O Gato Preto, de Edgar Allan Poe

Gustavo Kaspary
Por Gustavo Kaspary
31/07/2015

Os contos de horror de Edgar Allan Poe são, de várias formas, diferentes entre si, mas todos possuem elementos fundamentais. Ao final de cada um, por exemplo, cabe ao leitor decidir seguir a explicação racional (que, na maioria das vezes, empenha-se em esclarecer determinado fato sobrenatural baseando-se na precária sanidade dos personagens) ou aceitar o oculto e o transcendente. Este ingrediente, evidente em diversas das obras de Poe, é apresentado de maneira mais intensa em O Gato Preto, história que, desde suas primeiras frases, deixa em aberto a verdadeira essência dos acontecimentos nela apresentados.

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A trama é simples: um condenado, cujo nome não é informado, decide deixar por escrito o motivo e as circunstâncias que acabaram por levá-lo à sentença de morte. Nestas notas, ele descreve sua paixão por animais domésticos e fala sobre seu mascote favorito, um gato preto que convivia de maneira natural com seu dono. A duvidosa lucidez, agravada por seu vício alcoólico, causa um ódio terrível entre o personagem e o felino, que acaba com o enforcamento do animal por seu próprio senhor. Em determinada noite, como de costume, enquanto fazia de estadia um ‘’botequim da pior espécie’’, o protagonista encontra (ou é encontrado, depende de seu ponto de vista) outro gato negro, muito parecido com o anterior, e o adota, tentando compensar os danos que fizera ao outro. Tal atitude acarreta uma série de futuros e estranhos eventos que levam o restante da mente do narrador a um final crítico.

É necessário destacar que esta limitada e sem vida sinopse de forma alguma resume O Gato Preto, uma vez que tentei, ao máximo, desviar-me de spoilers e esqueci completamente o estilo literário do autor.

gato-preto-edgar-allan-poeOs fatos que são revistos e narrados pelo personagem passam por uma série de análises feita pelo mesmo, averiguadas de forma a tentar explicá-las de maneira racional. Interessante notar que, em determinados momentos da narrativa, o relator não possui argumentos que comprovem a naturalidade de certo episódio, apelando para sua crença que ‘’em algum momento da história a vir, alguém conseguirá ter explicações razoáveis para o que me aconteceu’’. Esta tamanha investida para esclarecer o oculto, porém, não foi o principal objetivo do narrador, uma vez que ele deixa manifesto sua vontade: ‘’… Não tentarei explicá-los (os acontecimentos) nem justificá-los’’. Contudo, durante os seus relatos, querendo ou não, ele começa a questionar novamente se tudo não seria apenas uma série de fatores causados por seu instável estado psicológico, mostrando de maneira enigmática que até mesmo as criações de Poe seguem sua vontade de fazer os leitores tentarem distinguir o natural do irreal.

Seria mais do mesmo afirmar que a escrita de Poe caminha de forma magistral com a história.  A falta de detalhes do meio onde se passa não ofusca a descrição das ações dos personagens, a forma direta com a qual o escritor dedica-se em seus contos ou a maneira de retratar o estado psíquico de cada um. As palavras escolhidas pelo autor fazem com que o leitor “compre” os sentimentos e atos apresentados no conto no mesmo momento em que são lidas.

Aqueles que dão o mérito de universo compartilhado do horror apenas para Lovecraft se enganam, pois é possível perceber, neste conto de Poe, ligações com outras de suas histórias. Em certo momento, ávido a dar razão a seus atos, o narrador diz crer no demônio da perversidade, sendo que esta maldição é tema principal de um dos principais contos do escritor. Logo, fica visível que, para uma compreensão total do universo de Edgar Allan Poe, vale a vontade de ir à caça até dos seus trabalhos menos comentados. Esta busca, porém, não se faz necessária para a leitura de O Gato Preto, servindo apenas para o entendimento de uma ou outra referência encontrada durante a leitura.

O Gato Preto é um conto que não dá as respostas para as perguntas que propõe. Não obstante, não são poucos aqueles que podem se decepcionar com um final que visa não a surpreender ou entregar uma história mastigada com explicações, mas que oferece algo apto a ser objeto de teorias e reflexões após a leitura. Friso que é este ponto, em essencial, que cria a magia em torno da obra: esta ausência de esclarecimentos de algum ato ou a razão de algum sentimento de certo personagem que acrescenta uma atmosfera sombria e enigmática para a história.