno Cavaleiros do Zodíaco? Por que, entre tantas opções, foram eleitos os preferidos daquela geração? Posso citar rapidamente algumas razões que me vêm à mente. A primeira delas é a trama contínua, que não era comum entre os desenhos transmitidos no país na época. As crianças tinham um programa animado para acompanhar dia após dia, em ordem cronológica, como uma série ou novela. Você assistia a ThunderCats, por exemplo, e cada episódio se encerrava nele mesmo. Com Cavaleiros era diferente. Esperávamos ansiosamente pelo próximo capítulo — “será que Shiryu vai vencer Seiya na Guerra Galáctica?”, dormíamos pensando.

O sangue que jorrava pela tela é outro motivo. Em tempos de Robocop passando na Sessão da Tarde, violência não era novidade para a garotada. Só que em desenhos animados a coisa funcionava diferente. A animação mais violenta da época era Tom e Jerry, mas, por mais fatiado, esmagado e perfurado que o Tom ficasse, não corria um tiquinho de sangue sequer daquele gato. Por outro lado, lembro do meu espanto  — e excitação — ao ver a orelha de Cassius caindo latejante ao chão depois de ser arrancada a tapa. E esse era só o começo…

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Outro aspecto é a identificação. Você tinha uma gama enorme de personagens para escolher como seu — e não só entre o núcleo principal. Por exemplo, eu era o Ikki, mas também queria ser o Shura, de Capricórnio. E se outro amigo quisesse ser o Ikki, eu podia ser o Shiryu, que eu adorava o Shiryu também. Durante a lendária Batalha das Doze Casas, que atire o primeiro meteoro quem não esperou a roer unhas para conhecer o Cavaleiro de Ouro que representava seu signo?

Essas supracitadas são apenas algumas das características que nos fizeram amar os Cavaleiros do Zodíaco como nenhum outro desenho até então. De forma mais ampla e subjetiva, podemos dizer simplesmente que a série era inteligente, tinha personagens carismáticos, boas cenas de ação, ótimas sacadas. Que nos “ensinava” sobre mitologia e astrologia. Que passava uma mensagem de amizade. Que era épica e poética. Também era um bocado brega, repleta de fillers e cheia de erros de continuidade — ninguém é perfeito, vocês sabem.

E se todas essas razões não forem o bastante para explicar tamanha devoção de nossa parte, lembremos de algumas das cenas inesquecíveis que nos fizeram pular na poltrona e socar a almofada. Nada melhor do que uma listinha Top 5 para simplificar as coisas, então, aí vai:

CINCO GRANDES MOMENTOS DE OS CAVALEIROS DO ZODÍACO

Ah, antes de começar, aviso que deixamos de fora as formidáveis batalhas travadas entre os Cavaleiros. Os confrontos merecem um ranking especial, só deles.

Agora, sim:

5 – O PRIMEIRO METEORO DE PÉGASO

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O destaque que Seiya ganha durante toda a saga dos Cavaleiros do Zodíaco não reflete sua popularidade entre os fãs. A verdade é que o defensor favorito de Atena é um chato, longe de ser um dos preferidos do público. Mas é um chato com méritos positivos, haveremos de concordar. Afinal, o cara foi feito para apanhar, e faz isso como ninguém. Além das surras, ainda sofre bullying de cada adversário que enfrenta (“você, um mero cavaleiro de bronze!”, dizem-lhe sempre, com desdém). Porém, é aí que está a essência do anime: a luta incessante dos fracos contra os fortes.

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Como seria se Cassius tivesse vencido a batalha

A desigualdade dos poderes, mais do que acentuar a coragem e a persistência dos heróis, é o que move o espectador a entender que nenhum oponente é tão terrível quanto o que estará por vir. Essa cultura “Davi e Golias” se estabelece desde o primeiro episódio, quando vemos o minguado Seiya encarar o gigante extra-bombado Cassius. E é nesse combate, no derradeiro duelo pela sagrada armadura de bronze, que ouvimos pela primeira vez o dramático “me dê sua força Pégasoooooo!” seguido pelo icônico “Meteoro de Pégasoooooo!“. Inesquecível.
4 – SHIRYU SANGRA PELAS ARMADURAS

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Shiryu não é um cara apegado. Nem mesmo à própria vida. O sacrifício faz parte de sua essência, e ele prova isso sempre que tem a oportunidade. E se lealdade e amizade são elementos que sustentam a série (junto com a porradaria), Shiryu é o responsável pelas maiores demonstrações dessas virtudes.

Lembram-se da vez em que estava disposto a morrer dando o sangue para reviver as armaduras de Dragão e de Pégaso. É fato: o cavaleiro dos Cinco Picos de Rozan foi feito para sangrar.

3 – SHUN AQUECE HYOGA

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Há quem diga que o que acontece na Casa de Libra fica na Casa de Libra. Cortesia das más línguas. Dizem isso porque a cena dos Cavaleiros do Zodíaco mais zoada de todos os tempos ocorreu bem ali — e é óbvio que esse momento único de “altruísmo” não poderia faltar nesta lista. Mas como a maldade está na mente de quem diz (acreditam que não encontrei no YouTube um vídeo sequer da cena sem sacanagem?), falemos sério sobre o que o sacrifício de Shun representa para a série.

