O livro A 5ª Onda: velho sangue novo nos thrillers distópicos

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
21/01/2016

[TEXTO SEM SPOILERS – ou quase]

O livro A 5ª Onda, de Rick Yancey, é mais uma prova de que os adolescentes, definitivamente, são hoje o público preferencial das editoras quando o tema é sci-fi distópica.

Baixar-Livro-A-5-Onda-Quinta-Onda-Vol-1-Rick-Yancey-em-PDF-ePub-e-Mobi-ou-ler-onlineO romance (publicado no Brasil pela Editora Fundamento), que recria a figura do apocalipse zumbi – mas substituindo os mortos-vivos por extraterrestres -, é fiel às fórmulas consagradas de sucesso dos thrillers juvenis: uma protagonista-narradora adolescente, comum e sem notoriedade, que se torna, pela força das circunstâncias, uma poderosa guerreira e fêmea alfa; o mundo consumido por um cataclisma; a luta desigual contra uma estrutura tirânica; líderes que não são o que parecem ser – e, claro, um triângulo amoroso envolvendo dois outros mocinhos (ambos galãs, pois é consenso que heróis gordos e carecas atraem menos público). A história fica mais rica com a inserção de um segundo narrador – um dos jovens galãs -, o que permite a Yancey ampliar os núcleos dramáticos sem abrir mão da sua opção pela  narrativa em primeira pessoa (ainda que alguns breves trechos sejam em terceira pessoa).

O enredo de A 5ª Onda é simples e quase todos os conflitos nos são apresentados já nas primeiras páginas, que simulam o diário de Cassie Sullivan, a primeira narradora: uma nave alienígena se aproxima da Terra e sua chegada é sucedida por quatro “ondas”:

1) Um blecaute de todos os sistemas de energia e motores (provavelmente, provocado por um PEM – pulso eletromagnético);

2) Tsunamis colossais destroem as cidades costeiras;

3) Um vírus letal, que seria transmitido pelas aves, mata quase 100% dos que sobreviveram à 2ª Onda;

4) Seres com aparência humana começam a matar as pessoas que sobreviveram às ondas anteriores. Com isso, não se pode confiar em ninguém, pois qualquer um pode ser um dos “Outros”. No prólogo, o autor narra, de modo enigmático, como ocorre essa “possessão”, o que dá a entender que os aliens semearam seus intrusos nos ventres de humanas grávidas, anos antes da invasão.

É em meio à 4ª Onda que Cassie começa a nos contar sua história. Ela vaga pela zona rural americana, sozinha, armada com uma pistola e um fuzil M16, sem poder confiar em ninguém (qualquer pessoa pode ser um dos Outros), procurando uma maneira de resgatar seu irmão caçula, Sammy, levado por soldados.

Na sua narração, Cassie nos diz que o que estamos lendo são as páginas do seu diário, uma estratégia que depois é abandonada pelo autor, mas que apresenta, no início do livro, algo que me incomodou um pouco: a protagonista sabe demais.

Imagine que todas as luzes a sua volta se apaguem, todos os motores parem de funcionar (inclusive os dos aviões, que caem, por exemplo, ao lado da sua escola) e todas as redes de comunicação que você conhece silenciem. Você, na prática, acaba de voltar à Idade Média (com um agravante: a galera da Idade Média SABIA como se virar naquele mundo; você não sabe). Bem, se isso acontecesse, o seu mundo encolheria drasticamente e se restringiria à distância que você consegue percorrer a pé. Como saber o que aconteceu a mil quilômetros de distância? Ou em outro continente? Cassie parece acumular um conhecimento sobre a natureza do armagedom (como, por exemplo, a conclusão de que foram os pássaros que transmitiram o vírus ou a descrição de como os tsunamis foram produzidos) que simplesmente não condiz com o seu contexto. Depois, pelas coisas que acontecem ao longo do livro, ela até poderia ficar sabendo disso, mas, naquele trecho específico, era o seu diário em tempo real que estávamos acompanhando, e não um fluxo de consciência ou uma narração feita posteriormente. Portanto, ela não tinha como saber tudo aquilo – nem mesmo como saber se o cataclisma era global. Os brasileiros ou os europeus ou os asiáticos poderiam estar vivendo suas vidas numa boa; como ela poderia dizer que não? Ou, ainda, outros continentes poderiam estar às voltas com ondas bem diferentes de ataque alienígena; como ela poderia saber? Esse componente de desinformação faz falta, na minha opinião. Cassie tem respostas demais, didáticas demais, sistemáticas demais, para explicar o que aconteceu com a Terra.

