Quem, afinal, é a Herbolária Angela, do Ciclo da Herança?

Jefferson Nunes
Por Jefferson Nunes
28/07/2015

Nas páginas do Ciclo da Herança, do escritor Christopher Paolini, aparecem muitos personagens carismáticos e divertidos, que tornam a leitura da quadrilogia muito especial e marcante. De todos eles, certamente a Herbolária Ângela é a mais impactante: seu senso de humor mordaz e cheio de sabedoria, suas habilidades surpreendentes e seu modo único de ver a vida tornam-na uma das personagens favoritas dos leitores da saga.

Aparecendo pela primeira vez em Teirm, como uma herbolária comum e sem qualquer destaque, até meio louca num primeiro momento, chama a atenção ao ler o futuro do protagonista Eragon nos ossos de juntas de dragões (o simples fato de ela os possuir mostra sua importância; certamente são muito poucos os que os possuem na Alagaësia, e menos ainda os que sabem ler o futuro através deles), demonstrando, logo, ser mais do que parece. Sua próxima aparição é em Farthen Dûr, a cidade mais importante dos anões, que estava prestes a viver uma terrível batalha contra os Urgals controlados pelo Espectro Durza. Essa aparição é importante, já que começa a levantar questionamentos sobre sua verdadeira personalidade.

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Ela demonstra, a partir daí, uma incrível habilidade de aparecer sempre em locais de eventos importantes, como bem havia observado o elfo Oromis. Conhecida de Anões, Elfos e Humanos, logo se percebe que já teve um longo histórico de aventuras na juventude (sua verdadeira idade é desconhecida), e que ela pode ser uma peça chave dos eventos da saga. Paolini termina, porém, o quarto volume sem revelar quem Ângela é de fato. Isso pode ser frustrante, mas acredito que o autor o fez propositalmente, para inseri-la mais profundamente nas histórias vindouras, que revelarão  sua verdadeira natureza.

Isso não impede, é claro, que os fãs da saga levantem constantemente hipóteses para tentar desvendar a verdadeira história da herbolária. Algumas são muito interessantes, outras, nem tanto, mas resolvi compilar nesse post algumas dessas hipóteses, e, também, expor minha própria teoria sobre a nossa querida Ângela.

SELENA MÃO-NEGRA, MÃE DE ERAGON

Essa é uma das teorias mais apontadas para a identidade de Ângela. Considero, porém, que ela não seja verdadeira, por uma série de razões. Primeiro, a idade de Ângela parece ser muito superior à que Selena teria, sendo a herbolária uma anciã que já passou por muitas aventuras, mesmo sendo mantida mais jovem pela magia. Além disso, se ela fosse de fato Selena, não acredito que fosse largar Eragon em Carvahall e nunca mais aparecer, se permanecesse viva por tantos anos. Obviamente, Selena queria proteger o filho de Galbatorix e Morzan, mas ela apareceu na vila prestes a dar à luz e com saúde debilitada, então, dificilmente poderia ser a mesma personagem.

Por outro lado, se Ângela fosse Selena, certamente teria demonstrado carinho maternal ao se encontrar com Eragon, coisa que não transparece no texto, e Brom também seria capaz de reconhecê-la em Teirm, mesmo com traços da fisionomia mudados por magia. Sua extrema habilidade demonstrada com magia também pode ser apontada como um obstáculo a essa teoria: apesar de Selena ser habilidosa, é pouco provável que tivesse um controle tão intenso de alquimia, magia e uma mente tão privilegiada e forte.

Por fim, ser mãe de Eragon não traria medo instantâneo aos seus inimigos, como Ângela fez em alguns momentos – como no quarto volume, na batalha contra o sumo-sacerdote de Dras-Leona, onde ela revelou em seu ouvido quem é de fato, ao que o sacerdote ficou horrorizado, percebendo que não podia vencê-la.

