O livro Leviatã Desperta, da saga The Expanse: “uma puta space opera”

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
08/05/2019

[TEXTO LIVRE DE SPOILERS]

Quando lançou no Brasil o livro Leviatã Desperta (Leviathan Wakes), de James S.A. Corey, a Editora Aleph escolheu colocar na capa, à guisa de incentivo à compra pelo potencial leitor, a seguinte frase de George R.R. Martin sobre a obra: “Uma puta space opera”.

No imenso guarda-chuva conceitual das ramificações e sub-gêneros que compõem a literatura de ficção científica, o termo “space opera” comumente diz respeito àquelas grandes epopeias e aventuras espaciais, tramas complexas em que o destino de sistemas estelares e galáxias é decidido pelo choque de grandes heróis e vilões.

No caso de Leviatã Desperta, Corey apresenta essa trama não no contexto de um Império Galáctico, como ocorre, por exemplo, nas sagas Duna e Fundação, mas sim em uma “vizinhança” próxima no tempo e no espaço. O capítulo inicial da série literária The Expanse se passa durante a colonização do Sistema Solar pela humanidade, cerca de dois séculos adiante da nossa era.

O autor também aproximou de nós, meros plebeus, o ponto de vista da narrativa: o protagonismo de Leviatã Desperta não está em grandes comandantes militares nem em políticos poderosos, mas em pessoas a princípio anônimas, em torno de cujas ações o futuro de todo o Sistema Solar é decidido.

DUALIDADE NARRATIVA

Já que mencionamos George R.R. Martin, utilizado pela editora como garoto-propaganda do livro de Corey, cabe dizer que Leviatã Desperta é uma história contada de modo semelhante à adotada pelo autor d’As Crônicas de Gelo e Fogo: cada capítulo traz no título o nome do protagonista e nele a narrativa é filtrada pelo ponto de vista dessa personagem. Mas, enquanto Martin usou-se da perspectiva de várias figuras para narrar a Guerra dos Tronos, o livro de Corey centra-se em apenas dois polos: o astronauta terráqueo James Holden e o detetive Miller, nascido e criado em Ceres, no Cinturão de Asteroides.

A série televisiva The Expanse, que popularizou a obra de Corey, insere diversas personagens que aparecerão em livros seguintes e nos coloca, desde o início, dentro das salas de comando e nos bastidores das disputas internas das Nações Unidas, da República Constitucional Marciana e da Associação dos Planetas Exteriores (APE), mas em Leviatã Desperta os players institucionais aparecem apenas como pano de fundo, pelos efeitos e repercussões de decisões que não acompanhamos. Trata-se de uma space opera focada no populacho, em como as grandes reviravoltas e colisões de interesses poderosos impactam nas vidas de pessoas comuns.

Marte e a Terra, as duas mais poderosas forças da geopolítica no romance de Corey, estão distantes do centro dos acontecimentos. A trama de Leviatã Desperta é tecida nos Planetas Exteriores, sobretudo o Cinturão de Asteroides. Miller, um dos nossos protagonistas, é um “cinturino” (“belter”, no original), com a mente e o corpo moldados pela vida em baixa gravidade: na saga The Expanse a humanidade está dividida em duas castas com corpos diferentes, e os centurinos são uma etnia adaptada à vida no espaço (e incapaz de viver nos “poços de gravidade” que são os grandes planetas), um povo explorado pelas potências dos Planetas Interiores, gerando tensão e ressentimentos.

O detetive Miller, que trabalha na corporação terráquea responsável pela segurança de Ceres, é, ele próprio, um dos elementos de que Corey se usa para expor esse apartheid, e Havelock, seu parceiro terráqueo iniciante no posto, é o componente de estranhamento que representa o leitor na descoberta do curioso (e bem construído pelo autor) modo de vida no Cinturão.

O protagonismo de Miller e do seu ofício no livro evidencia também que a dualidade narrativa de Leviatã Desperta não está apenas na divisão de pontos de vista com o outro protagonista (Holden), mas também na combinação de estilos literários. Os capítulos de Miller, pelo menos no início, são uma ode ao romance policial, enquanto os de Holden são uma aventura espacial.

