A série O Homem do Castelo Alto: 10 pontos de divergência em relação ao livro

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
07/12/2016

A série O Homem do Castelo Alto, produzida pela Amazon, adapta o romance homônimo de Philip K. Dick, uma distopia de História alternativa que explora uma linha do tempo em que o Eixo (a coalizão formada por Alemanha, Japão e Itália) venceu a Segunda Guerra Mundial.

Se deseja ler antes nossa resenha do livro, clique no link abaixo:

> O Homem do Castelo Alto: Philip K. Dick e a realidade alternativa

Bem, voltando à série: a primeira temporada segue fios condutores aparentemente semelhantes aos do romance, mas o desenvolvimento das tramas acaba sendo bem diferente. Para pior. Confira os principais pontos de divergência:

1. UMA POPULAÇÃO MAIS MONOLÍTICA

Tomemos, por exemplo, o caso dos Estados Americanos do Pacífico (EAP), região controlada pelos japoneses, onde se passa a maior parte da ação.

No livro, PKD constrói uma teia social mais complexa, explicando a existência dos pinocs, a casta de burocratas americanos a serviço de Tóquio, em oposição a uma maioria de cidadãos de segunda classe, que se divide entre o ressentimento e a absorção da cultura nipônica.

Já na série, a população dominada parece muito mais monolítica, embora haja, claro, ligeiras divergências quanto à aceitação ou não dos colonizadores, como o caso da família da protagonista, Juliana (Alexa Davalos), em que ela própria é uma entusiasmada aprendiz de aikido e consumidora de chás orientais, ao passo que sua mãe odeia os invasores (devido à morte do primeiro marido na guerra) e seu padrasto esconde de todos o fato de que trabalha para o governo.

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2. TROCAS CULTURAIS

Outro ponto em que prefiro a solução do livro à da série é no que diz respeito à assimilação cultural mútua: no romance, um dos pontos centrais é a falsificação de itens históricos da cultura americana (revólveres, embalagens, pôsteres, objetos de uso corriqueiro, utensílios etc) para consumo de cidadãos japoneses interessados em absorver a historicidade dos Estados Unidos. Os conquistadores querem ter, na estante de casa, um pedacinho da alma do povo que conquistaram (ainda que não saibam que muitos desses pedacinhos são falsificações).

A série explora muito menos essa questão. Se o livro tem como mote principal aquilo que o amigo Carlos André Moreira definiu como um contexto em que “ocupados tentam emular os ocupantes – e em que os ocupantes desenvolvem um fetiche pela cultura dos ocupados”, na série esse elemento central é muitíssimo desidratado. A falsificação de objetos até está lá, mas não é bem explicada e não tem importância no contexto da série.

3. CADÊ O I-CHING?

Ao mesmo tempo em que os conquistadores querem absorver a historicidade dos americanos, o povo conquistado toma para si, no romance de PKD, elementos da cultura do Japão, em especial a obsessão pelo I-Ching (este uma criação chinesa da qual os próprios japoneses se apropriaram antes de levá-lo à América), o livro-oráculo que guia diversos personagens em suas decisões e soluções para lidar com o mundo.

No caso do I-Ching (que, como dissemos, era o oráculo que iluminava diversas personagens, entre japoneses e americanos), a série mostra apenas uma pessoa consultando seus aforismos: o ministro do Comércio, Nobusuke Tagomi (vivido por Cary-Hiroyuki Tagawa) – e, pior, o burocrata é tratado como um ponto fora da curva, um velho supersticioso demais até para os japoneses. Assim, a série reduz a crença no Livro das Mutações a uma mania de  velho louco. Philip K. Dick teria um infarto ao ver isso, se vivo estivesse.

