Os Filhos de Húrin: o acréscimo ao universo de Tolkien

Gustavo Kaspary
Por Gustavo Kaspary
14/08/2015

Filhos de HurinChega um momento na vida dos fãs de J. R. R. Tolkien em que qualquer simples frase sobre seu universo é de grande importância. Não pela escassez de informação sobre a Terra Média, que, garanto, aparece em grande quantidade em suas obras, mas sim pela vontade de sempre querer saber mais sobre determinado personagem ou lugar que os livros do autor despertam.

Há diversos fragmentos de histórias que podemos encontrar em Contos Inacabados, mas estas são repletas de intervenções por parte de Christopher Tolkien, o que tira grande parte do “romance heroico”, como descrito no prefácio do livro. Os Filhos de Húrin, o mais novo romance de J.R.R. lançado por Christopher, porém, apresenta uma escrita sem intromissões, reta e com uma quantidade admirável de novas informações.

A trama concentra-se, principalmente, na maldição que o Senhor do Escuro lança sobre os filhos de Húrin, o homem que ousou desafiá-lo frente a frente. Tal maldição molda o caráter de Túrin, com o qual desvendamos Beleriand em sua jornada para escapar de um destino de destruição e ódio proporcionado por Melkor. A história se passa na Primeira Era, logo após a Quinta Batalha e a queda de Fingon.

Primeiramente, “Os Filhos de Húrin’’ já apresenta no primeiro capítulo a infância de Túrin, o que serve de acréscimo ao caráter deste personagem que é inserido com poucas descrições em O Silmarillion.  Tamanha é a soma de detalhes e desenvolvimento de Túrin no livro que o personagem se torna um dos mais interessantes das Três Eras. Não é, contudo, difícil se apegar a esta figura misteriosa, já que o livro toma como objetivo focar em Túrin e deixa os outros personagens como meros secundários na jornada do filho de Húrin. Algo que não é injusto, afinal, pois os elfos e homens deixados de pano de fundo encontram seus momentos em outras histórias separadas, logo, a existência deles nesta história funciona de forma curiosa, vista pelos olhos de outro personagem.  Com essas novas informações, as ações e o caráter de Túrin se tornam muito mais plausíveis e, se na história resumida encontrada no Silmarillion a seriedade do personagem parece não ter razão, aqui compreendemos cada amostra de orgulho e honra, arrogância e incerteza.

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Após o primeiro capítulo, que, por sua quantidade de complementos, já vale a leitura de “Os Filhos de Húrin”, a história parte para A Batalha das Lágrimas Sem Conta, um dos maiores confrontos da Primeira Era.  No Silmarillion, esta tentativa de acabar com o reinado de Melkor é descrita através dos elfos em sua grandiosidade e vista de maneira fria como apenas mais uma batalha a ser travada. Já no livro que foca na casa de Hador e dos Edain, A Batalha das Lágrimas Incontáveis é contada pela visão e expectativas de Húrin, vassalo de Fingon e pai de Túrin. Nestas preciosas páginas, o sentimento de tensão e medo prevalece, dando um tom mais humanizado para a história. Vale ressaltar que esta completa interpretação através dos homens é encontrada apenas em ‘’Os Filhos de Húrin’’.

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“Muitas canções ainda são entoadas e muitas histórias ainda são contadas pelos eldar sobre a Nirnaeth Arnoediad, a Batalha das Lágrimas Sem Conta, na qual tombou Fingon e feneceu a flor dos eldar. Se tudo fosse recontado agora, o tempo de vida de um homem não bastaria para ouvir”

E há, como não poderia faltar, as descrições. E é nesta parte que os acréscimos se tornam mais interessantes, pois as paisagens de Beleriand, que antes tinham sido apenas citadas, agora são descritas na forma mais tolkieniana possível: não são poucas as vezes em que os detalhes que Tolkien nos proporciona formam uma imagem plena e clara em nossa imaginação. E, devo frisar, esses detalhes dos locais da Terra Média são fundamentais para o entendimento completo do livro e se tornam fáceis de compreender com o auxílio do mapa. Ainda por cima, para aqueles que ainda consideram as obras de Tolkien um tanto maçantes por causa das excessivas descrições, há os belos desenhos de Alan Lee, que se encaixam perfeitamente no teor da história.

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Por fim, “Os Filhos de Húrin” é uma obra indispensável para os fãs de Tolkien, não só por ser recheada de informações novas e importantes apêndices para a mitologia da Terra Média, mas também por tratar a história de Túrin Turambar como uma narrativa contínua, sem notas que se intrometam e acabem com a continuidade da história. É um livro que, sem dúvida alguma, é de vital importância na construção do personagem Túrin e deste rico universo.

PS: Infelizmente, no livro, a tradução de dwarf ficou anano ao invés de anão. A desculpa para tal feito foi a de que, em vez de dwarfs, o plural de anões nas obras de Tolkien é dwarves. Para os já habituados com o termo anão, é impossível não sentir na pele a estranheza que o termo é capaz de trazer.