O livro Kenobi: quando Star Wars e o Western se encontram

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
07/01/2019

O livro Kenobi, de John Jackson Miller (publicado no Brasil pela Editora Aleph), é uma interessante releitura western do universo de Star Wars. Ao acompanhar o dia a dia do cavaleiro Jedi Obi-Wan (ou melhor, agora apenas Ben) Kenobi em Tatooine, logo após os eventos do Episódio III, o autor utiliza os elementos clássicos de uma narrativa de faroeste para imaginar como seria o pouco abordado modo de vida dos fazendeiros de umidade do planeta natal dos Skywalker.

livro kenobi star wars(Pequena digressão: Kenobi traz na capa o selo Legends, o que significa que a história não pertence ao cânone oficial da Disney e os eventos do livro podem ou não ter acontecido dentro da grande narrativa de Star Wars: são lendas. Pessoalmente, não dou a mínima para isso, pois um canon é sempre apenas uma afirmação de poder institucional e boas histórias são sempre boas histórias, independente de os donos da bagaça darem o aval ou não. Para ler um post que trata dessas questões mais demoradamente, clique no link: Star Wars: o universo e o canon).

Voltando ao nosso livro: Tatooine, como demonstrou Miller, é o cenário perfeito para uma adaptação em estilo Velho Oeste, uma analogia que já apareceu, en passant, nos próprios filmes de Star Wars. Os principais elementos do Western estão lá: a ambientação em um lugar inóspito e distante dos centros de poder e, portanto, à margem da lei e do Estado; a constituição de microcomunidades de pioneiros em um conflito particular com as duras condições de vida do ambiente (no caso de Tatooine, os fazendeiros de umidade); a tensão violenta entre esses pioneiros e os povos nativos (aqui, o Povo de Areia, fazendo as vezes das tribos indígenas nas histórias de faroeste); a cidade local como um lugar de brutalidade e crime.

No livro Kenobi, acompanhamos a chegada de Obi-Wan ao planeta desértico, pouco depois de esquartejar Anakin Skywalker em Mustafar e dar um destino aos filhos gêmeos recém-nascidos do seu ex-aprendiz: Leia é adotada por Bail Organa, de Alderaan, enquanto Luke é deixado com os seus parentes Lars numa fazenda de umidade de Tatooine.

Após cumprir essa última missão, e sem muito o que fazer numa galáxia em que os Jedi foram dizimados e sua própria cabeça está na mira do Império, Kenobi decide se estabelecer a uma distância razoavelmente segura da fazenda dos Lars, tanto para colocar os pensamentos em ordem quanto para proteger o pequeno Luke. Ao reformar para si uma choupana no meio do nada, Ben acaba se envolvendo no dia a dia de um entreposto comercial que é o cerne da vida social da redondezas: o mercado/restaurante/oficina da obstinada Annileen Calwell e seus filhos, um dos pilares da comunidade, ao lado do fazendeiro de umidade e empreendedor Orrin Gault, que tenta convencer os vizinhos a pagarem por um sistema de alarme contra ataques dos Tusken, o Povo de Areia.

tusaken povo de areia star wars

Os Tusken Raiders, o ardiloso Povo de Areia, aparecem nos filmes de Star Wars por um viés maniqueísta e sempre do ponto de vista dos colonizadores. São inimigos dos humanos e ponto. Já a narrativa do livro Kenobi nos insere em uma das tribos Tusken, onde conhecemos um pouco mais dessa coletividade, no caso, o cotidiano de uma tribo guerreira sob a implacável liderança de A’Yark, que vê no ataque aos fazendeiros da vizinhança de Ben uma forma de recuperar o orgulho perdido após a invasão dos humanos.

É nesse contexto que Ben Kenobi inicia sua vida em Tatooine: ele deseja se manter à margem das disputas e conflitos dos moradores locais (seja entre si, seja contra os Tusken), mas precisa ir ao armazém de Annileen em busca de suprimentos. Surge um óbvio interesse amoroso da matriarca (e ao mesmo tempo da sua filha Kallie) pelo enigmático forasteiro, e os obscuros interesses de Orrin Gault colocam em risco a sobrevivência de todos os colonos. Como o cavaleiro Jedi exilado conseguirá conviver com todas essas tensões sem revelar sua verdadeira identidade?

spoiler-alerta

Uma questão secundária na narrativa, mas que pode causar uma forte impressão no leitor, é a revelação da identidade de A’Yark, líder dos Tusken. Miller passa longos capítulos falando da liderança de A’Yark e dos seus audaciosos feitos, e só lá pela metade do livro o narrador nos conta que a chefe tribal é do sexo feminino.

Indicativo do machismo estrutural que nos faz aceitar tacitamente que líderes guerreiros são sempre homens, supomos desde o início que A’Yark é macho e nem reparamos que o autor não usa pronomes masculinos para descrevê-la. A revelação me deixou boquiaberto e me fez ver, uma vez mais, o quanto essa cultura patriarcal em que estamos inseridos determina nossa forma de ler o mundo.

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Em suma, o livro Kenobi, não importa que seja do selo Legends, acrescenta elementos interessantíssimos ao universo de Star Wars. A descrição do duro cotidiano dos colonos, o passeio pelos fluxos de consciência do Jedi relutante, a incursão na mitologia Tusken e nas relações desse povo com o planeta inóspito que habitam, o nosso retorno à caótica e perigosa Mos Eisley são um presente para os fãs da saga.

Leitura recomendadíssima.