4. UM REICH TECNOLÓGICO, PERO NO MUCHO

Um outro ponto em que a série seguiu numa linha diferente do livro foi no domínio da tecnologia pela Alemanha. No romance, cuja história se passa no início da década de 1960, os alemães já chegaram a Marte e Vênus, drenaram o Mar Mediterrâneo para aumentar as terras aráveis, seus foguetes de passageiros levam menos de uma hora para viajar da Europa a San Francisco. Já na série, o tal foguete leva horas de Nova York à California – ou seja, é mais ou menos um Concorde germânico, o que não dá nem de longe a ideia de salto tecnológico que PKD quis ilustrar. A exploração do espaço pelos alemães e as experiências de engenharia também são pouco abordadas.

5. UM SISTEMA NAZISTA MAIS ORDEIRO

Também na questão da estrutura caótica da burocracia nazista a adaptação da Amazon meteu os pés pelas mãos. O sistema nazista não era tão ordenado quanto aparece na série. Na vida real e no livro de PKD, organizações rivais competiam entre si para cumprir os planos do Führer. Isso é evidenciado, no livro, na rivalidade (e inimizade) entre o embaixador do Reich nos EAP e o chefe da polícia nazista em San Francisco. Ou na agenda própria da Abwehr, a organização de inteligência de que faz parte o agente Baynes/Wegener. Na série, os burocratas nazistas sediados em San Francisco parecem cooperar numa boa, sem qualquer rivalidade, e a Abwehr de Baynes/Wegener (interpretado por Carsten Norgaard) nem sequer é citada. Todos os agentes do Reich parecem pertencer à mesma SS.

6. UM JAPÃO “NAZIFICADO”

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A rivalidade entre agentes do governo aparece, contrariando o livro, entre os japoneses. Na série, o Inspetor Kido (Joel de la Fuente), do Kempeitai, exerce a função que no romance cabe apenas a alemães, e rivaliza com o ministro Tagomi na condução dos negócios do Império

Esse não é o único ponto em que a série “nazifica” os japoneses. O Kempeitai da série persegue judeus com sofreguidão (e inclusive os mata usando câmaras de gás), enquanto no livro o império era muito mais tolerante, e o máximo que fazia era entregar judeus renegados ao Reich, quando convinha a seus interesses.

O judeu Frank Frink (Rupert Evans) sente na pele o fervor antissemita dos japoneses da série. Namorado de Juliana, ele tem a vida destruída ao cair na rede do Kempeitai.

A própria função de Frink na adaptação da Amazon é bem diferente da do livro. Na obra de PKD, o judeu personifica, assim como o comerciante Robert Childan (nas telas, Brennan Brown), a já citada falsificação de objetos típicos americanos. Já na série, Frink aparece muito mais como agente da Resistência (função que assumiu a contragosto, para proteger Juliana) e para evidenciar a força da repressão no totalitarismo japonês.

7. ENFIM, O REICH

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Prosit!

A ação do livro se passa quase só nos EAP e nos Estados das Montanhas Rochosas, uma Zona Neutra entre o Pacífico e o Atlântico. O Reich americano, que se estende da Costa Leste ao Meio-Oeste, é apenas citado.

Na série, boa parte da ação se passa lá. É de lá que o Obergruppenführer (a segunda patente mais alta da SS) John Smith (Rufus Sewell) comanda a teia de repressão e manutenção da ordem do Reich.

Ao acompanharmos o modus operandi do implacável comandante, podemos ter uma boa noção da psique nazista: capaz de ordenar que um prisioneiro seja torturado até a morte e de matar pessoalmente sem pestanejar, Smith aparece, nos momentos de intimidade, como um pai dedicado, um vizinho cordial e um anfitrião agradabilíssimo.

(O núcleo do Reich americano é um dos pontos positivos da série. O outro ponto positivo é a bela e cuidadosa construção de época.)

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8. UM JOE BEM DIFERENTE

Uma das funções do Obergruppenführer John Smith é combater a Resistência, e ele se envolve pessoalmente na missão ultrassecreta de Joe Blake (Luke Kleintank), um agente que se infiltra numa célula rebelde em Cannon City (nos Estados das Montanhas Rochosas) disfarçado de caminhoneiro e acaba se envolvendo com Juliana.

