Série Divergente: como Veronica Roth estragou uma receita de sucesso

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
11/08/2015

PREÂMBULO

Quase tudo que você precisa saber sobre a série Divergente, da jovem escritora Veronica Roth, está resumido na página 140 de Convergente, o terceiro livro, em uma epifania do personagem Quatro:

“- Você está bem? – pergunto.
– Estou – ele se senta no parapeito da janela, encarando-me, e nossos olhos ficam na mesma altura. – Quer dizer, na verdade, não. Não consigo parar de pensar na falta de sentido de tudo aquilo. Digo, do sistema de facções.”

Deveras.

UMA RECEITA QUE DESANDOU
capa-divergenteA linha de produção de enlatados da indústria cultural é capaz de criar receitas de sucesso comercial praticamente infalíveis. Seus engenheiros não brincam em serviço e fazem uma operação quase matemática de adição de ingredientes sintéticos se passar por arte genuína.

Com o uso dos ingredientes certos, seus operários, digo, escritores conseguem criar franquias altamente rentáveis. Uma dessas receitas é a da saga adolescente de fantasia ou de sci-fi distópica. Uma simples ida à livraria nos permite ver, nas vitrines e nas estantes de mais vendidos, que o gênero é uma das principais apostas comerciais das editoras atualmente.

A eficácia dessa receita específica é tão garantida que uma saga pode se tornar um sucesso de vendas mesmo que erros grotescos sejam cometidos durante o preparo. Tomemos o exemplo da série Divergente. Os ingredientes básicos de sucesso estão lá: um futuro pós-apocalíptico, uma heroína adolescente, grupos sociais por afinidade, ritos de iniciação e, claro, uma guerra total em que essa heroína adolescente e os seus amigos adolescentes terão protagonismo, expondo ao mundo a verdade e libertando os oprimidos. Há franquias infanto-juvenis que misturam esses elementos com graça e leveza, gerando um produto cultural ainda enlatado, mas delicioso. Não é o caso de Divergente, uma receita que desandou e deixa um gosto estranho na boca, em parte, por ter ingredientes demais – e ingredientes que não combinam uns com os outros, pra piorar. Não que isso impeça a venda de milhares e milhares de exemplares e a adaptação dos livros para o cinema.

Quando expus essas inquietações a um amigo, ele deu de ombros e disse: “Bom, é um livro para adolescentes”. Isso não é desculpa. Primeiro, porque “adolescente” não é sinônimo de “pessoa mentalmente incapaz e/ou indigna de uma história coerente”. Segundo, porque há várias outras sagas adolescentes que, ao contrário desta, são consistentes e bem amarradas.

Bem, vamos à análise.

UM UNIVERSO QUE NÃO SE SUSTENTA

A história se passa numa cidade sem nome, num futuro sombrio. Pelos nomes das ruas e dos prédios, ficamos sabendo, já no início, que se trata de uma Chicago destruída pela guerra. O Lago Michigan está seco e uma cerca mantém todos (ou quase todos) confinados dentro dos limites da cidade. Sabemos que há algo no lado de fora, mas não é dito o quê, para gerar no leitor uma sensação de apreensão permanente e prender sua atenção por centenas de páginas. Além disso, os portões estão fechados POR FORA – uma revelação assombrosa que é feita muito cedo e depois é deixada de lado pela autora até o terceiro livro (como é que os personagens conseguem dormir sabendo disso, é algo que não entendo).

Nesta cidade, a população é dividida em grupos chamados facções, cada um representando uma dimensão da natureza humana: Abnegação, Audácia, Erudição, Franqueza e Amizade. Há, também, os “sem facção”, mendigos que vivem como párias, à margem da sociedade e dependendo de caridade para sobreviver.

As facções vivem, segundo a narração, de modo a desenvolver e realizar plenamente os valores que escolheram, para garantir a paz na cidade e tentar corrigir os erros do passado de violência, e seus modos de vida são propositadamente exagerados e caricaturais. Na Abnegação, as pessoas vestem cinza, tentam evitar tudo que se pareça com narcisismo e egoísmo e são estimuladas a buscar sempre o melhor para o Outro. Na Audácia, os membros vestem preto, ostentam piercings e tatuagens e passam o seu tempo fazendo coisas arriscadas para dar provas de coragem. Os personagens da Erudição vestem azul e usam óculos mesmo que tenham a visão perfeita, e vivem a ler, estudar e pesquisar qualquer assunto. Os membros da franqueza vestem sempre preto e branco, para simbolizar a oposição maniqueísta entre a verdade e a mentira, e costumam dizer tudo que pensam, sem dissimulações. Na Amizade, as pessoas se vestem de cores berrantes, como amarelo e vermelho, e são encorajadas a cultivar a confiança e a interação social.

