The Handmaid’s Tale: diferenças entre série e livro (e qual obra leva a melhor)

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
18/06/2019

[Este post aborda o livro e as duas primeiras temporadas da série, com leves spoilers sobre ambas as obras]

A série The Handmaid’s Tale, inspirada no homônimo livro O Conto da Aia, da escritora canadense Margaret Atwood, tornou-se, pela força da narrativa e dos conceitos abordados,  e também pelo visual icônico, uma das mais influentes ficções distópicas dos últimos anos.

O livro e a série são, como não poderia deixar de ser, obras diferentes, cada qual com suas especificidades, próprias do formato e da plataforma em que foram veiculadas. Tenho uma predileção pela obra literária, mas a série acrescentou elementos interessantes ao universo criado por Atwood.

Apresento, aqui, algumas das diferenças fundamentais entre o livro e a série, assinalando qual das escolhas me parece mais vantajosa (claro que isso é uma opinião baseada no meu gosto pessoal e outros leitores/espectadores podem ter visões diferentes) em cada tópico.

Ponto para o livro: uma opressão que não tem nome


Em O Conto da Aia, o livro, a narração da crônica de Gilead é envolta em anonimato e mistério. Offred, a narradora, explica já no início que, no mundo de antes, ela tinha outro nome, mas este “foi proibido”.

A força dessas palavras!

Acompanhamos o drama da protagonista e das pessoas a sua volta sem sabermos os seus nomes verdadeiros, com raras exceções entre as personagens de destaque – como Nick e Moira, além de coadjuvantes como as Marthas da casa, as Tias (cujos nomes podem ser codinomes, o que é aventado pela narradora), Janine e Luke (embora este último apareça apenas em flashbacks e a própria Offred não saiba se ele está vivo ou morto).

Já na série, Offred revela ao espectador, no final do primeiro episódio, que se chama June  (no livro, este nome é citado, numa reminiscência em que a narradora conta como as futuras Aias se comunicavam no ginásio em que foram treinadas, mas “June” aparece entre outros nomes soltos e nada no trecho indica que este é o nome de Offred). E esse nome, apesar de ser “proibido”, meio que cai na boca do povo. O que, no livro de Atwood, tem uma função de aniquilação total do eu de Offred, de tabu, na contrapartida televisiva acaba virando uma informação quase trivial em alguns episódios, perdendo muito da carga opressiva.

Não é apenas Offred que não tem nome no livro, mas também as outras figuras-chave do seu pequeno mundo: as outras Aias, o Comandante (sabemos que ele se chama Fred – provavelmente Frederick – devido à designação “Of Fred” da protagonista, mas na narração ele é apenas “O Comandante”) e, principalmente, “A Esposa do Comandante”.

Quando chega à casa do Comandante para assumir seu posto de Aia, Offred percebe que conhece a Esposa, de vista, do mundo pré-Gilead. Ela é (ou era) Serena Joy, uma celebridade da TV, militante conservadora antes engajada na luta para que as mulheres deixassem seus empregos e encontrassem a felicidade como donas de casa.

Mas a Esposa do livro parece nem sequer suspeitar de que sua Aia sabe seu verdadeiro nome. Aliás, ela proíbe que Offred use qualquer tipo de vocativo ao dirigir-lhe a palavra:

“Sim, senhora, respondi.
Não me chame de senhora, disse ela com irritação. Você não é uma Martha.

Não perguntei de que eu deveria chamá-la, porque podia ver que ela esperava que eu nunca tivesse oportunidade de chamá-la de coisa nenhuma.”

Na série The Handmaid’s Tale, essa atmosfera opressiva é quebrada (ou, no mínimo, atenuada) e June/Offred sente-se livre para chamar a Esposa do Comandante de uma profusão de nomes. Chama-a abertamente de Serena (o que, no livro, seria um sacrilégio impensável), principalmente quando quer afrontá-la ou despertar empatia, às vezes de Senhora, às vezes de Senhora Waterford.

Os sobrenomes dos Comandantes, aliás, também são usados com sofreguidão na série, o que não acontece no romance de Atwood. No livro, sabemos apenas que o Comandante da casa de Offred é um dos mais importantes de Gilead e que seu primeiro nome é Fred, mas seu sobrenome jamais é sugerido no relato da Aia-narradora (embora o epílogo faça uma especulação). Já na adaptação para a TV, todos parecem saber o sobrenome de todos e até Nick, o Guardião-motorista, tem um para ostentar.

