Por que O Conto da Aia é uma distopia tão assustadora

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
04/02/2019

Base da série The Handmaid’s Tale, um dos principais fenômenos pop da atualidade, o livro homônimo O Conto da Aia (por alguma razão, no Brasil traduzimos o título de um e não o de outro), de Margaret Atwood, é uma instigante e avassaladora distopia.

Usando o clássico recurso de discutir um elemento da vida real do seu tempo (no caso, o machismo estrutural em meados da década de 1980) por meio da transposição para um futuro fictício absurdo, a escritora canadense produziu uma obra, na opinião deste blogueiro, muito mais poderosa que a sua adaptação para a TV.

O que me leva a preferir o livro de Atwood à série é basicamente a forma: nele a narração em primeira pessoa da aia Offred é muito mais enigmática, muito menos didática e menos preocupada em dirimir estranhamentos – e, justamente por isso, muito mais genuína e crível  que sua contrapartida televisiva.

Veja também:

:: 1984: a atualidade de uma distopia

No livro, Offred narra a terrível crônica de Gilead de um jeito quase desleixado, como se não fizesse importância se alguém leria ou não seu relato – e isso se encaixa como uma luva vermelha no contexto vivenciado pela protagonista, o de uma prisão para o corpo e principalmente para a alma. Offred se dá a conhecer aos poucos e muito pouco, com fluxos de consciência e flashbacks esporádicos sendo ativados pelas circunstâncias próprias de cada dia, ao sabor do sentimento que acompanha cada situação por ela vivida: tédio, medo,angústia, curiosidade, tristeza, dor.

E, ao deixar em aberto (ou melhor, ao deixar enclausurados) elementos como nomes, datas, locais, a narrativa também ganha em universalidade espaço-temporal: o relato-alerta de Offred segue atual e intrigante em qualquer época e em qualquer sociedade em que seja lido. E é isso que torna o livro tão assustador.

A PROXIMIDADE DE UM FUTURO ESTARRECEDOR

Hoje, num tempo de tantos avanços emancipatórios da mulher em relação ao passado de submissão e sujeição, poderia soar inverossímil que um regime teocrático fosse capaz de dividir a sociedade em castas tão estanques e reduzir toda a população feminina a uma caricatura dos seus papéis práticos. Seria possível regredirmos tantos séculos (ou até milênios) em um espaço de tempo tão curto?

Em O Conto da Aia, o grupo fundamentalista cristão que arquitetou um golpe para tomar o poder nos Estados Unidos conseguiu neutralizar e em seguida escravizar a população feminina por meio de uma estratégia tão factível que nos deixa boquiabertos, se pararmos para pensar.

Com o avançado (ainda mais avançado hoje do que era em 1985, época em que Atwood lançou seu livro) processo de informatização e virtualização da economia e da burocracia, não é preciso muito esforço de um Estado que queira aniquilar instantaneamente a capacidade de reação de milhões de mulheres ao seu plano de dominação.

Na narrativa de Offred, primeiro o governo revolucionário proíbe as mulheres de trabalhar, em seguida confisca todos os seus bens e contas bancárias. Também são editadas, claro, outras restrições, mas as primeiras são a base que tornou possível a criação de todo um sistema opressor.

A verossimilhança e plausibilidade dessa jogada, a força irresistível desse curso de ações é assustadora. Imagine que um grupo paramilitar ultraconservador tome o poder de um país – o Brasil, por exemplo (aliás, desde outubro de 2018 o cenário já quase não parece fictício). Bastaria que esse governo cancelasse o CPF e a carteira de trabalho de todas as mulheres e, pronto, todas elas perderiam, instantaneamente, o acesso à economia formal. Sem emprego (pelo menos os formais), sem bens, sem crédito, a população feminina seria jogada em uma dependência absoluta em relação aos homens (marido, pai, irmãos etc) e passaria a gastar tanta energia com os problemas práticos de sobrevivência que qualquer resistência organizada aos movimentos seguintes do regime estaria inviabilizada.

Jogadas de volta a uma submissão total à estrutura patriarcal, a partir daí as mulheres poderiam ser oprimidas de outras formas progressivamente mais cruéis, e como poderiam elas resistir? Como fugir, sem dinheiro ou passaporte? E, uma vez instaurado o sistema de proibições, quem daria guarida a uma fugitiva, correndo o risco de cair na rede dos órgãos de vigilância da ditadura?

Aqui, o leitor interrompe o blogueiro contra-argumentando que tal regime não teria respaldo, nem da população civil nem da comunidade internacional, para perpetrar tais atrocidades.

Será mesmo?

A questão dos costumes, as “guerras culturais”, os movimentos identitários têm ocupado lugar de destaque no debate público, tanto nas instâncias políticas formais, quanto nos meios de comunicação de massa, quanto nas redes sociais (virtuais e presenciais) – e o que se percebe é um ricochete conservador muito forte. Grupos ultraconservadores (alguns deles de cunho fascista) perderam o medo de brandir suas pautas preconceituosas em voz alta e a resistência, mormente da parte de segmentos da comunidade cristã, em especial das denominações evangélicas, a avanços sociais é um dos movimentos mais pronunciados na atual conjuntura política.

Aí estão as eleições de 2018, que não me deixam mentir: em vez de debates sobre economia, desenvolvimento, desigualdade, combate ao desemprego etc, o que seria de se esperar numa disputa por cadeiras no Parlamento e no governo, o que vimos na prática foram questões morais, sexuais e religiosas pautando a disputa eleitoral. E o segmento conservador/religioso saiu das urnas como o grande vencedor em praticamente todos os Estados.

Num país em que crescem, a cada eleição, as fatias do Parlamento e dos governos controladas por grupos evangélicos neopentecostais, a instauração de uma Gilead tropical parece mais distante ou mais próxima? A ação de milícias paramilitares de influência cristã, capazes de substituir as forças armadas regulares, ou mesmo atuarem em cooperação com estas, pode estar ainda um pouco distante, mas definitivamente não parece um cenário absurdo no Brasil de 2019.

E quanto à resistência da comunidade internacional? Hoje, em tempos de comunicação global em tempo real, não seria possível ocultar dos demais países uma ditadura nos moldes de Gilead, mas haveria alguma resistência efetiva dos governos estrangeiros, além da condenação no plano diplomático? Há, hoje em dia, diversos regimes machistas/homofóbicos oprimindo mulheres e gays ao redor do mundo, de modo mais ostensivo na Ásia e na África, e só há “intervenção” estrangeira quando os negócios, em especial a exploração de petróleo, são prejudicados. Portanto, seria de se esperar que, se os donos do poder global seguissem lucrando, a Gilead tupiniquim estabeleceria seu rígido sistema de castas sem maiores incômodos com os demais países.

Mesmo se excluirmos da nossa extrapolação um fator importante do romance de Margaret Atwood, que é o plot da perda de fertilidade das mulheres devido a uma contaminação da qual pouco nos é revelado, em linhas gerais podemos dizer que o alerta de O Conto da Aia segue crível e urgente.

O avanço conservador e o empoderamento paulatino de religiosos – moderados e fundamentalistas -, o que tem acarretado um retrocesso nos avanços concernentes à igualdade de gênero, aliados a um progressivo incremento do controle do Leviatã burocrático sobre os destinos das gentes, mantêm acesas as luzes de alarme: enquanto não fortalecermos uma cultura de equidade e de tolerância, Gilead continuará sendo logo ali.