A dinâmica das facções regula também a divisão social de trabalho, e aqui surge a primeira inconsistência grave da receita de Veronica:

> Os membros da Abnegação, por repudiarem o egoísmo e cultivarem o altruísmo, se ocupam da administração da cidade.

> Os membros da Audácia, que exaltam a coragem, cuidam da segurança.

> Os membros da Erudição, que valorizam a curiosidade e o estudo, dedicam-se à pesquisa, em especial no desenvolvimento de soros que interferem na consciência (falaremos deles mais adiante).

> Os membros da Franqueza, por demonizarem a mentira e a dissimulação, são os encarregados da Justiça.

> Os membros da Amizade, que prezam a empatia e a interação social, são… artistas e fazendeiros (WTF?) e são os únicos a viver fora da cerca (aliás, se uma facção inteira pode viver no lado de fora numa boa, pra que mesmo existe uma cerca?).

Quando tenta criar um universo, um escritor deve se certificar de que esse universo não desmorone depois de construído. Não é o caso da cidade de Divergente. Faltam várias colunas de sustentação.

Por exemplo, a Audácia usa armas, modernas câmeras de vigilância e programas de computador elaborados, mas não fabrica nada. De onde vêm essas armas e a munição utilizada? Apenas sobras da guerra? Quem fabrica e conserta suas câmeras e seus computadores? A Erudição? Não, nada nas descrições do dia a dia dessa facção indica isso. A Erudição está mais para uma comunidade de neurocientistas que para uma corporação de engenheiros.

Outro problema: Veronica foi obrigada a transformar os simpáticos membros da Amizade em agricultores porque, afinal de contas, alguém precisava produzir comida nesta cidade. Mas é claro que suas fazendas não dariam conta de suprir toda a variedade de alimentos consumida pelas facções – por exemplo, a autora introduz, sem qualquer necessidade narrativa, uma idolatria dos membros da Audácia pelo bolo de chocolate produzido nas cozinhas da facção. De onde vêm a farinha, o chocolate e o açúcar do bolo? Cacau é uma fruta dos trópicos e Chicago é uma das cidades mais frias dos Estados Unidos, o que também inviabiliza a produção de cana-de-açúcar. Seria o açúcar do bolo oriundo da beterraba, como em outras regiões temperadas? Ou eles usam mel, ou, ainda, adoçantes sintéticos? Produzidos por quem? Além disso, as fazendas da Amizade não parecem contar com moinhos para produzir farinha (e é inverossímil que uma facção diminuta tivesse mão-de-obra e espaço para produzir, nos subúrbios de Chicago, todos os itens da alimentação da cidade). Igualmente, não há rotas de comércio com regiões produtoras de outros tipos de alimento.

E o papel da Franqueza? Seus membros são citados como sendo os juízes, mas juízes de quem? A dinâmica entre as facções não parece comportar tribunais operados por uma única facção (e, mesmo que comportasse, haveria trabalho na Corte para todos os seus membros?); a impressão que fica é a de que cada facção se encarrega de julgar os seus transgressores – aliás, há inclusive um episódio em que testemunhamos o uso das diretrizes de julgamento e execução de sentença da Audácia.

E o governo da Abnegação? Seus líderes governam com que autoridade e para que fins, se cada facção tem suas próprias leis e atua de acordo com a vontade de seus líderes?

E como é mantida a administração da cidade? Há impostos? Há moeda circulante? Há comércio? Não sabemos e Veronica não nos diz. Lá no terceiro livro, alguém menciona, bem superficialmente, que os sem-facção trabalham em fábricas, mas que fábricas são essas? Produzem o quê? Com que matéria-prima? São administradas por quem? E de onde vêm o combustível e a eletricidade?

Há muitas pontas soltas nas relações socio-político-econômicas da cidade; é um sistema que não tem consistência, falta liga, os elementos apresentados pela autora não dão conta da complexidade e de todas as demandas da vida em sociedade.