Como os roteiristas da série optaram por um viés narrativo mais aberto e “onisciente” que o do livro (no modelo de narrativa escolhido por Atwood, é muito mais fácil manter os nomes enclausurados), até se justifica o uso dos nomes próprios, mas prefiro a solução da autora para essa questão, pois conserva a ideia de mistério e desinformação, fundamental para a construção daquele contexto.

PONTO PARA A SÉRIE: PLURALIDADE DE VISÕES DO PASSADO

Margaret Atwood é uma contadora de histórias muito competente e, em O Conto da Aia, nos fala sobre a ascensão de Gilead e a completa transformação da sociedade norte-americana com flashbacks muito bem inseridos na narrativa. Acompanhamos o fluxo de consciência de Offred e suas idas e vindas no tempo nos dão pistas sutis sobre a gênese do Estado totalitário.

O mesmo se repete na série, com a diferença de que, na telinha, as peças do quebra-cabeças também enfocam as reminiscências de outras personagens, o que enriquece a narrativa. Uma visita às memórias de Serena Joy, de Emily, de Moira ou de Nick nos permite ver a ascensão de Gilead com outros olhos, ouvir uma história contada por outras vozes.

PONTO PARA O LIVRO: O OLHO D’ELE ENXERGA TUDO MESMO

Um regime opressor que oblitera qualquer traço de individualidade e de liberdade, um Estado policial que tem na delação e na hiper vigilância dimensões fundamentais do seu funcionamento. Assim é a Gilead do livro O Conto da Aia, e por isso os “Olhos”, espiões do governo, são tão temidos. Pelo seu poder e pelo caráter incógnito dos agentes. Em Gilead, qualquer um pode ser um Olho – o que dá um tom assustador à narrativa do livro, pois cada contato humano da protagonista é um salto no escuro, uma dança com o perigo, um flerte com os ganchos em que são pendurados, no Muro, os cadáveres dos inimigos do regime.

A série, por sua vez, entrega já no início que Nick, o jovem motorista do Comandante Waterford, é um Olho, uma revelação que no romance demora muito para ser feita. Na versão para a TV, Offred descobre a identidade secreta do espião, joga a informação na sua cara numa boa e eu, que tinha lido o livro com a respiração em suspenso com a expectativa de que Olhos secretos denunciassem cada passo da narradora, fico incrédulo com a banalização do segredo.

Não é apenas no envolvimento secreto de Nick e Offred que a adaptação televisiva desidrata o medo da vigilância, mas em diversos outros pontos. As personagens de The Handmaid’s Tale, a série, burlam as leis sagradas de Gilead quase despreocupadamente, amenizando a sufocante atmosfera de medo do livro.

No romance de Atwood, Offred e Ofglen só se descobrem parceiras de Resistência depois de muito tatearem com cautelosas frases de sondagem, ditas aos sussurros, em locais ruidosos, e sempre a conta-gotas, pois o Olho d’Ele está em toda parte e enxerga tudo. Já na série, a vigilância do regime parece muito indolente e falha, e as personagens parecem muito mais à vontade para falar abertamente e transgredir, de diversas maneiras. Aias falam em voz alta sobre o que lhes dá na telha na presença de Guardiões, dão respostas provocadoras para Comandantes, Esposas e Tias e nada lhes acontece; Offred e Nick se abraçam e se beijam em qualquer lugar da casa e até em um hospital, como se fossem um casal apaixonado do mundo de antes… Ao retratar personagens tão despreocupadas com a vigilância do regime, a série, na minha opinião, desidratou um componente fundamental da distopia de Atwood.

PONTO PARA A SÉRIE: MULHERES TRANSGRESSORAS

Este tópico, à primeira vista, poderia indicar uma contradição em relação ao que acabo de dizer no ponto anterior: que a série peca ao exibir pessoas transgredindo despreocupadamente. Porém, o que critiquei antes não foi o fato de transgredirem, mas sim a falta de cuidado e de medo de serem apanhadas na transgressão.

O livro O Conto da Aia apresenta uma divisão das mulheres (e dos homens) de Gilead em castas estanques e especializadas, o que também aparece na série, mas explicado de maneira menos explícita.

As mulheres podem ser:

Esposas: ocupam o topo da hierarquia feminina e, em tese, “mandam na casa”, embora sejam submissas aos maridos e não possam fazer, em termos de trabalho, nada além de pequenos hobbies domésticos.

