O Poço e o Pêndulo: o conto de Poe sobre a persistência do homem

Gustavo Kaspary
Por Gustavo Kaspary
02/05/2016

Dentre os contos de Edgar Allan Poe, “O Poço e o Pêndulo” está entre os que mais causam agonia e incômodo ao leitor.

O narrador começa relatando o caminho até o calabouço. Ambiente, este, sem iluminação nenhuma e que deve ser descoberto ao tatear de informações, tanto pela personagem quanto pelo leitor. Não se sabe em nenhum momento o que exatamente está esperando naquele lugar, mas uma vez que o narrador, remontando os fatos que o levaram até ali, lembra-se de um julgamento, algo o espera. Nas primeiras páginas do conto,  há a tentativa de descoberta com a intenção de despertara sensação de que algo vai acontecer, só não se sabe quando ou o quê.

“Eu temia o primeiro olhar para os objetos à minha volta. Não era que eu temesse olhar para coisas terríveis, mas que me sentisse horrorizado de que não haveria nada para ver. Por fim, com um desespero impensado no coração, rapidamente abri os olhos. Então, meus piores pensamentos foram confirmados. O negrume da noite eterna me envolvia.”

historias-extraordinariasO simbolismo característico de toda a obra de Poe está presente, mas de maneira mais moderada: preza-se, aqui, o desespero, sem precisar tocar nos temas da metafísica humana, como acontece em grande parte dos principais contos. E, partindo desse objetivo, é plausível que o conto trate sobre a Inquisição e tortura. Não que não haja o toque sobrenatural; ainda há aquelas escapadelas na história que servem apenas para discutir sobre onde está a alma enquanto a mente está inconsciente. Fogem totalmente do rumo da trama, como se o narrador estivesse tendo acessos de loucura enquanto escrevendo os relatos, mas dão ao conto um tom extraordinário.

Passado a parte de procura por informações, o conto passa a tentar aflição quanto à da impotência frente à morte. O narrador, preso e incapaz de se movimentar, está no caminho de um grande pêndulo que mais e mais se aproxima. Mesmo com a dificuldade de enxergar, nos explica a personagem, percebe-se a aproximação do pêndulo pela trajetória do vento e o assobio do movimento. Não se sabe ao certo, devido ao caráter pouco confiável do narrador, quanto tempo transcorreu até uma proximidade relativa do pêndulo. Minutos ou dias, diz o prisioneiro. A morte pode demorar a vir, mas é certa. Como se não bastasse, à medida que o pêndulo se aproxima, o ambiente fica repleto de ratos.

O pensamento do narrador frente à morte certa e seus raciocínios finais quando a consciência já está abalada são o cerne do conto. Pouco há para se fazer frente a tais circunstâncias, mas, como nos lembra em seus relatos derradeiros, “Era a esperança que impelia o nervo a tremer. Era a esperança – a esperança que triunfa no ecúleo – que sussurra para os condenados à morte, mesmo nos calabouços da Inquisição”.

“Para baixo, para baixo e constante, ele deslizava. Tive um prazer delirante em comparar sua velocidade de descida com sua velocidade lateral. Para a direita- para a esquerda- longo e largo- como o guincho de um espírito danado; chegando ao meu coração com o passo furtivo do tigre! Eu alternava risos e gritos à medida que esta ou aquela ideia predominavam.”

Se o prisioneiro-narrador acaba por descobrir uma maneira de escapar das garras da Inquisição, vós tereis de descobrir sozinhos. Peço que vos lembrais, porém, que se trata de um conto de Poe e que apenas vez que outra há, nas obras do escritor, um final que não seja depressivo, mas, ao mesmo tempo, surpreendentemente bom.