SOROS, SOROS, SOROS (HAJA FÍGADO!)

Aos 16 anos, todos os jovens realizam um teste de aptidão que lhes dirá em qual facção se encaixam. Mas não é um direcionamento compulsório; eles têm liberdade para escolher qualquer facção, mesmo uma para a qual não tenham aptidão. Se optarem por se juntar uma facção diferente daquela em que foram criados, eles terão de deixar para sempre suas famílias e participar dos ritos de iniciação do novo grupo. Se falharem nesses ritos, serão condenados a viver para sempre entre os sem-facção, a menos que sua antiga facção os aceite de volta.

capa-insurgenteO teste é feito por meio de uma simulação mental induzida por um soro especial. Os soros são onipresentes na saga e os personagens passam o tempo inteiro se picando com seringas para estimular o cérebro de diversas maneiras. Parece um “Eu, Christiane F.” pós-apocalíptico, só que em vez de heroína as agulhas injetam na corrente sanguínea substâncias criadoras de uma espécie de realidade virtual (não sei se Veronica foi informada, mas há maneiras de se fazer isso sem precisar enfiar uma agulha na pele).

A simulação do teste de aptidão pode ser descrita como uma alucinação interativa. O jovem vivencia a ilusão e não consegue distingui-la da realidade – e, baseado nas suas reações às situações estimuladas, é feito um diagnóstico da sua adequação a uma das facções. A menos que se trate de uma pessoa “divergente”, como a protagonista, Beatrice Prior.

Beatrice, uma menina da Abnegação, descobre, alertada pela mulher da Audácia que aplicou o seu teste, que tem um cérebro resistente às simulações e consegue manipulá-las à vontade. Isso é uma condição muito perigosa e deve ser escondida de todos, pois os divergentes, por alguma razão, não são lá muito bem quistos pelos líderes das facções. Depois descobrimos que um dos passatempos de alguns desses líderes é justamente localizar e assassinar divergentes.

Além de ser imune aos soros, um divergente também costuma ter resultados inconclusivos nos testes de aptidão. O de Beatrice, por exemplo, aponta que ela se encaixa tanto na Abnegação quanto na Audácia e na Erudição. Ela acaba optando pela Audácia, para consternação de seus pais e colegas de facção, que já tinham visto seu irmão, Caleb, escolher juntar-se à Erudição instantes antes.

(Pequena digressão: o modo como a protagonista “digeriu” a escolha de Caleb é outro ingrediente estragado que Veronica usou em sua receita. A opção do rapaz pela Erudição surpreende a todos e principalmente a Beatrice, que considerava o irmão um perfeito altruísta que tinha nascido para a Abnegação. Depois que ele escolhe a sua nova facção, porém, ela não apenas parece esquecer todas as demonstrações de altruísmo de Caleb como passa a lembrar dele como alguém que sempre dera sinais de ter aptidão para a Erudição. A impressão que fica é de que a escritora continuou a história sem reler o que já tinha escrito.)

Além do uso no teste de aptidão, os soros têm diversas outras funções na grossa trama de Divergente. Podem ser usados para induzir uma pessoa a falar apenas a verdade (o soro utilizado pela Franqueza em seus interrogatórios), para manifestar os medos de uma pessoa e dar-lhe a chance de superá-los (parte fundamental do treinamento da Audácia), para deixar toda a galera da Amizade com uma atitude positiva e benevolente perante a vida (seria mesmo bem inverossímil que uma facção inteira vivesse como uma tribo de Ursinhos Carinhosos sem ajuda de drogas), para apagar a memória de alguém, e até para induzir comportamentos pré-determinados e transformar uma pessoa num robô teleguiado.

A escolha de Veronica pelos soros parece não ter função narrativa que não seja demonstrar a força dos personagens divergentes, pois eles são os únicos habitantes de Chicago capazes de resistir às simulações. Mas me parece um grande equívoco da escritora. OK, ela tentou ser original e criar o seu próprio elemento, mas acabou gerando uma geleia conceitual que não faz muito sentido e nem combina com o caráter estritamente realista do romance. Uma sociedade com tecnologia capaz de criar soros que servem ao mesmo tempo para rastrear e manipular tão plenamente a vontade de alguém, às vezes até com efeito de timer, não condiz com um cenário de desolação pós-apocalíptica em que as pessoas se locomovem a pé ou em caminhonetes caindo aos pedaços e nunca ouviram falar de aviões.