A inserção do segundo narrador, Ben Parish, o ex-colega de colégio e “rei dos populares”, por quem Cassie era apaixonada antes da invasão, nos permite acompanhar a preparação da 5ª Onda. Recrutado pela mesma base militar para onde foi levado Sammy, Ben (rebatizado de Zumbi) é treinado e preparado para contra-atacar. Assim, ele e seus companheiros de caserna são jogados num campo de batalha onde não se pode confiar em ninguém – talvez, nem nos próprios colegas.

É previsível que os caminhos de Ben e os de Cassie (que procura por Sammy), voltarão a se cruzar. Desta vez, porém, há um outro pretendente no páreo: o fazendeiro (e muso, claro) Evan Walker, que resgatou a mocinha após um tiroteio entre ela e um extraterrestre e se tornou seu companheiro de jornada e mentor.

ALIENS ESPERTOS

O livro começa com Cassie tripudiando dos invasores alienígenas típicos das obras de ficção. A ideia dos monstros verdes atacando com seus discos voadores e permitindo que a humanidade se reagrupe e contra-ataque. Aliens são burros. Mas não os desse livro, nos diz Yancey por meio de sua narradora.

Os extraterrestres de A 5ª Onda são verdadeiramente inteligentes e astutos, tanto que a sua estratégia de combate praticamente inviabiliza uma resistência organizada da parte dos humanos. Se qualquer pessoa pode ser um dos Outros, como confiar em alguém? Como saber se o soldado ferido que você encontra nos fundos de um mercadinho abandonado é genuinamente humano? Como saber se alguém que acena para você na rua é um dos seus ou um dos Outros? Atirar primeiro e perguntar depois parece ser a única forma de se manter vivo. Ou seja, os invasores golpearam mortalmente não apenas os corpos das pessoas, mas as suas mentes e os seus corações. Algumas das melhores características da humanidade, como a capacidade de empatia e a de cooperação, foram transformadas pelos invasores em fraquezas, pois se importar com alguém e oferecer ou pedir ajuda pode significar ser morto. Nesse sentido, o livro pode ser visto como uma alegoria para falar de problemas do mundo real, principalmente o aumento do individualismo e a negação do Outro.

No plano narrativo, Yancey usa o clássico recurso do monstro fora de quadro para aumentar o suspense e a inquietação do leitor. O que, afinal, são os Outros? Que forma têm os alienígenas? O autor, sabiamente, adia, e muito, essa revelação. No geral, a sua concepção de alienígena é bem interessante e enriquece o imaginário da ficção científica. Além da inovação quanto à forma e à essência dos extraterrestres, o livro rompe com o tradicional maniqueísmo das histórias do gênero e apresenta invasores em várias nuances. É o que posso dizer sem dar spoilers.

UM FINAL QUE ME DESAGRADOU, PELO MENOS EM PARTE

spoiler-alerta

Se as tramas de A 5ª Onda são bem amarradas e complexas, o clímax tecido por elas me desagradou um pouco – pela inverossimilhança e pela superpopulação de dei ex machinis (sim, o plural de deus ex machina soa horrível, culpe os romanos) nas páginas finais. Certo, todos nós torcemos pelo melhor, mas é muito pouco plausível que dois ou três adolescentes invadam uma base militar labiríntica e fortemente guarnecida, toquem o terror geral, resgatem um menino escondido e escapem com vida. Admitamos, isso é forçar a barra, né? Meio que um desrespeito não apenas à inteligência do leitor, mas ao próprio livro, que tinha elementos sombrios e uma complexidade acima da média das obras juvenis antes dos trechos derradeiros.

PELO MENOS, o final não é totalmente conclusivo – o que não apenas deixa campo aberto para outros livros, como também dá a entender que o mal e o bem continuarão para sempre em luta. Como deixam claro várias personagens ao longo do romance, o campo de batalha fundamental dessa guerra não é a Terra, mas o íntimo de cada um de nós – e, lá, a guerra é perpétua.