Black Mirror: breves comentários sobre a terceira temporada

Gustavo Kaspary
Por Gustavo Kaspary
01/11/2016

Eu estive procrastinando um texto sobre Black Mirror há um bom tempo. Já queria escrever sobre a série bem antes de sequer saber que teria uma terceira temporada e, quando soube, tive que adiar por preguiça o que eram originalmente alguns comentários sobre as duas primeiras temporadas. A verdade é que muito já havia sido dito e escrito sobre os seis episódios e o especial de natal que as chances de que meus comentários não tivessem nada a acrescentar eram gigantescas.

Pois bem. A nova temporada está aí há uns dias e ainda tem um tempinho até que tudo que envolva Black Mirror se torne banal. Deixo aqui algumas impressões sobre os novos capítulos.

NOSEDIVE

Aparência e realidade. O primeiro episódio se trata basicamente da diferença entre esses dois conceitos ou, melhor, no momento em que os dois se mesclam. O comportamento dos indivíduos (e qualquer interação entre eles) é vigiado e avaliado por um sistema de likes estrelas. É praticamente uma espécie de domesticação ético moral onde seu semelhante é o juiz de sua conduta e ganhar apenas uma estrela é o castigo.

Tudo soa falso na medida em que toda a ação visa uma boa avaliação e nada mais. Almeja-se tanto uma nota alta que a realidade e o agora são esquecidos. Numa cena genial, Lacie (a personagem principal do episódio) posta uma foto de um café com a legenda “café camurça com biscoito. Maravilhoso!”. Logo depois, Lacie cospe o cookie e faz uma careta ao tomar um gole do café.

Nosedive segue o esquema de uma tragédia. O herói trágico (Lacie) que está contente com a situação doente na qual vive, a hamartia, ou o erro, cometido pelo mesmo herói e, finalmente a catarse, onde tudo que parece sujo e desnecessário é expulso. (spoiler alert: a cena da catarse, a cena final, onde Lacie e um homem trocam xingamentos, por si só já dá a Nosedive quatro estrelas. Finalmente vemos atos honestos no episódio.)

O discurso pode até parecer cafona, mas é aí que entra o “black mirror”. Embora se passe numa realidade futurística, é quase impossível não entender ou reconhecer logo de cara a situação de Lacie. Que jogue a primeira pedra aquele que nunca moldou suas ações na necessidade de aprovação e o prezar pela aparência.

PLAYTEST

Um episódio mais morno. Talvez o primeiro sinal de que com a maior quantidade de episódios vem também a mudança. Mudança nas características inerentes a todos os episódios de Black Mirror. O ”ver a si mesmo naquela situação” que a série proporciona em suas duas primeiras temporadas é exclusivo aos gamers em Playtest, que em sua essência é uma homenagem ao mundo virtual do videogame.

Mistura de psicologia, terrorzinho e diversão na previsão dos clichês (embora, ironicamente, acabe caindo nos próprios clichês de Black Mirror), Playtest peca quando abdica da peculiaridade negativa que promove o já conhecido pelos fãs da série ”soco no estômago”, uma sensação ruim e desagradável. O final até tenta consertar isso, mas erra na falta de originalidade (lembra em muito White Christimas).

Tirando isso, o episódio é divertido. Só. E isso que desaponta. The Waldo Moment, terceiro episódio da segunda temporada, é também um episódio ruim, mas ainda assim consegue ser diferente e apresenta uma crítica interessante. Playtest não tem nada disso.

SHUT UP AND DANCE

O melhor da temporada. E ao mesmo tempo, o mais perturbador. O episódio forma um estranho díptico com White Bear: ambos questionam a validade do julgamento externo sobre pessoas da qual só se conhece a ponta do iceberg. Ambos nos mostram apenas a parte sadia e compreensível de cada personagem, seus lados negros nos são contados por meio de outros. Isso influencia na sentença que temos deles.

Na trama, Kenny é chantageado por um grupo de hackers que o filmam durante um momento íntimo. Ao longo do episódio, ele se torna uma mera marionete, forçado a praticar crimes numa tentativa desesperada de manter a privacidade intacta. Essas sensações de vulnerabilidade e de estar sendo vigiado a todo hora por alguém que não se pode ver geram toda a tensão do episódio.