Tias: Misto de “freiras”, professoras e gerentes, são as encarregadas da formação e supervisão do trabalho das Aias.

Aias: num contexto de aumento vertiginoso do número de pessoas estéreis (por circunstâncias não explicadas), mulheres férteis do universo de Gilead são escravas sexuais pertencentes ao Estado, que, uma vez por mês, são obrigadas a copular com os Comandantes, sob os auspícios das Esposas, para servir como “barrigas de aluguel”.

Marthas: empregadas domésticas.

Econoesposas: Esposas de homens das classes baixas.

Jezebels: Prostitutas de bordéis de luxo frequentados por comandantes e emissários estrangeiros.

Não-mulheres: Quaisquer mulheres que, por qualquer razão decidida pelo Estado, sejam condenadas ao trabalho escravo de limpeza do solo nas “Colônias” (zonas de Gilead com contaminação radioativa).

Reduzidas a caricaturas das suas funções práticas, as mulheres de Gilead são estimuladas a cultivarem uma certa rivalidade entre si. Uma alegoria de Atwood para algo que acontece, em maior ou menor grau, em sociedades estruturalmente machistas do mundo real.

No livro, essa divisão em castas estanques funciona de modo mais rígido que na série. Vemos “sororidade” quase só entre mulheres de uma mesma casta, e ainda assim em doses homeopáticas. No livro, Rita, que trabalha como Martha na casa em que mora Offred, trata a Aia com franca hostilidade, ao passo que Cora, a outra Martha, é mais gentil para com a protagonista. A série unificou essas Marthas em uma única personagem, chamada Rita, e ela começa hostil como a sua homônima literária, mas aos poucos se rende ao seu lado Cora e torna-se uma confiável e valorosa (embora um pouco relutante) parceira de Offred.

Outros exemplos de cooperação e parceria entre mulheres aparecem, na série, no trabalho em conjunto de Offred e Serena em mais de uma ocasião, no companheirismo de Rita para com Offred e Nick, nos conselhos que Offred dá a Eden (personagem que não existe no livro), na sororidade vivenciada nas Colônias (um plot que também não aparece no livro e é um interessante acréscimo da série), na grande amizade e solidariedade entre as Aias e até mesmo em ligeiros momentos de humanidade de Tia Lydia.

A rebeldia e o inconformismo de Serena Joy, retratada na série como uma mulher brilhante tolhida por um sistema machista que ela ajudou a construir mas que não reconhece seu esforço, é um dos principais pontos em que a transgressão feminina da adaptação televisiva leva vantagem sobre o desenvolvimento do livro. A série é menos maniqueísta que o livro ao tratar de Serena – e a personagem, que na TV dá mais demonstrações de bondade que no romance de Atwood, é deliciosamente contraditória e cheia de nuances.

Também é digno de muitas notas o empenho das Aias, em especial do trio mais em evidência – Offred, Emily e Janine -, para “não deixar que os bastardos as derrubem”. Se no livro e na série o movimento secreto de resistência conhecido como “Mayday” tem ramificações em diversos estratos da sociedade gileadiana, é todo da série o mérito de transformar a própria irmandade das Aias numa organização anti-regime em si. Numa das belas frases inseridas no roteiro da série, a narradora nos diz:

“Se não queriam que formássemos um exército, não deviam ter nos dado uniformes”.

AINDA EM ABERTO: O PAPEL DE LUKE

No livro O Conto da Aia, Luke, o marido de Offred no mundo de antes, só existe nas suas reminiscências e sua sobrevivência após a instauração do regime é uma questão em aberto. Nem a narradora nem o leitor do seu relato sabem se ele teve sucesso na tentativa de fuga.

Já na série, não apenas nós, espectadores, descobrimos que Luke conseguiu cruzar a fronteira com o Canadá**, mas também Offred fica sabendo disso. Esse plot, a meu ver, ainda não foi bem desenvolvido pela série (pelo menos nas duas primeiras temporadas, de que trata esse post), pois, como personagem ativo, Luke “ainda não disse a que veio” – tanto no seu dia a dia no Canadá quanto na sua relação com a esposa, que parece decidida a viver o amor com Nick mas ainda não fechou questão sobre o seu companheiro do mundo de antes. Aguardemos.

** O Canadá, aliás, é outro interessante acréscimo da série ao universo de Gilead, com função semelhante à do epílogo “acadêmico” do livro: o de fornecer um componente de estranhamento para contrastar a crônica de Gilead com um contexto mais próximo do do leitor/espectador.