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MEIO-ELFO

Uma teoria interessante aponta Ângela como sendo um Meio-Elfo, ou seja, descendente de uma relação entre Elfos e Humanos, possível no universo de Eragon, como já declarou o autor Paolini. Argumentos para defender essa teoria são: a avançada idade da herbolária, superior à que atinge um Humano normal; suas visitas a Ellesméra no passado (poucos humanos foram autorizados a entrar na principal cidade dos Elfos, e menos ainda mantiveram o respeito dos Elfos ao longo do tempo); sua forma diferente de pensar, semelhante ao que um Humano nota ao penetrar na mente de um elfo; além das óbvias habilidades com magia e combate, mais próximas de Elfos que de Humanos.

Essa ideia pode parecer sedutora, mas também há pontos falhos nela. Ângela é descrita na série, mais de uma vez, como uma humana comum, sem qualquer traço que lembre os Elfos, como orelhas pontudas ou a característica beleza exótica desse povo. Arya, por exemplo, seria capaz de reconhecer os traços de uma Meia-Elfa em Ângela, mas não o faz em nenhum momento da série.

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Por fim, é possível perceber muito claramente no texto que os Elfos são seres extremamente orgulhosos e altivos, tendo um olhar depreciativo no tocante a qualquer relação afetiva mais forte entre Elfos e Humanos, especialmente em alguma que gere descendentes, o que pode ser claramente percebido nas recusas de Arya às investidas de Eragon. Se Ângela fosse uma Meia-Elfa, é pouco provável que fosse tão respeitada pelos Elfos, como ela é.

GALBATORIX

Uma das teorias mais ridículas já criadas… mas talvez uma das mais geniais. Imaginar Ângela como um disfarce de Galbatorix pode ser completamente maluco e sem sentido (realmente, não existe nada na série que aponte para isso), mas pode ter algum fundo de verdade. Isso explicaria a idade, conhecimento, habilidades, mistério e poder de Ângela, e o conhecimento tão forte de Galbatorix dos movimentos dos Varden. Ela usaria uma mágica para causar uma dupla ilusão: a de herbolária e a de Galbatorix. Além disso, Solembum poderia ser apontado como o disfarce de Shruikan.

Os impedimentos desta teoria são claros: não haveria motivo para, em caso de tamanha proximidade dos Varden, não ter acabado logo com Eragon, Arya e Nasuada; não haveria como Ângela usar os dois disfarces ao mesmo tempo na batalha final de Urû’Baen; a não explicação de por que Galbatorix destruiria suas tropas e ajudaria os Varden na guerra, e, além disso, o não ataque a Ellesméra, uma das coisas que certamente Galbatorix teria feito se tivesse a localização da capital Elfa. Apesar de a teoria ser claramente mentirosa, é uma das coisas mais ridiculamente geniais já pensadas, e seria uma abordagem interessante para a conclusão do 4° livro.

CAVALEIRA DO DRAGÃO

Essa teoria é uma das mais plausíveis já levantadas, embora tenha poucos pontos a favor e muitos contra. A ideia é interessante: Ângela seria uma Cavaleira que, assim como Brom, teve seu dragão morto, condenada a viver sua vida imortal sem seu companheiro. Isso fornece algumas respostas a respeito da idade, conhecimento, habilidades e seu entendimento da Língua Antiga, além da confiança que os Varden e Elfos têm em relação a ela. Além disso, poderia explicar a forte amizade que Solembum tem para com ela, fato raro, e mais próximo da relação entre dragão e Cavaleiro, o que seria benéfico para ambos.

Mas, como as teorias anteriores, esta possui falhas importantes. Em primeiro lugar, se Ângela fosse de fato uma Cavaleira, este fato seria reconhecido em algum momento entre os Varden, ou Arya e Oromis. Este último também seria capaz de reconhecer todos os alunos que tivessem passado por Vroengardantes da queda dos Cavaleiros, especialmente alguém que tivesse sobrevivido à fúria de Galbatorix (outro que teria reconhecido uma Cavaleira). Brom, um estudante do período final dos Cavaleiros, teria facilmente reconhecido uma colega. Além disso, mesmo com a morte de seu dragão, Ângela ainda seria capaz de realizar grandes mágicas, mas não o faz em nenhum momento da série, ainda mais em uma grande batalha como a de Urû’Baen. Tudo isso vai contra a teoria, que, apesar de ser muito interessante, não tem sustentação.