Shun de Andrômeda não é um fraco, apenas não gosta de lutar. Quando decide mostrar sua força, comprova estar entre os guerreiros mais poderosos. Afinal, quem foi o único a derrotar de fato, mas de fato mesmo, um cavaleiro de ouro nas Doze Casas? É verdade que Shiryu venceu o Máscara da Morte, mas, lembrem-se, a Armadura de Câncer abandonou a batalha momentos antes. Quanto aos outros cavaleiros de ouro, todos pegaram leve (incluindo Shura, que fez questão de morrer sozinho e salvar o Dragão). Shun, por sua vez, sobrepuja Afrodite de maneira inquestionável.

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Voltando à polêmica do edredom humano. Hyoga recém tinha sido salvo da redoma de gelo em que fora preso, entretanto, seguia a caminho da morte por congelamento. É quando Shun decide que, mesmo que lhe custe a vida, elevará seu cosmo para aquecer o Cavaleiro de Cisne. Assim, Shun cola o rosto no de Hyoga, deita sobre ele e coloca suas pernas entre as dele — tudo isso com a devida dramaticidade. Nesse instante, Shiryu cita um provérbio chinês que explica o sacrifício de Andrômeda, tirando da cena toda conotação sexual que os maliciosos insistem em atribuir à cena.

Independentemente das suposições a respeito da orientação sexual do carinha das correntes, o fato é que a estratégia funciona. Hyoga e Shun sobrevivem e avançam, firmes e fortes.

2 – IKKI NA ILHA DA RAINHA DA MORTE

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Além de ser considerado o mais forte entre os cavaleiros de bronze, Ikki também é o mais sombrio, arrogante e independente de todos. No comando dos Cavaleiros Negros, surge como o primeiro vilão da série, ainda durante a Guerra Galáctica. Domina a técnica mais sinistra, o Golpe Fantasma de Fênix, que destrói a mente e a alma dos oponentes. Segue carreira solo, como um lobo solitário, mas sempre aparece na hora certa — e da forma mais triunfal.

che_casino_0__0_by_fagian-d2xmwsj-226x300Toda essa agressividade e indiferença, porém, têm uma razão: a Ilha da Rainha da Morte, o local de treinamento para onde foi mandado no lugar do irmão caçula — isso por insistência do próprio Ikki, que, conhecendo a fragilidade do seu mano querido, decidiu trocar para salvar-lhe a vida (olha do que nos livramos na imagem ao lado). Na Ilha, Ikki tem como mestre um homem perverso, cruel e poderoso, que lhe impõe o pior treinamento possível. Ainda assim, o candidato a cavaleiro sente respeito pelo mentor, negando-se a matá-lo em combate (única forma de conquistar a armadura).

Ocorre que o clima esquenta (literalmente) e Ikki, seduzido pelo lado negro ódio e tomado de fúria, derrota e tira a vida de seu mestre. Nasce, então, o Cavaleiro Imortal de Fênix, o primeiro a vestir a sagrada armadura — com muito poder, só que de péssimo humor.

1 – SHIRYU TIRA A PRÓPRIA VISÃO

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Shiryu teve o treinamento mais insano entre todos os cavaleiros. Porque mais difícil do que sobreviver à Ilha da Rainha da Morte ou quebrar uma muralha de gelo é mudar o curso de um rio a socos e pontapés. Pior ainda, não é só alterar o curso de um rio, e sim de uma cachoeira inteira. Imaginem só, golpear a água com tanta força de modo que a cachoeira — desrespeitando todas as leis da física — corra ao contrário, ou seja, que suba ao invés de descer. Mas Shiryu consegue tal proeza, mostrando-se digno da Armadura de Dragão e de ser convidado para compadre por qualquer um de nós. O mais incrível, porém, é que esse feito não é a cena que elegemos como a mais marcante de todas. O grande momento dos Cavaleiros do Zodíaco diz respeito, mais uma vez, a sacrifício.

A história que vou contar aconteceu durante a Saga do Santuário, antes da Batalha das Doze Casas. O cavaleiro de prata Algol de Perseu, dono do Escudo da Medusa, transforma Seiya e Shun em pedra — poder equivalente ao que narra a mitologia grega. Com a derrota dos dois, o adversário que resta é Shiryu de Dragão.

Arg106-300x212Para salvar os amigos da “prisão de pedra”, Shiryu não tem outra alternativa: precisa vencer Algol. Mas como enfrentá-lo não ter o mesmo destino dos companheiros? Vendar ou simplesmente fechar os olhos não basta. Shiryu não vê outra alternativa — e é só a primeira das coisas que ele não vai mais ver — e, com um golpe que dói só de pensar, tira a própria visão.

Cego, Shiryu volta ao duelo contra o Cavaleiro de Prata e, com apenas um dos braços (porque desgraça pouca é bobagem), destrói o Escudo da Medusa, atravessando junto o peito do oponente com um Cólera do Dragão que ecoa desde então em nossas lembranças (nosso companheiro Gustavo Kaspary chora até hoje, principalmente quando vê Shiryu derrubando um copo d’água no chão por não conseguir mais enxergar). Assistam ao vídeo abaixo e me digam se não é uma das coisas mais emocionantes de toda a história do Universo.