As jornadas de herói de Miller e Holden, o primeiro fazendo as vezes de anti-herói e o segundo, de um herói clássico, acabam se cruzando mais adiante, quando a investigação do detetive sobre o paradeiro de Julie Mao, uma rica herdeira criada na Lua e desaparecida no Cinturão, se coaduna à cruzada do jovem capitão e da sua pequena tripulação para encontrar e punir os culpados pela destruição do cargueiro Canterbury, tudo isso em meio a uma Guerra Fria – que esquenta ao longo do livro – entre Marte, Terra e APE, um conflito que coloca em risco a própria exploração do Sistema Solar.

UM SONHO POSSÍVEL

Hoje, cinquenta anos após o pouso pioneiro de Neil Armstrong e Buzz Aldrin na Lua, parecemos, por paradoxal que seja, mais distantes de colonizar Marte do que estávamos em 1969.

Apesar da ambição de Wernher von Braun, que projetou o titânico foguete Saturno V pensando em voos mais ousados e jamais se contentou em levar a humanidade apenas até a Lua, o congelamento de grandes projetos extraplanetários e o foco, por décadas, no investimento na exploração de órbita baixa nos afastou do sonho de chegar aos planetas exteriores com missões tripuladas, um interesse que vem sendo reavivado nos últimos anos.

O livro Leviatã Desperta desenvolve, com maestria, o plot de colonização do Sistema Solar. O estabelecimento da humanidade em Marte e em seguida em asteroides, planetoides, satélites naturais e estações artificiais é contado de forma realista e crível, com respeito à ciência e com uma tecnologia verossímil.

O comércio, a guerra e o trânsito das personagens por colônias tão distantes uma das outras só é possível graças a um elemento introduzido por Corey: o motor Epstein, um salto tecnológico dado por acaso, como é característico de tantas descobertas na história da ciência, por um engenheiro marciano. Otimizando o consumo de combustível e permitindo às naves atingir velocidades hoje inimagináveis, os motores Epstein (muito melhores os modelos anteriores “de tocha”) são a base tecnológica da colonização do Sistema Solar na saga The Expanse, e a poderosa força de impulsão tem o salutar efeito colateral de produzir gravidade artificial a bordo das naves, o que torna a vida no espaço muito mais suportável para as personagens de um jeito verossímil. Os motores Epstein tornaram próximos e atingíveis os asteroides e sua riqueza de minérios, permitindo a grande “expansão” da humanidade, que dá nome à saga.

Apesar dessa riqueza de elementos técnicos bem amarrados por Corey, uma space opera digna do nome não se sustentaria calcada apenas na ciência, sem uma pitadinha de desconhecido e assombroso. Leviatã Desperta não é uma história (apenas) sobre a colonização do espaço. É, sobretudo, uma história sobre o encontro da humanidade com a vida alienígena, representada nas páginas do livro pela “protomolécula”, uma substância aparentemente inteligente descoberta em Phoebe e que acaba se revelando o foco de poderosos interesses corporativos por trás da Guerra Fria pela hegemonia do Sistema Solar.

TEMAS TRANSVERSAIS

A trama de Leviatã Desperta é um pano de fundo para que Corey discuta diversos elementos da nossa cultura. Estão lá, bem presentes, questões sobre racismo e apartheid social (o tratamento dado aos cinturinos pelos planetas interiores), terrorismo, colonialismo, o poder das corporações na política.

Uma questão que aparece, mais como forma do que como conteúdo, pelo menos neste primeiro livro da saga The Expanse, é a questão de gênero. Em Caliban’s War, o livro seguinte, surgem protagonistas femininas, mas Leviatã Desperta é um livro sobre homens, narrado do ponto de vista de homens.

Até mesmo a jovem Julie Mao, cujo desaparecimento é um dos centros da narrativa e que é descrita como uma mulher forte e independente, aparece no livro como um “objeto de desejo” de Miller, que se apaixona por ela à medida que investiga o seu paradeiro, num caso clássico de idealização romântica. Naomi Nagata, a oficial-executiva do capitão Holden, tem muito potencial como personagem e também poderia ter sido melhor explorada, mas acaba virando mero interesse romântico do herói.

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Com todos esses elementos bem trabalhados (descontado um ligeiro viés sexista), o livro Leviatã Desperta é uma bem-vinda novidade no gênero, e a saga The Expanse faz por merecer o epíteto de “puta space opera” cunhado por George Martin, consolidando-se como uma das mais interessantes e instigantes séries literárias de sci-fi da atualidade.