O Planeta dos Macacos: o alerta de Pierre Boulle

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
22/04/2015

A Editora Aleph acaba de lançar o livro O Planeta dos Macacos, de Pierre Boulle. Li a obra numa velha e amarelada tradução portuguesa da Editora Ulisseia, que pesquei em uma banca da Feira do Livro de Porto Alegre em 2003.

O livro de Boulle, publicado em francês em 1963, inspirou um dos filmes mais cultuados da ficção científica, o clássico homônimo estrelado por Charlton Heston em 1968 e que rendeu diversas sequências (e uns reboots várias décadas depois). Tornou-se célebre a cena (que não está no livro) em que o astronauta Taylor (personagem de Heston), último sobrevivente não-lobotomizado de uma missão que atinge um planeta distante controlado por uma sociedade de macacos racionais, encontra, na Zona Proibida, uma Estátua da Liberdade parcialmente enterrada na areia. Neste momento, ele e a plateia descobrem, assombrados, que aquele planeta é a Terra, devastada por uma guerra nuclear, e aqueles macacos falantes tinham suplantado a humanidade como espécie dominante.

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O romance também desenvolve a premissa de um astronauta humano, Ulisses Mérou, que desembarca em um planeta governado por macacos, mas a intenção de Boulle não é escrever um libelo contra a corrida armamentista e sim estabelecer uma alegoria a partir da qual é possível discutir diversos elementos da cultura moderna.

O caráter alegórico é mostrado já no início do livro: o relato de Ulisses chega ao leitor por meio de uma garrafa (repetindo: uma GARRAFA) apanhada, depois de vagar pelo vácuo sabe-se lá por quanto tempo, por um casal de férias em uma espécie de  “veleiro” espacial.

O náufrago Ulisses diz ter partido em viagem até a órbita de Betelgeuse no ano 2500. Ele, jornalista, acompanhava o professor Antelle e seu discípulo Artur em uma expedição científica. O fio condutor é o mesmo do filme de 1968: a nave chega a um planeta muito semelhante à Terra, onde seres humanos incapazes de falar são oprimidos por macacos conscientes e falantes. Assim como no filme, a diferença entre Ulisses e os humanos involuídos do planeta chama a atenção de políticos e cientistas símios e ele se torna ao mesmo tempo objeto de curiosidade científica e um perigo para o status quo.

planeta-dos-macacos-alephBoulle explora esse enredo para criticar a sociedade humana pós-Revolução Industrial. A arqueologia do planeta dos macacos revela que lá uma humanidade decadente foi suplantada por símios não como consequência da guerra, mas por sua própria incapacidade de continuar evoluindo.

O autor faz uma reflexão sobre a nossa própria cultura. Um mundo de relações sociais e produtivas que primam pela reprodução irrefletida e que prescindem da originalidade e do impulso criador está fadado a se tornar um mundo de macacos.

O alerta do autor é bem claro: nós somos os macacos – ou, pelo menos, é assim que nos parecemos quando deixamos de lado a criatividade e a inovação. A odisseia de Ulisses Mérou motiva diversas reflexões sobre o que nos faz humanos, sobre os rumos da civilização moderna e sobre o sentido da técnica. Vale muitíssimo a leitura.