O livro O Cemitério: Stephen King nos guia pela tortuosa trilha da morte

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
27/06/2019

[Texto livre de spoilers]

Clássicos são clássicos. Estão na prateleira para serem relidos, citados, discutidos e imitados por décadas. O livro O Cemitério (Pet Sematery, atualmente editado no Brasil pela Suma de Letras), lançado pelo mestre Stephen King em 1983, é um desses clássicos da cultura pop. Adaptada ao cinema em 1989 e 2019 (ambos os filmes foram lançados por aqui com o título “Cemitério Maldito”), a obra de King já nasce cinematográfica mesmo enquanto peça escrita, dada a riqueza com que o autor insere o leitor no cenário dos macabros episódios vividos pela família do Dr. Louis Creed em Ludlow, Maine. Um passeio pelos sombrios bosques do horror, por cujos caminhos a narração onisciente nos guia pela mão.

O romance é dividido em três partes, cada uma mais densa e assustadora que a anterior, e esses estágios servem para ditar o ritmo da ambientação do leitor na espiral de dor e medo em que se converte, em velocidade paulatinamente acelerada, a vida do protagonista. 

Elementos, vamos dizer, intrigantes já estão presentes desde o início do romance: a chegada da família de Creed a sua nova casa no interior do Maine, em terreno contíguo a terras de densas e antigas florestas reivindicadas pelos índios micmac; a perigosa estrada rural margeada pela casa dos Creed e trafegada por enormes caminhões de uma empresa de nome por si só sinistro – Orinco; a gentil – mas um tanto misteriosa – presença de Judson Crandall, o octogenário vizinho cheio de histórias sobre a região. Mas o primeiro elemento a insinuar uma ponte com o sobrenatural na trama é a intrigante trilha de chão batido que parte dos fundos da casa da família Creed e leva a um aparentemente singelo Cemitério de Animais erigido em uma clareira. O modo como Jud Crandall se refere ao lugar e à importância do “simitério” para as crianças da redondeza sugere que há algo mais além do inocente sepultamento de bichinhos de estimação.

O Cemitério é um livro sobre a morte e, sobretudo, sobre o medo e o mistério que a cercam. O protagonista da narrativa, o Doutor Louis Creed, médico que se muda de Chicago para Ludlow para assumir o comando da enfermaria da Universidade do Maine, faz as vezes do advogado da ciência na história. É um profissional da saúde para quem o duelo com a morte é trivial, e que, por ter um tio proprietário de empresa funerária, tem uma camada extra de verniz de banalização e normalização da questão. Já sua esposa, Rachel, tem uma história de vida marcada pela perda, na infância, da irmã Zelda, que morreu de meningite raquidiana após um longo período de sofrimento, incutindo-lhe um pavor da morte e dando um status de terrível tabu a tudo relacionado ao fim do ciclo da vida. 

À medida que o autor embrenha seu protagonista nas profundezas escuras da mata ancestral do Maine, com avisos sinistros e enervantes premonições de que algo terrível está por acontecer, tanto Louis Creed quanto o leitor querem mais, buscam mais. Mais conhecimento sobre o que há do lado de lá da funesta barreira de velhos troncos que separa o “Simitério” de Bichos da floresta micmac, mais respostas para a ligação entre o terrível passado de Rachel e o sinistro futuro da sua família, mais alívio para a dor da perda.

King, um mui hábil contador de histórias, usa a forma como conteúdo: pela maestria com que narra a jornada das personagens, desperta no leitor profundo medo sem necessitar lançar mão de jogadas fáceis como monstros assassinos e exércitos de zumbis. Sentimos medo do próprio medo, e a cada instante a narração nos dá pistas sutis de que terríveis acontecimentos nos aguardam nas páginas subsequentes, aumentando a tensão. Essa relação é evidenciada pelo próprio tamanho da parte final, aquela em que as portas do inferno pessoal de Louis Creed são enfim escancaradas e todas as aterrorizantes consequências das suas ações ao longo do livro caem-lhe sobre os ombros. Esta parte derradeira é muito menor, em termos de extensão, que as seções anteriores de O Cemitério, e com isso o autor esclarece sua escolha narrativa: o mais importante do livro não é o encontro cara a cara com os horrores da morte, mas sim a preparação para esse encontro. 

O Cemitério, enfim, não é um romance sobre o cemitério em si, mas sobre aquela tortuosa trilha que nos leva até lá. Um livraço. Para ler e reler toda vez que quisermos sentir aquele arrepio diante do desconhecido.