Peixe-babel: a solução de Douglas Adams para a comunicação da galáxia

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
29/07/2015

A barreira da língua é um problema que costuma ser subestimado (ou convenientemente ignorado) por muitos autores e roteiristas de histórias que se passam no espaço. Se uma narrativa ambientada em uma galáxia com grande número de colônias humanas já envolveria sérios problemas de comunicação devido ao inevitável surgimento de dialetos e novos idiomas, imagine se, além dos planetas habitados pela nossa própria espécie, também tivéssemos de conjugar alienígenas inteligentes e falantes.

Há escritores que simplesmente não mencionam as diferenças linguísticas e põem todos os personagens a conversar alegremente, como se todos falassem o mesmo idioma.

Outros usam a tecnologia como recurso e lançam mão de tradutores instantâneos manufaturados. Aqui, há um problema bem grave: a necessidade de upgrades. As línguas são mutantes e um tradutor automático que pretendesse dar conta de todas elas precisaria ser permanentemente atualizado. Muito provavelmente, as conversas dos personagens seriam constantemente interrompidas por avisos como “Baixando atualização 1 de 986.354. Aguarde…” Isso sem contar a descoberta de novos planetas habitados por espécies desconhecidas, o que demandaria novas atualizações – além, é claro, de muitos meses ou anos para que os filólogos e linguistas aprendessem o novo idioma.

Alguns autores insistem na adoção de um idioma padrão para uso em toda a galáxia, uma ideia que provavelmente não daria muito certo. Mesmo que todos os povos, de todas as espécies e em todos os planetas, decidissem aprender e usar a língua-padrão, imagine a cacofonia de sotaques e dialetos que inevitavelmente surgiriam. Tente andar pelo Brasil e ouvir a diversidade de maneiras de se falar português que encontramos em locais a poucas centenas de quilômetros uns dos outros. Converta essa relação para distâncias estelares e pense em como seria difícil conversar com cidadãos de planetas situados a milhões de anos-luz.

Douglas Adams e seu incrível peixe poliglota

Uma das soluções mais geniais e simples para este problema literário foi a apresentada pelo mestre Douglas Adams na sua série O Guia do Mochileiro das Galáxias: o peixe-babel. Trata-se de um animalzinho que, uma vez colocado dentro do ouvido, atua como tradutor instantâneo, e sem a necessidade de download de atualizações, pois ele não usa os idiomas, mas as ondas cerebrais dos falantes.

Deixemos que o próprio Adams explique o funcionamento da criatura:

“O peixe-babel”, disse O Guia do Mochileiro das Galáxias, baixinho, “é pequeno, amarelo e semelhante a uma sanguessuga, e é provavelmente a criatura mais estranha em todo o Universo. Alimenta-se de energia mental, não daquele que o hospeda, mas das criaturas ao redor dele. Absorve todas as frequências mentais inconscientes desta energia mental e se alimenta delas, e depois expele na mente de seu hospedeiro uma matriz telepática formada pela combinação das frequências mentais conscientes com os impulsos nervosos captados dos centros cerebrais responsáveis pela fala do cérebro que os emitiu. Na prática, o efeito disto é o seguinte: se você introduz no ouvido um peixe-babel, você compreende imediatamente tudo o que lhe for dito em qualquer língua. Os padrões sonoros que você ouve decodificam a matriz de energia mental que o seu peixe-babel transmitiu para a sua mente.

Ora, seria uma coincidência tão absurdamente improvável que um ser tão estonteantemente útil viesse a surgir por acaso, por meio da evolução das espécies, que alguns pensadores veem no peixe-babel a prova definitiva da inexistência de Deus.

O raciocínio é mais ou menos o seguinte: ‘Recuso-me a provar que eu existo’, diz Deus, ‘pois a prova nega a fé, e sem fé não sou nada.’

Diz o homem: ‘Mas o peixe-babel é uma tremenda bandeira, não é? Ele não poderia ter evoluído por acaso. Ele prova que você existe, e, portanto, conforme o que você mesmo disse, você não existe. QED***’.

Então Deus diz: ‘Ih, não é que eu não tinha pensado nisso?’ E imediatamente desaparece, numa nuvenzinha de lógica.”

Claro que O Guia do Mochileiro, apesar de abordar temas e conceitos científicos profundos, é uma saga de humor que flerta o tempo todo com o nonsense e, portanto, seu autor pode se dar algumas liberdades que outros escritores de estilo mais realista e sisudo não têm. O peixe-babel funciona bem n’O Guia mas não poderia estar em Star Trek ou na trilogia da Fundação, por exemplo.

Leia também:

> O Guia do Mochileiro das Galáxias: a obra-prima de Douglas Adams

Capa_Restaurante_13mmO peixe-babel também não é uma solução narrativa à prova de falhas. Adams não diz se é necessário ter uma cavidade auricular para que o peixe funcione como tradutor ou se ele traduziria a partir de um bolso, por exemplo. Em caso afirmativo, seriam todas as espécies do universo dotadas de orelhas e ouvidos?

Além disso, para funcionar universalmente, a ideia do peixe-babel exige que todos os cérebros emitam ondas mentais e parte do pressuposto de que o animal conseguirá se alimentar das ondas de qualquer cérebro, bem como o cérebro do seu hospedeiro será sempre capaz de decodificar o seu “excremento mental”. E se houver algumas ondas que o estômago do peixe considere indigestas? E se alguns cérebros forem “alérgicos” às ondas excretadas pelo peixinho?

Em todo caso, o recurso continua sendo a melhor solução já apresentada na literatura para o problema da comunicação em nível galáctico e é mais um indício da genialidade de Douglas Adams e da riqueza da sua obra.

*** Do latim “Quod erat demonstrandum” (“como queríamos demonstrar”).