O Homem do Castelo Alto: Philip K Dick e sua realidade alternativa

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
21/09/2016

Ganhador do tradicional prêmio Hugo, o livro O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick (publicado no Brasil pela Editora Aleph), é um exercício de futurologia do pretérito: a história se passa numa linha do tempo alternativa em que o Eixo (coalizão formada por Alemanha, Japão e Itália) venceu a Segunda Guerra Mundial.

casteloalto_frente_altaLi o livro duas vezes: a primeira há uns 10 anos e a segunda recentemente, para escrever esta resenha – e minha opinião sobre a obra mudou bastante de lá para cá.

Algo que me incomodou na primeira leitura foi a ênfase dada por PKD às vidas privadas de pessoas comuns, deixando de narrar os grandes eventos geopolíticos para se ater às vendas de bugigangas norte-americanas para colecionadores japoneses ou aos enigmáticos aforismas do I-Ching. Sempre gostei de exercícios de história alternativa e esperava detalhes de batalhas e longas descrições das transformações sociais impostas pelos nazistas em escala global. O livro não me deu nada disso.

Já na minha segunda visita a esse universo alternativo, a escolha narrativa do autor me pareceu fazer todo sentido. PKD nos imerge no mundo das suas personagens e aborda as questões macropolíticas de forma indireta, deixando algumas coisas subentendidas e sem dar nada previamente mastigado. É uma escolha inteligente. Afinal, é um romance e não um documentário. Pessoas comuns não passam os seus dias debatendo geopolítica como se estivessem recitando trechos de um livro de História.

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Apesar de a Alemanha ser a potência dominante do mundo de O Homem do Castelo Alto, a narrativa não se passa nos territórios do Reich. A maior parte da ação se dá na Califórnia, que faz parte dos Estados Americanos do Pacífico, uma região sob controle dos japoneses. Os EAP são separados do Reich (a Alemanha domina a Costa Leste dos antigos Estados Unidos) por uma zona neutra: os Estados das Montanhas Rochosas, um lugar pacato onde o tempo parou.

O livro articula diferentes núcleos narrativos interrelacionados:

– A fabricação de objetos falsificados para venda a colecionadores japoneses em San Francisco, ofício do judeu Frank Frink, que trabalha em uma fábrica que vende produtos para, entre outros varejistas, Robert Childan, dono da American Artistic Handcrafts Inc. Frink é um artesão talentoso e sonha com a criação da sua própria linha de joias, mas estas não têm mercado porque os japoneses não compram arte original, apenas bugigangas dotadas de historicidade (ou suas falsificações).

– A missão secreta do capitão Rudolf Wegener, da Abwehr (órgão militar de inteligência do Reich), que vai a San Francisco disfarçado de homem de negócios sueco (o senhor Baynes) para revelar planos das forças armadas alemãs a um militar japonês, por intermédio de Nobusuke Tagomi, adido comercial do Japão nos EAP.

– A relação de Juliana Frink, ex-mulher de Frank Frink, com o misterioso caminhoneiro italiano Joe Cinadella, em Canon City, na zona neutra.

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As personagens desses núcleos interagem em meio à crise política que se abre com a morte do chanceler alemão Bormann. A sucessão no comando do Reich torna-se uma luta entre os principais pretendentes (Heydrich, Goebbels e Göring) e o resultado pode interferir no periclitante equilíbrio do mundo partilhado entre os impérios alemão e japonês.

UM CENÁRIO DISTÓPICO

O Homem do Castelo Alto apresenta algumas visões, mais insinuadas que explicitadas, de como seria o mundo de acordo com o projeto nazista.

A história se passa no início da década de 1960 e naves germânicas já estão chegando a Marte e Vênus, enquanto aqui na Terra foguetes da Lufthansa levam passageiros da Alemanha a San Francisco em menos de uma hora. O Mediterrâneo foi drenado para expansão da fronteira agrícola e algo terrível foi feito na África: as personagens evitam falar abertamente sobre o tema, até consigo mesmas, mas dão a entender que o continente foi palco de um experimento fracassado de engenharia social, que, aparentemente, resultou no extermínio de milhões de pessoas.

Enquanto os alemães construíram uma tecnocracia calcada na ciência e na sua visão racionalista e antropocêntrica, os japoneses consolidaram um império mais atrasado do ponto de vista tecnológico e uma sociedade mais tolerante e espiritualizada, apegada a tradições milenares como o I-Ching, o livro-oráculo chinês que cai nas graças de muitos americanos.

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A partilha do mundo entre Japão e Alemanha gera, assim como ocorreu com a disputa entre EUA e União Soviética no nosso universo, uma Guerra Fria. Fiel a elementos históricos do regime nazista, o livro mostra a administração civil-militar do Reich como uma caótica competição entre órgãos rivais que se enfrentam secretamente e competem pela realização do plano ariano.

Os tentáculos do monstro nazista operam até mesmo nos territórios controlados pelos japoneses e os principais atores do jogo parecem saber que é questão de tempo até que os dois impérios se enfrentem em uma nova guerra total.

As motivações psicológicas do projeto nazista, a ânsia do Reich de, ao mesmo tempo, se expandir para outros lugares e destruir o que lá estiver, são abordadas por algumas personagens, sobretudo por Wegener/Baynes, a figura escolhida por PKD para atuar como superego do homem ariano nazista.

UM UNIVERSO ALTERNATIVO DENTRO DE UM UNIVERSO ALTERNATIVO

A pergunta pelos limites e pela natureza da realidade é o mote da maioria das obras de Philip K. Dick. Essa incerteza sobre o que é e o que não é real está presente até mesmo neste romance sobre uma distopia nipo-nazista.

Uma trama transversal de O Homem do Castelo Alto é a procura por Hawthorne Abendsen, autor de ‘The Grasshopper Lies Heavy’ (traduzido pela Aleph como ‘O Gafanhoto Torna-se Pesado’), um livro proibido pelo Reich que narra uma realidade paralela em que os Aliados venceram a Segunda Guerra Mundial. É uma referência metalinguística de PKD ao seu próprio livro.

Confrontadas com os enigmáticos aforismas do I-Ching, a trama fantasiosa d’O Gafanhoto e a busca dos japoneses pela historicidade, pela essência da verdade, se misturam num amálgama que corrói as certezas sobre o que é o mundo real e o que é ficção. Seria o nosso próprio universo uma realidade alternativa dentro de outra realidade alternativa, tal qual O Gafanhoto é uma ficção dentro de uma história de ficção?

Tais elementos fazem de O Homem do Castelo Alto muito mais do que um exercício de história alternativa. É um dos grandes livros de Philip K. Dick, um soco no estômago das nossas certezas.

Leitura recomendadíssima.