O Salmão da Dúvida: as últimas palavras de Douglas Adams

Ana Melo
Por Ana Melo
25/05/2016

o salmao da duvida capaCada vez que um livro do Guia do Mochileiro das Galáxias é aberto pela primeira vez, que o número 42 é mencionado, que alguém coloca uma caneta na frente daquela lápide em um cemitério de Londres ou que o dia 25 de maio é comemorado, fãs e amigos de Douglas Adams revivem com carinho e admiração o autor. Mesmo quinze anos após sua morte, sua obra, seu humor e suas reflexões seguem bastante atuais, e o livro O Salmão da Dúvida foi mais uma maneira de preservar sua memória e de conhecer melhor o universo do autor.

O livro reúne artigos e entrevistas de Adams para jornais e revistas, capítulos do terceiro volume inacabado da série Dirk Gently, a íntegra de uma palestra sobre a existência ou não de Deus e um conto sobre Zaphod Beeblebrox. Os textos foram reunidos, conforme conta no prefácio Peter Guzzardi, editor de Adams, a partir de um CD que continha mais de 2500 arquivos, de anotações a íntegras dos livros do Guia. Assim, Guzzardi, com a ajuda de outras pessoas próximas ao autor, “separou o joio do trigo”, como ele mesmo descreve, e deu origem à obra de trezentas páginas, dividida em três partes: “A vida”, “O universo” e “E tudo mais”. No Brasil, o livro foi lançado em 2014, no Dia da Toalha, pela Editora Arqueiro.

Um dos destaques, em O Salmão da Dúvida, é a versão inacabada do terceiro livro da série do detetive Dirk Gently. Quando Dirk percebe que está recebendo, em sua conta no banco, um dinheiro do qual não sabia, ele decide honrar o cliente desconhecido e passa a seguir um homem qualquer. A investigação o leva a uma série de acontecimentos estranhos, no nosso conhecido estilo nonsense e sarcástico, envolvendo uma viagem aos Estados Unidos e, bem, um rinoceronte chamado Desmond. Embora eu não tenha lido os outros livros de Dirk Gently – mas, depois desse, certamente lerei -, posso afirmar com alguma segurança que mesmo quem os leu não estaria tão menos perdido do que eu, especialmente no que diz respeito ao rinoceronte.

Vale ressaltar, no entanto, que a história foi formada a partir da combinação de diferentes arquivos encontrados por Peter Guzzardi, dos quais o editor escolheu as melhores partes e ordenou-as na ordem que julgou que mais fizesse sentido, a partir de um resumo escrito por Adams. Em uma entrevista que também foi publicada em O Salmão da Dúvida, Adams afirma que várias das ideias “tinham muito mais a ver com o Mochileiro do que com Dirk Gently” e, ainda, para nossa frustração e tristeza, que pretendia escrever um sexto livro de sua série mais famosa. Contudo, ainda que o conteúdo possa não ser exatamente como o autor pretendia e que a história tenha ficado um tanto sem conclusão, é sempre válida mais uma leitura por Douglas Adams.

Nesse sentido, o conto Perfeitamente Seguro, protagonizado por Zaphod Beeblebrox, é outro destaque do livro, já que encontramos, mais uma vez, um personagem adorado da “trilogia”. Zaphod, juntamente com sua equipe da Companhia de Resgate e Paradas Muito Radicais Beeblebrox, procura uma nave afundada em um oceano de um planeta cujos habitantes têm um interesse particular por lagostas.

douglas adams

Para mim, entretanto, o mais interessante do livro foram as crônicas e artigos, que me permitiram conhecer melhor o autor, sua vida e suas opiniões. O estilo e o humor de Douglas Adams tornam divertidos assuntos banais, como os cachorros que conheceu em Santa Fé ou o descontentamento com seu nariz. Além de textos cômicos, o livro também apresenta questões interessantes sobre a tecnologia, assunto pelo qual o escritor se interessava muito, e o ateísmo, entre outros temas. Assim, com reflexões, piadas e lembranças, O Salmão da Dúvida é um verdadeiro passeio pela mente única e brilhante de Douglas Adams.