Segunda Variedade: um baita conto de Philip K. Dick

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
07/04/2015

[Há alguns spoilers leves no texto]

O conto Segunda variedade, publicado por Philip K. Dick em 1953 e lançado no Brasil pela Editora Aleph na coletânea Realidades Adaptadas, se passa num futuro em que a Terra foi devastada pela guerra entre soviéticos e norte-americanos. Apesar de já não haver praticamente nada para defender ou conquistar, os dois lados seguem lutando, mesmo sem saber exatamente o porquê. Os líderes dos Estados Unidos se transferiram para a Lua e lá instalaram seu governo e suas fábricas, deixando a Terra como um campo de batalha que talvez não valha mais a pena disputar.

Ao mesmo tempo em que os combatentes humanos estão cansados de uma guerra que perdeu o sentido, há seres beligerantes que conservam o entusiasmo pelo conflito: as “garras”, máquinas de matar desenvolvidas pelas forças americanas e que foram responsáveis por desequilibrar o confronto a favor dos EUA .

Não se pode dizer que as garras são aliadas do grupo que as criou. Elas matam todo ser vivo que encontram, e a única coisa que impede o ataque aos soldados americanos é o uso de braceletes metálicos de identificação. As forças americanas não têm qualquer ingerência sobre as garras. Elas atuam por conta própria e vêm de fábricas automatizadas no subterrâneo, onde constroem suas semelhantes e evoluem em modelos cada vez mais aperfeiçoados e mortíferos.

O fio condutor do conto é a jornada do major Hendricks para encontrar o comando soviético depois que um mensageiro russo sacrificou a vida para entregar uma mensagem no QG americano (ou melhor, o recado foi recolhido  entre o que sobrou do corpo esquartejado pelas garras). No caminho, o major encontra o menino órfão David, que passa a acompanhá-lo.

Próximo à casamata soviética, David é alvejado pelos soldados inimigos e Hendricks descobre que a criança é, na verdade, um robô. Um robô assassino, desenvolvido pelas garras para se infiltrar em bunkers e exterminar humanos. É aqui que se dá o ponto de virada tão característico das obras de Philip K. Dick: as certezas do protagonista são solapadas e a realidade é colocada em xeque. Se o menino David era uma máquina, como saber que qualquer outra pessoa é realmente humana?

A evolução das garras, impulsionada pelo seu objetivo de matar de modo cada vez mais eficiente, coloca em risco até os seus antigos criadores. Como saber se os braceletes de identificação continuarão protegendo os soldados americanos de assassinos tão determinados?

Unido ao que sobrou das forças soviéticas, Hendricks precisa voltar a sua base e avisar seu exército da descoberta – mas o caminho de volta é muito mais assustador, agora que ele não tem certeza se os companheiros de caminhada são humanos ou máquinas.

O belo conto de Dick, fiel a sua tradicional visão pessimista do futuro da humanidade e às dúvidas sempre levantadas pelo autor quanto à natureza da realidade, foi adaptado para o cinema em 1995. O PA-VO-RO-SO filme Screamers ainda será resenhado no balcão desta Taberna. Mas sem pressa :p