O Senhor das Moscas e o bicho dentro de nós

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
09/09/2015

Já imaginou como seria se pudéssemos recriar a civilização noutro lugar, a partir de um grupo de crianças ainda não totalmente corrompidas pelos nossos piores vícios?

Em O Senhor das Moscas, de 1954, William Golding nos apresenta um dos possíveis desdobramentos dessa premissa, ao narrar o estabelecimento de uma sociedade utópica após a queda, em uma ilha paradisíaca do Oceano Pacífico, de um avião que transportava meninos ingleses em fuga de uma guerra nuclear, em um tempo incerto.

Sem adultos sobreviventes, os jovens estudantes passam a viver num microcosmo em que são refundadas, de modo alegórico, algumas das bases da nossa civilização.

Três personagens se destacam no romance: Ralph, o belo, que representa o poder estatal constituído; Jack, o forte, que personifica a belicosidade, a selvageria, a diversão; e Porquinho, o odiado, símbolo da intelectualidade, que, por sua aparência física grotesca e retórica irritante, é desprezado por todos – menos, em certa medida, por Ralph, que se usa da inteligência do gordinho para governar.

A formação de um Estado é um dos primeiros acontecimentos após a queda do avião e ocorre, sobretudo, por decisão de Porquinho: é ele quem vê, em uma linda concha branca encontrada na praia, o signo capaz congregar a comunidade e em Ralph a figura ideal para presidir a república de meninos – cabendo ao próprio Porquinho o papel de Eminência Parda.

Além da concha, tocada como uma trombeta por Ralph para convocar reuniões e segurada pelos oradores para garantir o direito de falar nessas assembleias, outros elementos na ilha reproduzem elementos da civilização de onde provêm os jovens estudantes:

– A fogueira, que deveria ficar constantemente acesa para fazer fumaça e chamar a atenção de algum navio que pudesse estar naquela parte do Pacífico. No microcosmo da ilha, a esperança de salvação depositada em um barco incerto vindo de algum lugar do mar infinito faz as vezes de religião. Os jovens vivem o constante dilema de se concentrar na vida na ilha, dedicados à caça e à diversão, ou sacrificar tempo e energia para manter acesa uma fogueira que pode, ou não, trazer a salvação.

– Os óculos de Porquinho, o único meio de acender a fogueira ao serem usados como lente, representam a técnica – uma técnica que pode ser roubada do intelectual, que se torna, assim, descartável.

– “Os pequenos”, as crianças menores, que não participavam das decisões do Estado e dedicavam o tempo na ilha a comer frutas e brincar na praia, e representam as massas que não se envolvem na política ou na definição dos rumos da sociedade.

– “O Bicho”, um animal imaginário que aterroriza os meninos e motiva caçadas e explorações na ilha – quando começa a se sobressair a força da liderança de Jack. O Bicho é uma alegoria para o demoníaco, o sobrenatural, o terror. Mais tarde, uma caveira de porco cravada em uma estaca pelos caçadores liderados por Jack (essa cabeça se revela O Senhor das Moscas que dá nome ao livro) fala ao menino Simon (definido por Porquinho como “louco”) e diz que o Bicho está dentro de cada um dos jovens da ilha. O Bicho é o Mal, que não pode ser destruído.

Jack, já líder dos caçadores, ganha cada vez mais influência, desafia a autoridade do Estado e reivindica a liderança formal sobre todos os meninos. Derrotado na arena democrática, ele rompe com Ralph e funda, em outra parte da ilha, uma tribo rival, que seduz a maioria dos jovens com a promessa de caça, diversão e proteção mútua – depois, seu Estado se revela uma ditadura cruel e militarizada.

spoiler-alerta

A tribo de Jack dizima o Estado de Ralph. Simon acaba morto em um ritual macabro da “dança da caça ao porco” (uma espécie de festim satânico), Porquinho é assassinado depois de ter os óculos roubados, os gêmeos Sam e Eric são coagidos a se juntarem ao bando e Ralph, isolado, passa a ser caçado por toda a ilha.

No final do romance, os “selvagens” (como Ralph define seus perseguidores) incendeiam toda a floresta para obrigar a sua presa a sair do esconderijo. Numa fuga desesperada dos assassinos sedentos de sangue, o líder deposto chega à praia e depara com a tripulação de um navio de guerra britânico, que chegou à ilha atraída pela fumaça do grande incêndio florestal.

A salvação de Ralph dos seus algozes poderia parecer um irritante Deus ex machina colocado lá só para livrar, miraculosamente, o personagem da morte, mas acaba sendo o desfecho perfeito para o livro, pois nos obriga a colocar a nossa civilização inteira em perspectiva e olhá-la com olhos de fora.

Assumindo-se que a ilha do livro é a Terra e os meninos são a humanidade, os marinheiros representam um Outro mais desenvolvido ou, no mínimo, mais poderoso – extraterrestres evoluídos ou deuses, por exemplo.

Imagine se, agora mesmo, a nossa praia global fosse visitada por uma nave de seres evoluídos e estes nos flagrassem numa perseguição de morte iniciada sem nenhuma causa minimamente razoável, que é o que acontecia com Ralph, que estava prestes a ser assassinado apenas para satisfazer a vontade de poder de Jack. Não pareceríamos crianças imaturas? Como explicar as irracionalidades do mundo a esses seres?

OK, talvez depois descobríssemos que esses ETs são, também eles, representantes de uma sociedade em guerra total – que é precisamente o caso dos marinheiros – e aí podemos imaginar o terror do comandante do navio ao chegar a uma ilha paradisíaca e ver crianças náufragas reproduzindo os mesmos erros do mundo dos adultos. Ou percebendo que as motivações da sua guerra não são muito diferentes das da guerra de Jack contra Ralph. Ao chegar à ilha incendiada, o capitão se vê diante de um espelho.

É… A caveira que falou a Simon tinha razão. O Bicho está em todos nós. E não pode ser morto.

[Escrevi este texto originalmente em 2013, para publicação em outro sítio, antes da fundação da Taberna]