Prelúdio à Fundação: a inusitada prequel de Asimov para sua obra magna

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
21/01/2019

Se Fundação, a cultuada trilogia de ficção científica que é a grande obra-prima de Isaac Asimov, fosse um filme, seria — pelo menos segundo a visão deste blogueiro — um drama épico, sério e profundo, de pegada kubrickiana, apresentando com tomadas grandiosas e economia de explicações a queda do Império Galáctico e a reagregação dos sistemas estelares à luz da fervilhante atividade dos cientistas de Terminus.

Limites da Fundação e Fundação e Terra, os livros lançados por Asimov décadas depois para rediscutir elementos do seu universo, caso se tratassem de obras da sétima arte, seriam filmões de sci-fi de Christopher Nolan, com imagens e sons impressionantes e enredo complexo mas com um ligeiro excesso de didatismo e proselitismo ideológico permeando os diálogos.

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Li os livros nessa ordem: primeiro a trilogia original, em seguida as sequências – e deixei as duas prequels (justamente os últimos capítulos da saga a serem lançados por Asimov) para o fim, com aquela curiosidade que sempre acompanhou minha leitura: finalmente eu descobriria como o legendário Hari Seldon criou a enigmática “psico-história”, a ciência capaz de prever com precisão matemática os rumos do conjunto das sociedades humanas, o plot que é a base de Fundação.

Qual não foi minha surpresa ao ler Prelúdio à Fundação e constatar que, mantida a metáfora cinematográfica que abre este artigo, se a primeira prequel de Fundação fosse um filme, seria não uma obra complexa e cerebral, mas um thriller de ação dirigido por Michael Bay, com Jason Statham no papel de Hari Seldon.

Os eventos de Prelúdio à Fundação, publicado em 1988, se iniciam com a chegada do então jovem matemático a Trantor, a capital do decadente Império Galáctico. Após ter alcançado alguma notoriedade ao apresentar, em um seminário, a proposta de uma nova ciência capaz de elaborar projeções matemáticas que antevejam os movimentos do devir social, Seldon é jogado, antes mesmo desfazer as malas em Trantor, em uma frenética fuga de perseguidores que ele sequer suspeita quem possam ser.

Sendo levado de um Setor a outro de Trantor, e sempre sendo encontrado por seus misteriosos inimigos, Seldon é auxiliado pelo não menos misterioso Chetter Hummin, que se apresenta ao matemático como um jornalista repleto de amigos influentes. Uma das amigas de Chetter, a professora universitária Dors Venabili, acaba se tornando a principal protetora de Seldon, menos por seus conhecimentos de História, a disciplina que leciona, e mais por suas habilidades com facas.

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Sim, não nos esqueçamos que, se se tratasse de um filme, seria Jason Statham sendo dirigido por Michael Bay – e provavelmente alguém como uma Milla Jovovich (substituída por uma dublê campeã de kung fu nas sequências de ação) no papel de Dors. Para nosso espanto, descobrimos que o próprio Seldon, o jovem destinado a se tornar aquele velhinho com ares de guru que aparece em Fundação, é um mestre em artes marciais capaz de sentar a porrada nos seus perseguidores. Asimov tenta justificar explicando que o matemático é nativo do planeta Helicon, onde todo mundo é proficiente em técnicas de luta. Então tá.

Pudera que Seldon não tenha tempo para desenvolver a psico-história no livro: nosso herói não ganha um segundo de descanso e precisa fugir de drones, fanáticos puritanos, possíveis agentes do governo imperial, gangues nas favelas de Dahl e golpistas palacianos.

Ao mesmo tempo, o matemático bom de briga vive repetindo que a psico-história é possível apenas do ponto de vista teorético e inviável na prática  (até porque, se essa ciência fosse factível e passível de descrição na vida real, o próprio Asimov a teria lançado no plano acadêmico e hoje teríamos um mundo bem diferente). Para que, então, serve a jornada de Seldon ao longo de todo o primeiro livro?

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Bem, Prelúdio à Fundação, apesar de nos negar a chance de ver a inteligência de Seldon em ação equacionando as idas e vindas da evolução das sociedades, permite que o Pai Fundador da psico-história reúna em torno de si os colaboradores que o auxiliarão na prequel seguinte, Origens da Fundação, e também lhe dá algumas pistas de quais caminhos tomar para viabilizar a transformação de uma remota hipótese teórica em uma ciência aplicável e capaz de salvar a galáxia do caos.

Também é bem interessante mergulhar no dia a dia de Trantor enquanto planeta-capital do Império, que aparece tão de relance na trilogia original. Apesar de estar em avançado estado de degeneração no período abrangido por Prelúdio da Fundação, ainda é possível acompanhar a dinâmica geopolítica e os atritos entre Setores, que acabarão tendo importância na própria pesquisa de Seldon.

Em suma: se o livro frustrou minhas expectativas por um lado, por outro não deixou de ser uma leitura divertida, pois, não esqueçamos, é um livro de Isaac Asimov – e o Bom Doutor sabe o que faz.