O Fim da Eternidade: Asimov passeia pelo tempo e nos leva junto

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
11/04/2017

[TEXTO LIVRE DE SPOILERS]

Publicado em 1955, o romance de ficção científica O Fim da Eternidade (lançado no Brasil pela Editora Aleph) é um dos mais originais e interessantes livros do mestre Isaac Asimov que já tive o prazer de ler.

A obra, no princípio, causa algum estranhamento até que o leitor se acostume com a terminologia e perceba que a narrativa e o enredo se baseiam numa interessante concepção geográfica do tempo: as personagens se deslocam não entre planetas ou cidades, mas entre períodos temporais diferentes.

capa O Fim Da EternidadeA tal “Eternidade” do título é uma megaestrutura construída fora do nosso eixo temporal; é como se se pudesse rasgar as “paredes” da realidade e sair para um lugar fora do tempo, onde todos os séculos que passaram e os que ainda virão são acessíveis por meio de um elevador temporal. Essa é a grande sacada do romance: tratar o tempo por um viés geoespacial, em que a subida e a descida do elevador permite entrar e sair de uma época específica.

Acompanhamos, no livro, a jornada de Harlan, um dos “Eternos”. O grupo que controla os vaivéns do tempo é dividido em categorias, de acordo com a especialidade de cada um. No topo da hierarquia dos Eternos, estão os Computadores, pessoas encarregadas de ponderar as pequenas mudanças necessárias na realidade para alterar a sequência de eventos e assegurar a harmonia histórica entre os diferentes períodos. Harlan é um Técnico, da classe dos operadores que efetuam essas mudanças e que, apesar da importância e do poder prático sobre o destino da humanidade, são mal vistos pelos demais Eternos.

A Eternidade, descobrimos, atua como tutora e, supostamente, guardiã do bem-estar da humanidade. Agentes da organização viajam pelos tempos, de século em século, promovendo pequenas mudanças para evitar acontecimentos capazes de trazer danos para o conjunto da espécie humana (e promover os que seriam benéficos). Por exemplo, se os Eternos concluíssem que uma invenção específica (como o Facebook) é um terrível mal a ser evitado pelo bem da humanidade, um técnico seria enviado a um período ligeiramente anterior à criação dessa rede social e faria algo para evitar o seu surgimento, como, por exemplo, impedir de algum modo que Mark Zuckerberg se interessasse por informática na infância.

Embrenhado em sua rotina de viajar pelos séculos promovendo transformações decisivas, Harlan cai nas graças, por alguma razão, do Computador Twissell, um dos manda-chuvas dos Eternos, e passa a ser inserido em uma missão secreta de que depende a existência da própria Eternidade. Ao mesmo tempo, o Técnico se apaixona por Noÿs, uma enigmática mulher de um dos séculos em que ele atuou, e passa a questionar os propósitos e interesses por detrás da sua própria organização.

A trama envolvente tecida por Asimov permite ao autor brincar com paradoxos temporais, discutir causalidade, destino, determinismo e controle social. Quais os reais propósitos dos Eternos ao efetuar as mudanças na realidade e controlar o rumo da História? Quais as consequências desse controle para a  humanidade?

O Fim da Eternidade discute rumos possíveis para o desenvolvimento da civilização e timelines alternativas – e traz presente em sua narrativa o esforço de Asimov de integrar todas as suas obras em um mesmo universo. É um romance sobre o que poderíamos ser e sobre os rumos que a humanidade pode tomar.

Leitura recomendadíssima.