Sem contar que: soros não são nada práticos como arma. Parece aquela piada do vírus de computador português que pede que o próprio usuário faça o download e instale o arquivo contaminado em seu PC. Imagine tentar dominar um exército inimigo tendo de inocular os soldados, um a um, com uma seringa. OK, a certa altura da saga vemos dardos de soro disparados por armas – mas também não me parece um recurso muito eficiente, pois desde tempos imemoriais já existe defesa contra isso. Chama-se METAL. Ou até um bom e bem tramado colete de couro ou, sei lá, de saquinhos de areia. Um samurai vestindo sua armadura de bambu seria imune aos dardos de soro.

E nem vou mencionar o impacto que a mistura de tantos líquidos diferentes teria no organismo de uma pessoa. Vou dar a Veronica um voto de confiança e presumir que os seus cientistas resolveram isso e criaram os soros a partir de substâncias completa e facilmente metabolizáveis, livres de efeitos colaterais e danos ao fígado.

QUANDO A COISA DESANDA

spoiler-alerta

O ingresso de personagens adolescentes em estruturas como as facções de Divergente e os ritos de iniciação subsequentes são um consagrado artifício para capturar a atenção do leitor e gerar identificação – tanto no leitor que está experimentando vivências do tipo ou se preparando para isso (crianças, adolescentes e jovens em idade escolar e/ou em vias de entrar na faculdade) quanto em adultos que já passaram por essas etapas da vida.

É justamente por essa razão que a melhor parte da saga Divergente são as primeiras 428 páginas do primeiro livro, que mostram o treinamento de Beatrice na Audácia (a partir do momento em que se junta à nova facção, ela adota o nome Tris). Este é o trecho em que Veronica foi mais competente como contadora de histórias e conseguiu narrar os fatos de modo instigante. As eventuais pontas soltas pareciam perdoáveis porque, afinal de contas, é apenas o primeiro livro de uma trilogia e a expectativa do leitor é de que tudo se resolva e seja explicado mais adiante. SPOILER: isso não acontecerá.

capa-convergenteA iniciação de Tris (criada para ser altruísta e discreta na sua antiga facção) nos valores e no dia a dia da Audácia fornece o componente de estranhamento necessário para que o leitor se identifique e mergulhe com ela no turbilhão de brutalidade e camaradagem da sua nova família. A autora mistura com habilidade os ingredientes fundamentais de uma aventura adolescente: a protagonista encontra um grupo sólido de amigos, bem como antagoniza com um grupo rival, se apaixona pelo instrutor Quatro (depois, descobrimos que seu verdadeiro nome é Tobias) e é correspondida, enfrenta um pesado e doloroso processo de aprendizado e seleção e, claro, chega ao final da iniciação em primeiro lugar, ao mesmo tempo em que se embrenha nas obscuras relações entre as facções, transgride leis e descobre que há algo muito errado com a cidade.

Há algo bem inverossímil aí, que é o fato de Tris, uma adolescente franzina que, provavelmente, nunca tinha matado uma formiga, tornar-se, em poucos meses, uma super lutadora e comandante militar capaz de liderar uma cidade inteira. O mesmo vale para Quatro, que, mesmo sendo apenas dois anos mais velho que ela e sendo oriundo da mesma facção pacifista e abnegada, tem a habilidade de um soldado com muitos anos de caserna e a sabedoria prática de um combatente embrutecido. OK, seria uma história mais coerente se os personagens tivessem mais tempo para cultivar e amadurecer suas técnicas, mas esse é um lapso perdoável pelo direcionamento dos livros a um público adolescente. Se condenarmos Veronica por isso, teremos de condenar com ela todos os demais autores de sagas infanto-juvenis.

O problema é que, depois da página 428, no exato dia em que Tris conclui o treinamento, ela não tem um minuto sequer para desenvolver as recém provadas habilidades trabalhando para a Audácia, pois uma simulação ativada pelo soro inoculado nos membros da facção transforma todos eles (menos os divergentes) em zumbis teleguiados e mergulha Chicago em uma guerra total entre as facções. É aí que a autora perde a mão e o que era um novelo com algumas pontas soltas vira um emaranhado de fios cortados e nós cegos.

