Os Próprios Deuses: Asimov brinca entre universos

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
18/02/2019

Isaac Asimov era um cara que se importava bastante com energia.

E a energia é tema central de várias obras do Bom Doutor, que parecia acreditar que boa parte dos problemas econômicos e políticos da humanidade desapareceriam quando e se se descobrisse uma fonte energética limpa, inexaurível e barata (de preferência, gratuita).

É precisamente nesse cenário que se inicia o livro Os Próprios Deuses: um futuro em que aclamada Bomba de Elétrons resolveu miraculosamente os problemas de fornecimento de energia da humanidade e transformou a Terra numa utopia em que todos levam uma vida confortável.

Criada oficialmente por obra do gênio de Frederick Hallam, um cientista que apenas poucos colaboradores próximos sabiam ser medíocre, a Bomba de Elétrons operava de um modo que contrariava tudo que se sabia sobre as leis da física do nosso universo, a ponto de ter gerado um novo campo científico, o da “para-física”, para estudar o seu funcionamento. Mais tarde descobrimos, e é aqui que surge o que podemos chamar de um leve spoiler, que a conversão de tungstênio inerte em um tipo de plutônio altamente energético foi uma iniciativa não de Hallam, mas de misteriosos e virtualmente inacessíveis seres de um universo além dos limites do nosso, um outro universo cujos habitantes por alguma razão julgam ser uma boa ideia trocar energia com o nosso Sistema Solar.

Por meio de um esforço de arqueologia da história da criação da Bomba de Elétrons, o cientista Peter Lamont tenta ao mesmo tempo desacreditar Hallam e provar que o artefato é um grande perigo para o Sistema Solar – e Asimov se vale das investigações da personagem para introduzir o leitor na dinâmica das forças cósmicas e das relações entre os universos que imaginou.

Findo esse primeiro ato, somos transportados por Asimov para um outro universo – o tal universo paralelo que troca energia com o nosso por meio da Bomba de Elétrons. Imaginar como seria a existência não apenas em outro planeta, mas em um planeta situado nm universo diferente e regulado por uma física aquém da nossa, é uma empreitada dificílima, e o Bom Doutor se sai bem na tarefa.

Contrariando nossas expectativas de encontrar uma cultura ultratecnológica e avançada (de uma maneira antropomórfica), Asimov pinta em tons lúdicos e quase pueris a idílica existência de uma raça para a qual a energia da Bomba de Elétrons é alimento.

Esta seção de Os Próprios Deuses, que a princípio me causou bastante estranhamento, pela dificuldade de assimilar ou mesmo de me interessar pela vida modorrenta dos “para-homens”, aos poucos se converteu em uma intrigante e engenhosa história sobre a obsessão das criaturas pela energia gerada pela Bomba de Elétrons, que motiva um debate semelhante ao proposto por Lamont no nosso próprio universo.

Com a conclusão do ato ambientado no universo paralelo, voltamos ao nosso próprio Sistema Solar, mais precisamente à Lua, algum tempo após os episódios narrados na primeira seção. Este ato já seria interessante por si só, pela apresentação de uma interessantíssima sociedade lunar.

Mas o segmento final de Os Próprios Deuses ganha força principalmente por justificar o título do livro. Com o risco iminente de desestruturação das forças nucleares do nosso universo, algo que o leitor conhece e teme após a leitura dos dois atos anteriores, acompanhamos a jornada de Denison, um dos detratores iniciais de Hallam, na pesquisa de fontes de energia na Lua, descrita como o último refúgio da ciência de ponta e da inventividade na humanidade.

É neste terço final que Asimov integra os elementos dos atos anteriores e põe em perspectiva a própria ideia de multiverso, grande tema de Os Próprios Deuses. Pela tensão entre cientistas lunares, com suas intenções ocultas, e o governo terráqueo, chegamos a um desfecho em que o futuro é posto em xeque e várias questões científicas hoje sem resposta encontram hipóteses bastante plausíveis que poderiam explicá-las.

Será que algum dia nos defrontaremos com a chance de encontrar respostas como estas? Atingiremos o status de deuses capazes de encontrar, senão soluções definitivas, pelo menos atalhos engenhosos para escapar das limitações das leis físicas do nosso universo?

O romance Os Próprios Deuses, enfim, é uma magnífica demonstração do gênio inventivo de Asimov e da sua capacidade de imaginar e criar universos instigantes e fantásticos.