Por que Fahrenheit 451 é um livro tão urgente em 2019

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
13/09/2019

Publicado originalmente em 1953, o livro Fahrenheit 451 (atualmente editado no Brasil pelo selo Biblioteca Azul), de Ray Bradbury, é uma distopia que, a exemplo de clássicos como 1984, Admirável Mundo Novo e O Conto da Aia, é comumente citada como um alerta da degeneração do contrato social e das vias democráticas que vivenciamos na contemporaneidade.

Se a evocação de 1984 nos remete ao arquétipo da ditadura opressiva retratada como um Leviatã estatal onipresente, onisciente e onipotente, Admirável Mundo Novo representa uma alegoria do jugo de uma sociedade globalizada que escraviza pelo condicionamento e pelo prazer e O Conto da Aia denuncia a proximidade que há entre o machismo estrutural do mundo real e uma tirania caricatural, a trama de Fahrenheit 451 costuma ser lembrada pelo seu plot central: o de um governo autoritário que baniu os livros e queima qualquer exemplar encontrado de posse de qualquer cidadão (eventualmente, queimando o cidadão junto), mas a obra de Ray Bradbury vai muito além disso. 

Há no futuro hipotético descrito no livro, além da icônica e estarrecedora ideia de bombeiros que não mais apagam incêndios, mas ateiam fogo nos livros proibidos, outros elementos que nos parecem assustadoramente próximos do nosso próprio contexto no mundo real. 

A MORTE DA CONVERSAÇÃO

O banimento dos livros no universo retratado em Fahrenheit 451 é sintoma de um cerceamento amplo (e em certa medida velado) da própria comunicação interpessoal. 

Não há conversação, não há troca – ou produção – de ideias no mundinho em que vive Guy Montag, o bombeiro relutante que é protagonista do romance de Bradbury. Resignado com seu ofício de andar por aí ateando fogo em livros proibidos encontrados sob a posse de incautos transgressores denunciados pelos vizinhos, Montag começa a achar que há algo errado com o próprio modo de vida ao ser abordado por Clarisse McClellan, uma excêntrica adolescente que mora na casa ao lado. 

O que torna Clarisse tão diferente das demais pessoas do pequeno mundo de Montag? Ela conversa. Pergunta. Fala sobre coisas banais e também faz especulações filosóficas. Quando ela comenta com o bombeiro que costuma conversar com a família em casa, o protagonista fica intrigado: o que haveria para uma família conversar? Como alguém poderia ter assunto que merecesse horas de debate em um serão de luz acesa?

Ao entrarmos com Montag em sua própria casa, descobrimos a razão do estranhamento que a eloquência de Clarisse lhe causa: ele e a esposa, Mildred, não conversam. Ela passa os dias “anestesiada” por um sistema interativo de televisão em que personagens distantes fazem as vezes de “família”, mantendo-a entretida com banalidade e superficialidade – e ele está acostumado com isso. Mais tarde, quando analisa a própria vida em perspectiva, Montag constata que sabe muito pouco sobre a própria esposa, que a relação que tem com ela é uma não-relação. 

Vale o mesmo para os contatos superficiais com vizinhos, com colegas de trabalho, até consigo mesmo: a interpessoalidade foi reduzida, na distopia que aqui resenhamos, ao estritamente necessário para manter a sociedade funcionando. Não há trocas, não há conhecimento nem do outro, nem de si próprio, nem de coisas além. O banimento dos livros é apenas um meio para atingir um fim, que é a proscrição das ideias e do intercâmbio entre sujeitos. 

RÁPIDO DEMAIS PARA O PENSAMENTO

Além de conversar, Clarisse destoa do padrão das gentes por gostar de caminhar ao ar livre. O mundo de Fahrenheit 451 é um mundo de pessoas com pressa – e andar livremente pelas ruas, embora não seja proibido, é um hábito mal visto. As pessoas se deslocam ou em carros a jato ou em tubos subterrâneos ultra-rápidos. 

A velocidade vertiginosa dos deslocamentos tem a ver, assim como a TV interativa, com reduzir ao máximo o tempo destinado à divagação, à contemplação, à indagação. Locomover-se a centenas de quilômetros por hora impede que as pessoas observem o mundo e se perguntem o que há nele. Parar e observar é uma forma de transgressão.

E nem sequer é preciso que o Estado desencoraje proativamente o mau hábito de andar a pé: os próprios motoristas se encarregam de transformar o atropelamento de pedestres em um tipo de esporte. Um caso, também comum em outras distopias, em que a catarse homicida dos cidadãos é tolerada/encorajada pelo Estado como ferramenta de controle.

Além da relação a distância com uma “família” televisiva e da condução de veículos em alta velocidade, os habitantes da Cidade buscam na farmacologia um preenchimento do vazio de suas vidas. Um outro ponto de virada para a jornada de Montag, que divide importância com as conversas que ele tem com Clarisse, é a overdose de sonífero de Mildred. Assim como em Admirável Mundo Novo, também em Fahrenheit 451 a estabilidade social é conquistada com o auxílio de narcóticos. 

Alguma semelhança com o nosso mundo em 2019, quando as cidades são pensadas privilegiando a locomoção de carro em detrimento dos pedestres e os negócios que mais prosperam são farmácias? A profecia de Bradbury revela-se assustadoramente acurada.