A tecnologia, tema essencial de Black Mirror, assume aqui um papel coadjuvante, mero instrumento para aqueles que realmente praticam o sórdido e depravado. Numa análise mais profunda, em todos os episódios da série é visível que a culpa nunca foi inteiramente da tecnologia exacerbada, mas sim quem a usa ou se torna vítima dela. Em Shut Up And Dance, porém, a ideia se torna mais concreta: é um homem quem hackeia e chantageia Kenny, o desenvolvimento tecnológico só tornou isso possível.

Shut Up And Dance parece nos dizer que cada indivíduo é muito mais do que um ato, e que a sua moral é complexa, não pode ser definida apenas por uma ação. E principalmente que pessoas supostamente boas cometem ações horrendas ou, pelo contrário talvez, pessoas moralmente horrendas podem cometer boas ações.

Ainda tem a imprevisibilidade, as atuações e o caráter contemporâneo que trata de problemas atuais. Tudo apresentado de maneira competente, o que faz desse episódio o grande trunfo da terceira temporada.

SAN JUNIPERO

Finalmente um episódio otimista! Trabalha novamente com o dualismo aparência/realidade, mas através de uma ótica positiva, e com um clima bem leve. Diferentemente de Playtest, as mudanças e diferenças desse episódio em relação à antologia não incomodam nem parecem estranhas se colocadas com o resto da série. Não cai na indiferença porque também apresenta elementos originais e interessantes que conseguem criar uma atmosfera misteriosa, nos deixando no escuro. Embora falte a crítica ou discussão presente em quase todos os capítulos, San Junipero, com um tom mais descompromissado, sutil e estiloso, agrada sem ser desnecessário.

MEN AGAINST FIRE

Uma das coisas mais impressionantes de Black Mirror é a capacidade que a série tem de buscar discussões válidas e ao mesmo tempo apresentá-las de uma maneira não panfletária ou genérica. Men Against Fire também encontra um tema forte e importantíssimo, mas o apresenta de uma maneira boba. Arrisco dizer que o erro está no ato final, enquanto que os primeiros quarenta minutos conseguem levantar uma boa série de questionamentos sem desprezar o entretenimento ou a estética. A necessidade de causar impacto através de algum tipo de revelação chocante (que pode ser bem trabalhado, como vimos em The National Anthem ou White Christimas ) compromete toda a obra, ainda mais quando esse sentimento não é alcançado (The Waldo Moment também peca nesse quesito). O clima e todo o ambiente parecem forçados e surreais. Novamente, o tema de crítica e discussão retratado em Men Against Fire é relevante, mas a forma como nos é mostrado despista a parte artística de Black Mirror.

HATED IN THE NATION

Hated in The Nation é uma incógnita para mim. Não gostei, mas também não odiei. Apenas sou indiferente. Acho que ele não faria falta alguma para a terceira temporada, mesmo com os seus sessenta e poucos minutos de duração. Mais uma vez, a crítica e o retrato de como a exposição pela internet faz com que cada pessoa com um computador se encontre no direito de ser juiz e avaliador de todos são o corpo do episódio. A partir desse enredo, Hated in the Nation se torna uma espécie de trama detetivesca, o que confere a parte de entretenimento que foge à pura palestra. O desenrolar lento e muito previsível é o que me incomoda: Black Mirror tem bons exemplos de como uma obra pode se tornar interessante quando o ambiente e atmosfera são trabalhados com paciência e com uma lentidão fundamental e não necessariamente tediosa, mas esse último episódio é bem arrastado. Não mostra nada de muito novo ao optar pela cultura de investigação e, no que diz respeito à tecnologia e seus perigos, a própria série já apresentou esses mesmos pontos trabalhados nesse episódio de uma maneira muito mais elegante e precisa.

O veredito é que a terceira temporada faz jus às duas anteriores. Apostou na inovação e não caiu na repetição de apresentar sempre a mesma coisa, sabendo manter o que faz de Black Mirror uma série tão instigante sem se tornar clichê. Em suma, há conteúdo suficiente para apostas novas sem comprometer a essência e, ao passo que nos dá episódios medianos como Playtest ou Men Against Fire, brinda a todos os fãs com Shut Up and Dance, Nosedive e San Junipero. As críticas e debates continuam afiadíssimos e certeiros, se tornando cada vez mais atuais e fazem com que o reflexo do espelho atinja uma maior gama de pessoas. Sem dúvida alguma, é certo que Black Mirror ainda tem muito para contribuir com sua crítica ao desenvolvimento descontrolado da tecnologia.