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GREYFOLK OU POVO CINZENTO

Aqui, as coisas começam a ficar bem interessantes. Os Greyfolk, ou Povo Cinzento, foram apontados por Paolini como os criadores da Língua Antiga, um povo muito antigo e poderoso, que vinculou a magia à sua língua. O imenso poder para realizar a união da língua com a magia teria drenado quase toda a energia deles, deixando-os apenas com a sombra de seu antigo poder.

A ideia é bem sedutora: seu mistério, poder e conhecimento extensivo na Língua Antiga casam bem com a imagem de Ângela. Além disso, a experiência na Língua Antiga, aliada à impossibilidade de conjurar magia é uma semelhança muito grande com nossa Herbolária, e realmente não há muito impedimento para a teoria, uma das melhores construídas pelos fãs.

PROFETISA (MINHA TEORIA)

Analisando as teorias criadas pelos fãs, fiquei surpreso com a falta de referência a uma ideia que me saltou aos olhos ao ler o último livro da série, e que imediatamente atribuí à verdadeira identidade de Ângela. Em Herança, quando do cativeiro de Nasuada em Urû’Baen, Galbatorix a prende em uma sala que chama de Salão da Profetisa, um local construído pelos Elfos sobre uma fenda que libera vapores. Esses vapores aumentam sobremaneira as chances de quem dorme perto dali ter visões sobre os acontecimentos do futuro, e foi ali que os Elfos construíram o salão.

Uma profetisa viveu ali por muitas centenas de anos, mesmo após os Elfos terem abandonado o local, e passou os séculos ali sonhando sobre tudo o que tinha acontecido e sobre tudo o que viria a acontecer. Com o passar do tempo, os vapores teriam perdido poder e a sacerdotisa e seus assistentes teriam abandonado o local. A identidade dela é um mistério, e Galbatorix diz que acredita que ela não fosse nem Humana, nem Elfa, nem anã.

Ao ler o trecho, imediatamente pensei: esta é a verdadeira identidade de Ângela!  Ela é a única personagem da série que poderia ser encaixada nesse perfil, e a ideia preenche várias lacunas da identidade dela. Em primeiro lugar, o seu aparecimento em locais de acontecimentos importantes, que nenhuma das teorias importantes consegue explicar. Sendo a Profetisa, ela saberia exatamente onde e quando esses eventos aconteceriam, e poderia intervir neles. Em segundo lugar, a teoria explica a grande sabedoria de Ângela e seu extenso conhecimento, que coloca a serviço dos Varden.

O porquê de sua escolha em favor da causa dos Varden e não da causa de Galbatorix certamente pode ser explicada pelo fato de, por conhecer o futuro, ela veria todas as atrocidades cometidas por Galbatorix, e desejaria lutar para acabar com elas. Em terceiro lugar, esta é a única teoria que explica o porquê do pânico do sumo-sacerdote de Dras-Leona ao saber quem ela era de fato.

Obviamente minha teoria tem lacunas: ela não explica completamente o motivo do imenso respeito que todos têm por ela (ser a Profetisa poderia ser um bom motivo, mas com certeza seria apontado em algum momento na saga, especialmente por Oromis), nem por que os Varden não a usaram como trunfo na batalha contra Galbatorix (seu conhecimento do futuro poderia seria usado pra prever movimentos e locais de ataque). Além disso, minha teoria só pode ser concretizada se levar em conta a teoria anterior, do Povo Cinzento, já que, como Galbatorix declarou, provavelmente a Profetisa não pertencia a nenhuma raça “comum”.

Mesmo assim, acredito que seja uma teoria que vale a pena ser pesada e levada em conta na construção de um quadro de Ângela. O que Paolini pretende fazer para revelar a identidade dela é um mistério maior que a verdadeira origem da herbolária, e só o tempo dirá o que passa pela cabeça do escritor. Até lá, é bom continuar refletindo sobre nossa querida personagem, uma das mais legais construções de Paolini.