Surge a grande vilã, a líder da Erudição, Jeanine Matthews, que planeja

a) eliminar os membros da Abnegação e descobrir um terrível segredo guardado por seus líderes (que seria a chave para descobrir o que diabos há do lado de fora da cerca – além das fazendas e do soro de paz e amor da Amizade)

b) matar todos os cidadãos que sejam divergentes (mas por quê?)

c) governar a cidade inteira, supostamente, como uma tecnocracia.

Seguem-se muitos e muitos capítulos de novas idas e vindas, novos ingredientes sendo adicionados sem que os anteriores tenham sido absorvidos pela massa e, O PIOR DE TUDO, a nova transformação de Tris, desta vez de guerreira destemida em adolescente chorosa que vive a se lamuriar.

E a natureza dos divergentes segue nebulosa. Passamos a conhecer mais alguns deles (Quatro, por exemplo, embora depois isso seja desmentido). Eles resistem aos soros, em tese, por terem uma formação cerebral diferente. Mas o que isso tem a ver com se encaixar em mais de uma facção? E por que o nosso cérebro teria apenas cinco configurações? Além disso, o grande diferencial dos divergentes pode não ser tão extraordinário assim, pois Jeanine consegue desenvolver substâncias que parecem vencer suas resistências. Ou seja, a divergência teria “cura”.

A vilã acaba derrotada, mas surge um novo fator de instabilidade: os sem-facção se organizam e instalam sua própria ditadura na cidade – comandados, vejam só, por Evelyn, a mãe de Quatro. Mundo pequeno. Aliás, os sem-facção concentram o maior número de divergentes entre a população de Chicago, mas este é só mais um dos dados que Veronica joga nas páginas da série sem qualquer função narrativa, pois o fato não serve pra nada e se perde no ralo da guerra pelo poder, que, como veremos mais adiante, não faz diferença nenhuma.

PORNÔ EVANGÉLICO

Outro ingrediente de sucesso dos enlatados culturais é o do romance entre adolescentes. Sabe aquelas histórias em que heroína é uma menina que se diz sem graça e que acaba conquistando o coração do macho-alfa da saga? Bingo.

Assim que Tris se junta à Audácia, Quatro, o instrutor dos iniciandos, torna-se o seu interesse romântico. E, contra as nossas expectativas, não há nenhuma outra menina no páreo e o namoro começa relativamente rápido. É aí que descobrimos que, além da mocinha personificando o arquétipo da donzela, o próprio Quatro, um dos machos dominantes da Audácia, é virgem e está à espera do “momento certo”.

Estabelecido esse limite (“não vai rolar sexo”), Veronica se, ahn, diverte (pra usar um eufemismo) com dezenas de vívidas e detalhadas descrições das eternas preliminares do casal guerreiro. Tris e Quatro passam três livros inteiros se beijando e se apalpando (mas, quase sempre, completamente vestidos e SEMPRE respeitando a fronteira da cintura). Isso NO MEIO DE UMA GUERRA FRATRICIDA. A coisa fica ainda mais grudenta quando a narração é em primeira pessoa, o que é o caso da série Divergente.

VERONICA TIRA O CHÃO DAS PERSONAGENS. EM SEGUIDA, TIRA O CHÃO DO PORÃO

Lembra que a cidade foi dividida em facções para tentar manter a paz, e que nada disso adiantou para evitar a guerra total? Lembra que havia soros para identificar em qual facção as pessoas se encaixavam, e que algumas pessoas, ao mesmo tempo, resistiam aos soros e se encaixavam em várias facções (curiosamente, nunca nas cinco, raramente em três, quase sempre em duas)?

Poizé. Esqueça tudo isso, pois era tudo mentirinha. É como o momento de “Matrix” em que Neo engole a pílula vermelha, acorda num útero artificial com 30 anos na cara e descobre que seu mundo era uma ilusão mental; ou quando, em “Um Drink no Inferno”, a galera do bar tranca as portas, todo mundo vira vampiro e o que parecia um baita filme vira uma carnificina gratuita.