O VELHO PESSIMISMO OTIMISTA DE BRADBURY

Fahrenheit 451, como outras obras de Ray Bradbury, traz subjacente aquela ideia do autor de que a sociedade corrompe o indivíduo e que o mundo seria um lugar melhor se apertássemos o botão de Reset e começássemos tudo de novo, a partir de um grupo de pessoas não “contaminadas” pelo germe da maldade. 

A saída proposta pelo escritor para o labirinto de mutismo e ignorância da ditadura aqui descrita é de uma beleza e de um lirismo típicos da sua literatura: a instauração das pessoas-livro. 

O Estado não pode destruir um livro se ele estiver guardado num lugar inacessível às labaredas cuspidas por seus lança-chamas: o mundo da consciência. Ao fugir da Cidade, Montag é acolhido por um grupo de andarilhos que lhe apresenta uma alternativa de vida e de missão: tornar-se um livro vivo, ao mesmo tempo guardião e propagador de saberes ancestrais da humanidade. 

No romance, os homens-livro são ainda incapazes de destruir a ditadura – e não que precisem, pois ela acaba consumindo a si mesma por meio da guerra – mas seguem em frente como uma centelha viva, a semente de um novo mundo que, para o autor, há de germinar quando as cinzas da opressão e do obscurantismo esfriarem.

Para nós, que vivemos, mais de seis décadas depois do lançamento do romance, em um contexto sociopolítico em que a censura e a proscrição de livros ainda são riscos bem prementes, o livro de Ray Bradbury serve como uma mensagem de esperança e encorajamento: não deixemos que destruam o conhecimento, a palavra, a inter-relação de sujeitos e ideias; sejamos nós os receptáculos vivos que passarão adiante a criação e o patrimônio cultural da humanidade. 

“O MUNDO ESTÁ CHEIO DE PESSOAS CARREGANDO FÓSFOROS ACESOS”

Um enredo como o de Fahrenheit 451 é tentadoramente propício a maniqueísmos. E Bradbury, inteligentemente, se nega a escrever um romance maniqueísta e insere no livro nuances e tonalidades. Não se trata, aqui, de uma história sobre um governo malvado que derrotou amantes da liberdade e escravizou suas mentes. 

Pela boca de Beatty, o letrado e cínico capitão dos bombeiros, o autor nos esclarece que a proscrição dos livros pelo Estado foi tão somente a culminância de um longo e multifacetado processo de intolerância e cerceamento da liberdade de expressão, que contou com a ação efetiva de diversos grupos sociais – incluindo pessoas a princípio bem intencionadas. 

Num dos posfácios que constam na edição da Biblioteca Azul, Bradbury rediscute elementos do romance e manifesta seu desgosto pelo patrulhamento que minorias e grupos socialmente oprimidos acabam exercendo, em nome de ideais elevados, sobre o fazer literário alheio. Cito:

“Existe mais de uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas carregando fósforos acesos. Cada minoria, seja ela batista, unitarista; irlandesa, italiana, octogenária, zen-budista; sionista, adventista-do-sétimo-dia; feminista, republicana; homossexual, do evangelho quadrangular, acha que tem a vontade, o direito e o dever de esparramar o querosene e acender o pavio. 

Cada editor estúpido que se considera fonte de toda literatura insossa, como um mingau sem gosto, lustra sua guilhotina e mira a nuca de qualquer autor que ouse falar mais alto que um sussurro ou escrever mais que uma rima de jardim de infância.

Beatty, o capitão dos bombeiros em meu romance Fahrenheit 451, explicou como os livros foram queimados primeiro pelas minorias, cada um rasgando uma página ou um parágrafo desse livro e depois daquele, até que chegou o dia em que os livros estavam vazios e as mentes caladas e as bibliotecas para sempre fechadas.”


Um ponto fundamental do princípio da liberdade de expressão é seu caráter universal: deve valer para todos. Aquela máxima que o senso comum atribui a Voltaire (embora haja quem diga que jamais foi proferida por ele) é de uma radicalidade difícil de ser assumida: “Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo”. E isso nada tem a ver com ser bonzinho ou benevolente, mas sim com ser pragmático mesmo: quando concordo e sou conivente com a censura daqueles de quem eu discordo, estarei sujeitando aqueles com quem eu concordo ao mesmo risco de censura. Censura sempre naturaliza e legitima mais censura.

Mais uma vez, a distopia de Bradbury encontra ressonância na realidade. Vivemos um contexto marcado por “guerras culturais” e diversos grupos utilizam o escracho, o boicote, o silenciamento dos oponentes como estratégia e método. Estaríamos, portanto, numa realidade pré-Fahrenheit 451. Segundo o cronograma de Bradbury, se cristalizarmos e naturalizarmos o silenciamento de autores em nome de qualquer motivo que seja (salvaguardado, claro, o combate a conteúdo criminoso), seguimos a alta velocidade numa rodovia que nos levará à Cidade onde Montag é pago pelo Estado para queimar os poucos livros remanescentes.

Ainda há tempo para nós. Pisemos no freio. Desçamos desse carro a jato. Sigamos, a pé e ao lado de outras pessoas, na direção contrária.

À floresta.

Aos livros.