Star Wars: o universo e o cânon

Jefferson Nunes
Por Jefferson Nunes
25/01/2017

Desde que George Lucas lançou Uma Nova Esperança, em 1977  (aliás, desde antes disso, pois o livro Star Wars: From the Adventures of Luke Skywalker foi publicado em 1976), ficou claro para o autor que o universo de Star Wars poderia se expandir infinitamente por meio de histórias paralelas. Partindo das HQs da Marvel da série A Long Time Ago (lançadas primeiramente para divulgar os filmes) e pelo livro Splinter of Mind’s Eye, de Alan Dean Foster (que já tinha sido ghostwriter do romance oficial de Uma Nova Esperança), iniciou-se a construção de uma ampla gama de narrativas de todos os tipos, que buscaram (e ainda buscam) expandir os elementos mostrados nos filmes.

Todo um universo de histórias paralelas se desenvolveu, seja pelas mãos de grandes escritores, seja por fãs criativos, que, através de HQs, livros, jogos eletrônicos, jogos de RPG etc., seguem trazendo novos elementos para a galáxia da franquia, constituindo o que se convencionou chamar de Universo Expandido, ou UE.

Como declarou Lucas, no prefácio da edição de 1996 de Splinter of Mind’s Eye:

“Depois que Star Wars foi lançado, ficou aparente que minha história—não importa quantos filmes levaria para ser contada—era apenas uma de milhares que podiam ser contadas sobre os personagens que habitam sua galáxia. Mas essas não eram histórias que eu estava destinado a contar. Ao invés disso, elas viriam da imaginação de outros escritores, inspirados pelo vislumbre de uma galáxia que Star Wars provia. Hoje, é um maravilhoso, e inesperado, legado de Star Wars que tantos escritores talentosos estão contribuindo novas histórias para a Saga”.

TÁ, MAS QUAL É A ORDEM E O QUE VALE NESSE UNIVERSO?

O problema foi que, dentre essa vasta quantidade de material, nunca houve real preocupação dos criadores com ordem ou cronologia mais amplas das histórias, e algumas podem até ser conflitantes umas com as outras, mesmo que por muito tempo a LucasFilm tenha trabalhado para cortar excessos e ajudar a dar ordem ao UE. Assim, muitos fãs criaram seus próprios cânones do Universo Expandido, embora alguns pontos comuns, como a Trilogia Thrawn, de Timothy Zahn, e muitas HQs, sejam consideradas pelos fãs como canônicas, e qualquer história que traga elementos conflitantes com as criações de Lucas não seja considerada oficial.

A compra da LucasFilm pela Disney, em 2012, trouxe um novo direcionamento para o UE, e os novos donos da criação de Lucas se apressaram em definir regras para todas as histórias de Star Wars já lançadas e as que ainda estavam e estão por lançar. A Disney elaborou um cânon oficial, composto pelos filmes, a série animada The Clone Wars, além de uma série de livros e HQs que começaram a ser lançados para fechar as lacunas da história e explicar o que ocorreu entre O Retorno de Jedi e O Despertar da Força.

Então, todo o vasto material que faz parte do Universo Expandido e todo o que ainda virá a ser lançado, e que não atenda aos parâmetros de cânon da Disney, recebe a titulação Legends, que define que essas histórias são apenas lendas de Star Wars, podendo ou não ter acontecido, mas que não fazem parte da linha temporal oficial.

Assim, grandes histórias do UE, como a Trilogia Thrawn, as HQs Império Negro, Império Vermelho, Legado, Cavaleiros da Antiga República, Tempos Sombrios, diversos jogos eletrônicos e tantas outras histórias fantásticas, não fazem mais parte da linha temporal oficial. Na prática, o que a Disney fez foi o equivalente a dizer: “Agora, nós somos os donos da bola e os deuses desse universo e tudo que escreveram antes não vale mais como verdade. Se quiserem ler as histórias verdadeiras, comprem o nosso material.”

Os executivos, porém, não chegaram aonde chegaram por rasgarem dinheiro e, em vez de simplesmente jogarem no lixo uma quantidade tão grande e rica de material (mesmo que não o considerem mais canônico), voltaram essa renda para os próprios cofres com a criação do selo Legends, o que, aliado ao hype dos novos filmes, levou ao relançamento dessas obras, além do novo material canônico, e que está rendendo lucros muito expressivos para a empresa.

Isso quer dizer que as histórias que a Disney tirou do cânon deixaram de valer? As personagens, definições e situações já clássicas do Universo Expandido nunca existiram no universo de Star Wars? Isso nos remete a um debate sobre o que, diabos, é um cânon.

TODO CÂNON É UMA AFIRMAÇÃO DE PODER

Volta e meia, num debate online ou presencial sobre Star Wars, um gaiato tenta refutar o interlocutor torcendo o nariz e dizendo:

— Ain, isso não faz mais parte do cânon…

(com isso, o sujeito quer dizer que uma determinada informação que consta em uma obra anterior à chegada da Disney “não vale” e não pode mais ser citada)

Meus amigos, o que tenho pra dizer? Um cânon não é uma verdade universal nem um texto sagrado nem um paradigma imutável. Não é pecado questionar um cânon. A prova disso é que a própria Disney, ao comprar a saga, pegou o que antes era cânon e disse: “Agora isso não é mais verdade, não vale mais”.

Um cânon é sempre uma afirmação de poder; é uma tentativa institucionalizada de deter o CONTROLE sobre narrativas, regras e costumes que criaram vida própria por conta da multiplicidade de práticas e autorias.

Tomando por exemplo a Bíblia dos cristãos: há uma grande variedade de outros textos escritos pelos judeus e posteriormente pelos seguidores de Jesus Cristo, mas apenas 73 livros são considerados sagrados a ponto de fazer parte da Bíblia dos católicos (e 66 na Bíblia dos protestantes). Quem definiu isso? Por que uma epístola de Paulo é considerada texto sagrado, revelação divina, e um texto apócrifo não? Isso foi uma DECISÃO ARBITRÁRIA dos detentores do poder religioso daquela época.

Vale o mesmo para outros cânones em outras áreas. Um cânon é sempre uma decisão arbitrária de quem detém o poder institucional. No caso de Star Wars, George Lucas dizia o que era cânon e o que não era, depois a Disney. Se amanhã um bilionário russo comprar os direitos sobre Star Wars da Disney, ele pode dizer que o cânon da Disney não vale e o que vale são as histórias escritas pelo sobrinho dele etc.

Por isso, não me prendo muito nessas definições institucionalizadas de “o que é cânon” e “o que não é cânon”. Vejo Star Wars como um universo amplo, repleto de personagens ricos e de situações instigantes e não é a Disney que decide como vou apreciar as obras e quais delas eu considerarei legítimas.

Star Wars é fonte de inspiração para a criação artística em diversas áreas e há centenas de obras, sejam filmes, livros, HQs, games, ilustrações, que merecem crédito por ajudar a enriquecer ainda mais esse universo. Sejam ou não criadas sob a tutela da Disney.

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Por fim, aqui vai um rápido quadro, mostrando quais das novas obras pertencem ao novo cânon e quais pertencem ao Universo Expandido.

star wars canon cronologia