Depois de muitas mortes na guerra civil, o “segredo” que era guardado pelos líderes da Abnegação é revelado: num vídeo, uma mulher afirma ser parte de “uma organização que luta por justiça e paz”, e que a população de Chicago foi confinada para tentar “redescobrir o sentido moral” que a humanidade perdeu e, assim, descobrir “a cura” para a violência. Essa cura estaria próxima quando houvesse na cidade um grande número de divergentes. Aí todos poderiam romper a cerca e voltar ao mundo.

Enquanto Chicago vira uma ditadura comandada por Evelyn, um grupo formado por Tris, Quatro e seus amigos – e também pelo inimigo Peter – segue as instruções do vídeo e atravessa a cerca em busca da misteriosa organização.

Eles não demoram muito a achá-la. Lá, segue a salada conceitual e a adição de novos e estranhos ingredientes à receita. Descobrimos que os Estados Unidos foram parcialmente destruídos pela “Guerra da Pureza”, iniciada depois que o governo começou a interferir nos genes dos seus cidadãos para tentar reduzir a violência. Anos depois, o que sobrou de Chicago tornou-se um “experimento”, com uma população confinada e destinada a produzir, por cruzamento entre as cobaias, o maior número possível de divergentes, que são, pasme, pessoas que não são geneticamente modificadas, isto é, pessoas normais, como Veronica, eu e você, leitor.

E continuam os despautérios da autora. Do complexo, situado no antigo aeroporto O’Hare, a galera do Departamento vigia a população de Chicago como um Big Brother, vendo e ouvindo tudo enquanto os seus habitantes se matam numa guerra fratricida. E, em mais uma reviravolta (já perdi as contas), o chefe do Departamento, David, torna-se o último vilão e a saga vira um libelo contra a eugenia.

Divergente peca pela falta de unidade temática e de coesão. Onde foi que Veronica errou? Basicamente, ela usou ingredientes demais. E, ao escolher juntar tantos elementos, faltou liga entre eles. Em vez de uma trama bem amarrada, o que temos é uma sobreposição de plots e muitas cenas gratuitas e sem função, deixando coisas por explicar e jornadas por se completarem.

Teria sido uma história muito mais coerente e equilibrada se ela eliminasse alguns desses ingredientes. Por exemplo, uma história que se centrasse apenas nas diferenças entre as facções e no reatamento do laço social, sem todo o besteirol de eugenia, simulações e divergentes, faria muito mais sentido. Ou, então, que escrevesse uma história sem facções e se focando  apenas na dicotomia projeto de eugenia x reprodução natural. Uma certeza: a série ficaria muito melhor sem os malditos soros.

Apesar de todos os problemas apontados, o final, quem diria?, nos reserva uma boa surpresa.

UM FINAL DE CAIR O QUEIXO

Enquanto eu lia a página 482 do terceiro livro, uma nova e última reviravolta me deixou estarrecido. Quando Quatro volta ao complexo O’Hare depois de fazer o impossível e salvar Chicago, ele e eu descobrimos que… Tris está morta! Sim, isso mesmo. Veronica matou, em combate, a sua protagonista e co-narradora (o último livro se divide entre narrações de Tris e Quatro, enquanto os dois primeiros são narrados apenas por Tris).

Que coragem.

O que se encaminhava para ser só mais um enlatado cultural insosso e mal preparado, enfim, uma série literária bobinha para adolescentes, mudou completamente de textura e de sabor quando cheguei ao ponto em que a escritora matou a sua protagonista.

A partir daí, ainda impactado pela inesperada e estarrecedora morte da heroína, continuei a leitura com outra atitude, absorvendo o desenlace com uma atenção plena e maravilhada.

O final da saga é sombrio e belo. Com o desmantelamento dos planos de David, Quatro e seus amigos voltam a morar em Chicago e ajudam a reconstruir a cidade.

E, nos preciosos parágrafos finais, Quatro encerra sua narração com uma bela mensagem que resume o mote da saga com uma singeleza que fez falta nas mais de 1.500 páginas anteriores:

“Desde que eu era criança, sempre soube disso: a vida nos danifica, a todos nós. Não há como escapar desse dano.
Mas agora também estou aprendendo isto: podemos ser consertados. Consertamos uns aos outros.”

A partir da morte de Tris, a impressão que fica é que Veronica percebeu que sua receita tinha desandado e resolveu colocar muito queijo e bacon por cima. Aí, não tem como ficar ruim.