Os Contos Fantásticos de Guy de Maupassant

Ana Melo
Por Ana Melo
07/05/2015

guy-de-maupassant-contos-fantasticos-capaApreensão, incerteza, aflição e medo são alguns dos sentimentos que o livro Contos Fantásticos: O Horla e outras histórias desperta. A obra, organizada e traduzida por José Thomaz Brum e publicada pela L&PM, reúne 11 histórias (dentre elas, duas versões de “O Horla”) de Guy de Maupassant, considerado um dos pais do conto moderno.

Maupassant foi um autor francês do século XIX que, em seus mais de 300 contos, abordou diferentes temas da época, desde o cotidiano da burguesia até sua experiência na guerra. Ele se destacou na literatura fantástica, escrevendo histórias de suspense, com elementos sobrenaturais e um quê psicológico.

Os contos do livro relatam histórias em que as personagens se veem diante do sobrenatural. Eles frequentemente questionam sua sanidade e ficam obcecados com um suposto ser invisível ou com um acontecimento estranho, por exemplo. Uma das ideias mais interessantes do livro é a do Horla, que aparece em dois contos, um deles com duas versões diferentes.

“Enganamo-nos julgando o Conhecido, e estamos cercados pelo Desconhecido inexplorado. Logo, tudo é incerto e apreciável de maneiras diferentes. Tudo é falso, tudo é possível, tudo é duvidoso.”

Esse trecho, do conto “Carta de um Louco”, resume bem a ideia do livro. No conto, o narrador conversa com seu médico, pedindo ajuda, pois percebeu a subjetividade dos sentidos humanos e, assim, passou a duvidar de tudo que antes considerava realidade. Ele fala sobre as falhas às quais os órgãos são suscetíveis e do pouco que eles nos revelam. Argumenta, ainda, que com alguns órgãos a menos “ignoraríamos coisas admiráveis e singulares, mas se tivéssemos alguns a mais, descobriríamos em torno de nós uma infinidade de outras coisas de que nunca suspeitaremos por falta de meios de constatá-las”.

No decorrer do conto, o “louco” relata que ouvira estalos em sua casa e suspeitava de que não estivesse sozinho. Ele conta que ficou aguardando a presença se um ser invisível e, por fim, o encontra: o narrador olha para o espelho e não vê sua própria imagem. O “Invisível” estava lá.

Maupassant explora ainda mais essa ideia em “O Horla”. O conto tem duas versões, que variam na maneira de narrar a história. A original é um doutor apresentando a outros médicos o paciente, que relata seu caso, enquanto a segunda é escrita na forma de um diário.

O protagonista de “O Horla” é um homem de 42 anos, que morava às margens do rio Sena, em uma grande casa, apenas com seus criados. Ele tinha dificuldades para dormir; primeiro, insônia, depois, um sono péssimo. Uma “terrível sensação de um peso esmagador sobre o peito e de uma boca sobre a minha, que bebia a minha vida por entre os lábios”, descreve ele. Logo, começou a perceber que fenômenos inexplicáveis aconteciam quando ele dormia.

O narrador enchia uma jarra de água à noite e, quando acordava, ela estava vazia. Ele trancou as portas e janelas e fez vários testes para então confirmar que, realmente, não era ele que o estava fazendo e tampouco poderia alguém entrar em seu quarto.

Os acontecimentos misteriosos continuavam. As comidas que deixava em seu quarto desapareciam durante a noite – sempre líquidos pouco consistentes –, e objetos flutuavam e se quebravam sozinhos. O protagonista enlouquecia com tudo aquilo, e temia cada vez mais esse ser invisível que passou a chamar de “Horla”. E, por fim, o viu pelo espelho, como no final do outro conto.

A segunda versão do conto é mais extensa e, por ser escrita em forma de diário, mostra bastante a angústia e a perturbação do protagonista, com reflexões como em “Carta de um Louco”. Além disso, o narrador vê o Horla não só como uma ameaça para si, mas como um sucessor do ser humano. “Um novo ser! Por que não? Ele deveria vir, certamente! Por que seríamos os últimos?”

guy-de-maupassantGuy de Maupassant faleceu em 1893, internado em um hospício, após uma tentativa de suicídio. O escritor tinha sífilis e, nos últimos anos de sua vida, a doença se agravara e trouxera complicações também para o cérebro. Muitos autores consideram que os contos e as personagens perturbadas são reflexos das desilusões do próprio Maupassant.