Os Testamentos: a maravilhosa sequência de O Conto da Aia

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
20/11/2019

Escrito mais de três décadas após o lançamento de O Conto da Aia (e, portanto, após o fenômeno mundial da série The Handmaid’s Tale, inspirada naquela distopia), o livro Os Testamentos, da escritora canadense Margaret Atwood (publicado no Brasil pela Rocco), é uma obra, se não mais grandiosa, pelo menos mais grandiloquente que o romance anterior – até por dialogar com elementos lançados pela série e por todo o buzz que esta gerou.

Traçando um paralelo entre as duas incursões de Atwood no triste cotidiano de Gilead, podemos dizer que o livro O Conto da Aia é ao mesmo tempo mais abrangente quanto ao conteúdo (por ter uma perspectiva mais ampla e extensiva das diversas dimensões e manifestações daquela teocracia belicosa) e mais enclausurado na forma (por ser um relato delimitado pelo raio de alcance da experiência pessoal da narradora, Offred), enquanto Os Testamentos é mais restrito e intensivo no conteúdo mas muito mais “panorâmico” e cosmopolita na forma.

Como no romance de 1985, em Os Testamentos a autora também adota o formato de relato em primeira pessoa – a diferença é que agora temos três narradoras: a crônica dos acontecimentos da Gilead pós-O Conto da Aia nos chega por meio de um manuscrito secreto de Tia Lydia, velha antagonista do livro e da série de TV, e pelas transcrições de depoimentos da Testemunha 369A (uma jovem de Gilead) e da Testemunha 369B (uma garota criada no Canadá). 

Não entregarei agora as identidades das Testemunhas 369 A e B para deixar que o leitor que ainda não leu o livro descubra isso pelas palavras da autora, mas o ponto é que os relatos das jovens e o de Tia Lydia, a princípio distantes no tempo, no espaço e no contexto, aos poucos se aproximam e se entrelaçam, com uma intensificação de ritmo que nos conduz, embevecidos, a um clímax eletrizante como o de um thriller de ação. Os Testamentos é uma obra literária muito mais “cinematográfica” que O Conto da Aia. 

O novo romance, que se passa cerca de 15 anos após o desaparecimento de Offred, pouco conta sobre o que acontece nas casas, nos salões de culto, nos mercados onde as Aias se encontram ou nos gabinetes dos Comandantes. É uma obra de bastidores, centrada principalmente num estamento do qual pouco é revelado no livro de 1985: a poderosa corporação das Tias. Como boa contadora de histórias que é, a autora joga com as idas e vindas no tempo, mesclando o passado e o presente das narradoras e de Gilead e até dando pistas instigantes sobre o futuro das personagens, lampejos que aguçam a curiosidade e aumentam na medida certa a tensão e a expectativa do leitor.

Os homens também aparecem muito pouco em Os Testamentos, que é focado na luta silenciosa, resoluta e paciente das mulheres para combater a opressão machista de Gilead. Atwood, antenada com o seu tempo, aposta na guerra de informação como estratégia e na importância da palavra e da instrução para a tomada de consciência e a emancipação. Não foi à toa que a teocracia gileadiana proibiu a leitura para as mulheres – à exceção justamente das Tias, que, de posse desse privilégio, souberam transformá-lo em poder. 

Elegante na forma e profundo no conteúdo, dialogando com as mudanças do mundo e rediscutindo os elementos do livro O Conto da Aia e da série The Handmaid’s Tale sem ser repetitivo, Os Testamentos é uma maravilhosa sequência para um romance icônico. A obra, mais um belíssimo produto do talento de Margaret Atwood, mescla denúncia alegórica do machismo estrutural, negação do maniqueísmo, suspense, humor, ação, tensão, momentos ternos e comoventes – e sobretudo literatura da boa. Um livraço.