A personagem Joe também existe no livro, mas aparece com funções e modo de ser diferente: no romance, ele é um agente nazista que assume uma personalidade falsa, a de Joe Cinnadella, um ex-combatente italiano que dirige um caminhão e se torna amante de Juliana enquanto planeja usá-la para localizar e matar “O Homem do Castelo Alto” (falaremos dele a seguir).

Já na série temos um Joe mais relutante, mais humanizado e com uma relação meramente platônica com Juliana (no livro, a californiana está separada de Frink, enquanto na série os dois continuam juntos e ela não chega a ter um affair com Joe).

Com sentimentos ambíguos em relação a Juliana, à Resistência e ao Reich, Joe acaba ajudando os rebeldes e fugindo para o México com a ajuda de Juliana (no livro, ele é morto por ela).

9. A SUCESSÃO NO COMANDO DO REICH

heydrich-man-in-high-castleNo livro, a disputa de figurões nazistas pelo comando do Reich tem um papel central, e o risco de um ataque nuclear da Alemanha contra o Japão, caso o pretendente errado acabe no topo da hierarquia, preocupa os japoneses e até setores da burocracia nazista. A sucessão se abre com a morte do chanceler Martin Bormann, e Hitler já é passado.

Já na série, isso não é abordado, pelo menos não na primeira temporada. Hitler continua ativo e no comando e não há um tabuleiro declarado de sucessão. No final da temporada, Reinhard Heydrich (Ray Proscia) entra em cena com uma tentativa de golpe, que acaba sufocada graças à astúcia do Führer.

10. METALINGUAGEM E O HOMEM DO CASTELO ALTO

Um dos eixos centrais de O Homem do Castelo Alto é a metalinguagem. No romance, há um livro dentro do livro, representando uma história alternativa dentro de uma história alternativa: The Grasshopper Lies Heavy, obra de ficção que mostra um mundo em que os Aliados derrotaram o Eixo na Segunda Guerra Mundial. A obra, proibida no Reich e tolerada no Japão, foi escrita por Hawthorne Abendsen, um homem enigmático conhecido como “O Homem do Castelo Alto”.

É desta concha dentro de uma concha que PKD se usa para abordar sua tão recorrente pergunta pela natureza da realidade: quem vive numa ficção, nós ou as personagens do seu livro? O questionamento se mistura à busca dos orientais pela alma das coisas e pela verdadeira historicidade. Belo e intrigante.

A série também aposta na metalinguagem, mas de um modo muito mais atabalhoado. Também existe na história uma obra chamada The Grasshopper Lies Heavy, mas em forma de FILME. Rolos de filme que mostram a vitória dos Aliados e que vão além, parecendo até prever o futuro de personagens particulares.

Os filmes, que na série são proibidos também nos territórios japoneses, vêm não se sabe de onde e são levados pela Resistência não se sabe para onde (aliás, parece que toda a atividade da Resistência consiste em contrabandear esses filmes).

Esses filmes parecem ser feitos, a julgar por uma cena mal explicada, com informações de escutas obtidas numa sala do prédio da administração japonesa. De onde vêm essas escutas? Em que realidade elas se originam? Nem vamos falar na dificuldade técnica de se fazer, na década de 1960, filmes tão ambiciosos, ainda mais em segredo.

Só no season finale descobrimos para onde os filmes contrabandeados pela Resistência são levados: para o quartel-general do próprio Hitler. Um castelo no alto de uma montanha nos Alpes.

Hitler encomenda os filmes. Hitler assiste às obras. Ele, que mora num castelo alto. Na série, a julgar pela primeira temporada, Hitler é O Homem do Castelo Alto.

Deturparam absurdamente a obra de Philip K. Dick.

Esperamos que a segunda temporada endireite um pouco as coisas.