Se Benny Cemoli não existisse: o conto de Philip K. Dick sobre a credibilidade do jornalismo

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
03/07/2019

As obras do escritor Philip K. Dick, um dos grandes mestres da literatura de ficção científica, geralmente abordam a questão da realidade. Como podemos diferenciar o real do ilusório? Como saber se o mundo a nossa volta e nossa própria percepção sensorial são o que parecem ser?

Essa tensão entre a certeza e a dúvida aparece em diversos plots nos contos e livros de PKD: implantes neurais, mundos simulados, drogas que alteram a consciência, anomalias genéticas, universos paralelos etc.

No conto Se Benny Cemoli Não Existisse, publicado originalmente em 1963 (no Brasil, o texto faz parte da coletânea Histórias de Robôs 3, da L&PM), o enredo vai por um caminho pouco usual, abordando a credibilidade do jornalismo. 

No terço final do século 23, trabalha-se na reconstrução de um planeta Terra destruído por uma terrível guerra chamada apenas de “A Desgraça”. Apesar de já haver por aqui uma autoridade local do Sistema Solar nomeada pelo narrador onisciente como “O Partido”, uma delegação de burocratas enviados de Proxima Centauri (e com autoridade legal que sobrepuja a do tal Partido) se instala nas ruínas de Nova York para coordenar a reconstrução e a investigação da Desgraça. 

Peter Hood, o líder da missão do DRUC (Departamento de Renovação Urbana de Centauro), decide reativar o antigo cérebro eletrônico do New York Times, uma inteligência artificial capaz de analisar dados captados por sensores espalhados pelo mundo e editá-los na forma de um jornal. Um veículo jornalístico completo apto a narrar os acontecimentos quase em tempo real e sem a necessidade de jornalistas de carne e osso. 

As edições do Times redivivo passam a noticiar, além de informações corretas sobre os trabalhos do DRUC (notícias que, para os burocratas, atestam a credibilidade do trabalho jornalístico do cérebro eletrônico), também intrigantes notas sobre as atividades de um movimento político liderado por um tal Benny Cemoli, que representariam uma ameaça de agitação social e ataques à autoridade do Departamento.

Guiados apenas pelas notícias do jornal virtualmente onisciente, que parecem ser desmentidas por um exame empírico da realidade objetiva, Hood e seus subordinados iniciam uma caça às bruxas em busca dos partidários de Cemoli. 

Mais de cinco décadas após a publicação do conto de Philip K. Dick, a questão da credibilidade da imprensa é, hoje, uma das pautas mais quentes do debate público. A disseminação dos meios de produção e compartilhamento de conteúdo, com softwares gráficos e redes sociais, revolucionou a criação e o consumo de informação, mas também ocasionou uma crise de confiança: se tudo que chega no nosso newsfeed pode parecer verdade, como saber o que é verdade?

Por muito tempo, o jornalismo, com suas rotinas profissionais básicas (entre as quais se encontram a checagem de fatos e fontes, o uso de critérios de noticiabilidade, a exposição ao contraditório etc), teve o aval da sociedade para deter um quase monopólio da mediação entre os acontecimentos e o público. Não por acaso, as informações falsas veiculadas em profusão nas redes sociais (muitas vezes, propositalmente, para promover interesses políticos, religiosos ou econômicos) são chamadas de “fake news” –  ou seja, são criadas de modo que se pareçam com notícias jornalísticas, para tomar-lhes emprestada a credibilidade. 

O próprio padrão estético/de estruturação de elementos do jornalismo (o uso de manchetes, linhas de apoio, fotos legendas e texto estruturado a partir de um lead), quando aplicado em um conteúdo, costuma ter o efeito de conferir-lhe aparência de verdade, razão pela qual esta linguagem é tão imitada. As fake news tentam parecer notícias de veículos jornalísticos. Como bem definiu a pesquisadora Christa Berger, em Campos em confronto: a terra e o texto (1998), “o campo do jornalismo detém, privilegiadamente, o capital simbólico, pois é da natureza do jornalismo fazer crer. O capital do campo do jornalismo é justamente a credibilidade.”

No conto de PKD, esse capital de credibilidade se expressa na fé inabalável dos burocratas do DRUC nas notícias do Times. Se o tsunami de informações falsas nas redes sociais da atualidade solapa a fédo público nos veículos jornalísticos e pode ter o efeito de universalizar a descrença e o ceticismo, levando a sociedade a uma crise de confiabilidade e caos informacional, tal questão nem sequer passa pela cabeça das personagens do conto, e o autor delas se vale para plantar na mente do leitor as sementes da dúvida: podemos acreditar piamente no que está noticiado em um jornal, mesmo um jornal produzido a partir de um cérebro eletrônico virtualmente à prova de erros?