O Fim da Infância: quem diria, Arthur C. Clarke também erra a mão

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
08/12/2016

Imagine que, num belo dia, um daqueles dias normais em que você está saindo de casa para ir para o trabalho, ou para buscar o filho na escola, ou para dar uma corridinha no parque, a visão do  céu da sua cidade é dominada por uma gigantesca nave alienígena, estacionada a certa altura, como quem não quer nada.

Você corre para casa ou para o primeiro lugar onde há um rádio ou uma TV e descobre que há visitantes semelhantes em milhares de outras cidades do mundo. De onde vêm as naves? Quais as suas intenções? Por que não entram logo em contato conosco? Podemos destruí-las?

Aqui, o leitor torce o nariz e diz: “Cara, isso aí é o enredo de Independence Day…”

infancia_capa_1É. Hoje, para quem já viu Independence Day, Distrito 9, A Chegada, ou para quem já leu O Guia do Mochileiro das Galáxias, esse enredo soa batido. Mas em 1952, quando Arthur C. Clarke escreveu o livro O Fim da Infância, a cena era deveras intrigante e inédita.

Em um prefácio escrito em junho de 2000, o próprio autor brinca que, se fizerem um filme sobre seu romance, “a turma da pipoca” julgará tratar-se de um plágio de Independence Day.

Outro ponto que deixa O Fim da Infância datado é que o livro foi escrito antes da corrida espacial. Ainda não havia Sputnik nem astronautas em órbita nem bandeira e jipe abandonados na Lua.

Aliás, a data da “invasão” da Terra pelas naves alienígenas não é gratuita na obra. Os visitantes chegam justamente às vésperas do lançamento do foguete pioneiro, que projetaria a humanidade no espaço. Qual seria o significado disso?

O Fim da Infância (a mais recente edição brasileira é da Editora Aleph) é dividido em duas partes. A primeira é bem interessante, já a segunda… estragou o livro, na minha opinião. Sabe o filme Nascido para Matar, de Stanley Kubrick? Pois é. Podia ser encerrado na metade sem qualquer prejuízo.

Na primeira parte do romance, a humanidade está às voltas com seus misteriosos visitantes. Claro, há tentativas de destruir as naves, que são rechaçadas com precisão cirúrgica. Mas eles não contra-atacam. Qual é, então, a sua intenção?

Um canal de comunicação é estabelecido com o secretário-geral da ONU, que vira, veja só, porta-voz dos Senhores Supremos (Overlords, no original), transmitindo ao mundo suas orientações. E esses Senhores Supremos, pelo que se pode depreender de suas ações, só estão interessados em CUIDAR da humanidade.

Guerras são proibidas, grupos hostis ao projeto dos aliens são neutralizados, os recursos e a atenção que deixam de ser gastos na guerra são utilizados para apressar os avanços tecnológicos e melhorar a qualidade de vida das populações. Tudo parece nos guiar para um futuro de paz e prosperidade. Mas por quê? O que querem de nós? Por que nos tratam como se fôssemos crianças? Quando – e como – chegará o fim dessa infância imposta à humanidade?

(Aqui, há que se ponderar se os avanços na tecnologia e no bem-estar social seriam mesmo tão grandes no cenário proposto por Clarke. Bem sabemos que a guerra, longe de frear a inovação, acelera as invenções. E o que dizer das restrições à liberdade? Transformada em rebanho, sendo pastoreada por cuidadosos alienígenas quase onipotentes, a humanidade desejaria avançar e continuar em frente? Qual seria o efeito desse mal-estar no quotidiano das gentes?)

A resposta chega na segunda metade do livro, aquela que me desagradou.

spoiler-alerta

Os Senhores Supremos, que não são tão supremos assim, preparam a humanidade para um grande salto evolutivo, que começa com o nascimento de uma geração inteira de crianças com poderes mentais inimagináveis.

Todavia, esses poderes mentais parecem não servir pra muita coisa além de alienar completamente essas crianças do mundo que as cerca e transformá-las em algo como zumbis que se fundem numa grande gosma mental que se liga a uma gosma mental muito maior – destruindo toda a vida do planeta nesse processo.

Essa grande gosma mental cósmica é um ente poderosíssimo, que escraviza os Senhores Supremos e os faz pastorear povos pelo Universo afora, para fazer com eles sempre a mesma coisa, ou seja, garantir o surgimento dessa geração de telepatas com o intuito único de aumentar ainda mais a sua própria força.

Por isso as naves interromperam a tentativa da humanidade de chegar às estrelas. Somos uma espécie com vocação para desenvolver os poderes mentais, e não para dominar o espaço físico.

Tendo a ter má vontade com soluções, como direi, místicas para livros de ficção científica. Mas creio que, mesmo para quem curte flertes com o sobrenatural, o desfecho de Clarke para O Fim da Infância é abrupto, atabalhoado e injustificado. Não me desagradou a saída sobrenatural em si, mas sim o timer excessivamente acelerado desse salto evolutivo. Os caras chegam aqui, proíbem guerras e em duas ou três gerações de fartura e de trabalhos indissociados do lazer os filhos dos humanos já começam a nascer com super-poderes e prontos para abandonarem os corpos e se fundirem com um ente cósmico de consciência pura? E destruindo toda a vida na Terra no processo?

As duas partes do livro dialogam mal entre si, é como se fossem dois livros diferentes emendados: um sem final e o outro, sem início.

Considero a obra uma “mancha” no currículo deste que é um dos meus autores de cabeceira.

P.S.: Recentemente foi produzida uma minissérie baseada no livro. Assista por sua conta e risco.