O Sol Desvelado: Asimov retorce as leis da robótica

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
18/10/2017

osoldesveladoSegundo livro da chamada “Trilogia dos Robôs” de Isaac Asimov, o romance O Sol Desvelado (publicado no Brasil pela Editora Aleph) dá sequência à história iniciada em As Cavernas de Aço, que trata dos rumos da humanidade num contexto futuro em que, por razões diferentes, tanto a Terra quanto as colônias espaciais estão estagnadas no seu desenvolvimento.

Novamente protagonizado pelo humano Elijah Baley e pelo robô Daneel Olivaw, o livro também repete o formato de romance policial, com a diferença de que, desta vez, o crime investigado pela dupla de detetives ocorreu não na Terra, mas no planeta Solária.

A viagem ao longínquo planeta dá a Asimov o ensejo para discutir as diferenças entre o modelo de sociedade dominante na Terra (o de uma coletividade rígida, agorafóbica e autocentrada, reclusa em gigantescas cidades subterrâneas, como é descrito em As Cavernas de Aço) e o modelo solariano, altamente individualista, a ponto de os cidadãos do planeta desenvolverem um tipo oposto de de fobia: o medo do contato físico com outros humanos.

Veja também:

> As Cavernas de Aço e a vocação da humanidade

Esta série de livros tem presente a reflexão das personagens terráqueas (representadas por Baley) sobre o seu próprio desenvolvimento e a necessidade de lançar ao espaço uma nova onda colonizadora para superar o risco de desaparecimento tanto da civilização humana na Terra quanto do modo de vida dos “Siderais”, como são chamadas as colônias humanas da primeira onda exploratória. Por isso é importante o choque cultural entre o investigador terráqueo e os habitantes de Solária.

A característica mais marcante de Solária é a sua dependência dos robôs para manter a economia funcionando. A sociedade solariana, que adotou um rigoroso controle de natalidade, tem uma proporção de 10 mil robôs positrônicos para cada humano, o que escandalizaria qualquer terráqueo, pois na Terra os robôs são vistos com extrema desconfiança.

Asimov também aproveita o romance, como é de praxe em suas obras, para rediscutir e reavaliar suas célebres Três Leis da Robótica, o dispositivo de segurança implantado em cada cérebro positrônico para impedir que os autômatos representem um perigo para os seres humanos.

Um ponto que chama a atenção neste livro é o modo como o dispositivo de segurança pode ser, de certa forma, prejudicial ao funcionamento dos robôs e oferecer risco, em certa medida, aos próprios humanos. Por exemplo, os robôs solarianos acabam ficando tão temerosos de desobedecer à primeira lei (a de não ferir um ser humano) que revelam-se incapazes de fazer uma cirurgia, já que cortar um corpo seria visto por eles como “ferir” a pessoa. Assim como outras atividades que ofereçam qualquer risco à integridade física de uma pessoa e que um robô não conseguiria desempenhar por… medinho. E até presenciar um assassinato poderia, veja só, fazer um autômato com cérebro positrônico “morrer” de desgosto. Usando o jargão chulo da minha terra, os robôs solarianos me parecem uns grandessíssimos bundas moles.

O mais interessante de O Sol Desvelado é ver como autor torce, retorce e estica as três leis para tentar responder a pergunta: será possível lançar mão de uma artimanha para fazer com que robôs cometam um assassinato sem querer? Ou a vítima solariana foi morta por um outro humano?

O desfecho da investigação de Baley revela a engenhosidade de Asimov para imaginar desdobramentos para o universo que criou. E a temporada em Solária ajuda Elijah Baley a buscar o entendimento necessário à resolução do problema da estagnação da civilização terrestre.